Ninguém nasce mãe, torna-se.


Hoje estou aqui para dar voz a milhares de mães que assim como eu, amam seus filhos de todo o coração, mas desde a gravidez fizeram muitos sacrifícios para que fossem felizes. Troquei de lugar com a minha filha para descrever o que realmente está por trás da frase “as dores e as delícias da maternidade”.

venus

Eu sempre quis ser mãe e idealizei uma vida de comercial de margarina: eu, meu marido e nossos filhos. Depois de interromper o uso da pílula e mesmo assim não engravidar, decidi fazer um tratamento e mais ou menos cinco meses depois, uma amiga que me viu comendo cajá com sal disse que eu estava grávida. Fiz o exame de sangue e lembro de meu marido pedir que eu o esperasse sair do trabalho pra pegarmos o resultado: positivo. Foi uma felicidade imensa, eu e meu marido desejávamos com todo coração uma criança.

Aos quatro meses de gravidez, eu não podia mais comer coisas salgadas por causa do inchaço em minhas pernas e precisei fazer uma dieta, pois não podia sair do meu peso. Aos cinco meses, meu marido, antes de ir trabalhar, me ajudava a calçar meias especiais para pausar o inchaço e me levava para casa da minha mãe, onde eu permanecia em repouso. Meu manequim foi do 38 para o 46 e meus pés de 36 para 39. Alguns meses depois, nasceu nossa princesa.

Minha mãe teve câncer dois anos após o nascimento da minha filha e veio pra minha casa após uma cirurgia paliativa, já quenão havia chances de recuperação. Ela, ainda bem pequena, cuidava da avó junto comigo. Alguns meses depois, minha mãe veio a falecer. Uma tristeza muito grande na minha vida que me levou a uma depressão, mesmo com o meu marido sendo meu alicerce. Eu tinha minha mãe como uma referência imensa na minha vida. Ela teve dez filhos e cuidou de todos da mesma forma e com o mesmo amor. Sofreu muito com a perda dos pais quando tinha apenas 14 anos e ela e minha tia lutaram muito para sobreviver e trabalharam na casa dos próprios familiares por um prato de comida. Nordestina, veio para o Rio de Janeiro já casada com meu pai, que apesar de nunca nos deixar passar fome, gostava de beber e deu muito trabalho para nós. Todos os conhecimentos que herdei dela, eu passei para minha filha.

A irmã da minha mãe, além de tia, era minha madrinha e como uma segunda mãe. Ajudou a me  criar , a meus irmãos e faleceu há dois anos, outra perda que me abalou muito. Assim como minha mãe, ela também veio jovem e casada para o Rio de Janeiro, mas sofreu muito nas mãos do marido e da sogra. Apesar de tudo isso, ela teve sua trajetória marcada por ser uma pessoa generosa, que ajudava a todos que precisavam, chegando até a criar os netos. A sogra foi uma pessoa muito ruim para ela e mesmo assim, quando adoeceu, minha madrinha cuidou dela durante mais ou menos dez anos e antes de falecer, a mesma chegou a pedir perdão pela forma como a tratou. Não teve filhos, mas amou a todos como se fossem dela.

Meu marido faleceu, por conta de um câncer, três anos depois da minha mãe, quando eu ainda me recuperava pela morte dela. Minha filha tinha 5 anos. Tudo o que eu havia idealizado para minha vida se esvaiu. Agora éramos apenas eu e minha filha, que sofreu muito com a perda do pai, teve dificuldades para aceitar a morte dele e precisou até de acompanhamento psicológico, pois além de não aceitar, acreditava que eu havia deixado o pai no hospital e me culpava por isso. Lembro até hoje que segui a recomendação da psicóloga e a levei ao hospital para que então acreditasse no falecimento do pai. Ela subiu as escadas com um sorriso no rosto, porque acreditava que o veria, mas quando abri a porta e ela viu que não era mais seu pai no leito, voltou para o corredor triste, cabisbaixa e não deu mais uma palavra. Foi preciso continuar o tratamento.

Eu era muito jovem quando fiquei viúva e nada seria mais natural do que retomar o percurso da minha vida. Ser mãe e pai tão nova não foi fácil. Eu ainda queria sair e passear com amigos, mas tinha medo de deixar minha filha. Decidi nunca mais me relacionar, porque eu tinha medo de trazer um homem para a minha vida, já que ter uma filha numa sociedade machista é ter que redobrar a atenção, pensava que se algo acontecesse a ela, eu seria a culpada. Sem passeios, relacionamentos ou trabalho, eu resolvi dedicar minha atenção toda a ela. Meu marido pediu pra que eu continuasse a viver, me incentivou a reconstruir minha vida, seu único pedido foi que eu cuidasse da nossa filha.

Uma vez, cheguei a escutar: “ainda bem que você teve juízo e não teve outro filho”, ou seja, ainda bem que você não se relacionou novamente ou voltou a trabalhar, a passear e curtir, que bom que você morreu pra vida. Essa visão deturpada do que é a maternidade é que precisa acabar. Hoje eu penso diferente. Minha filha é tudo pra mim e não a culpo ou me arrependo de ter abdicado de certas coisas, mas hoje, com a cabeça que tenho, eu não deixaria de viver a minha vida e nem de cuidar dela, porque é possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo e a mãe que faz isso não é um monstro, é simplesmente uma mulher que possui desejos, vontades e tem total direito de realizá-los. Minha filha não tem culpa, a sociedade que cobra da mãe que ela morra pra vida e seja apenas mãe é que é culpada.

Minha filha nunca foi de me dar dores de cabeça, cresceu e tornou-se meu maior orgulho. Hoje é universitária e posso dizer que acompanhei cada fase da vida dela bem de perto. Cada pequena conquista, desde o primeiro passinho até o primeiro diploma. Às vezes, ela até briga comigo pelo excesso de preocupação que tenho, mas também me ajudou a compreender que muitas dessas preocupações são fruto de uma estrutura da qual nós duas somos vítimas: o patriarcado. Os filhos devem ser a evolução dos pais, minha filha é a minha evolução e fico muito feliz por ver quem ela se tornou.

Desejo um feliz dia das mães a todas as mães que praticam a difícil dupla jornada de ser mulher e mãe e dedico todas essas palavras às mulheres que me ensinaram a ser quem eu sou: minha mãe, minha madrinha e minha filha.

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