Fala que nem homem, seu gay!


Se “Coé bróder” está para os machudos assim como “Nhái bunita” está para as pintosas, fica claro que a linguagem tem papel importante na definição entre o que é firmeza e o que é lacre. Tanto nas conversas digitadas quanto na língua falada, os graus de masculinidade e de feminilidade atribuídos às palavras e ao timbre de voz ou ao jeito de falar denunciam o teatro de gênero que representamos em nossas identidades e até mesmo em nossos desejos.

DandoPintaSloganNo festival de horrores disponível nos aplicativos de pegação, a questão da voz/jeito de falar aparece de forma suuuuper delicada – só que não – em perfis que dispensam quem “fala miando” ou tem “voz de pato”. Nada de novo sob o arco-íris, já que essa é apenas uma variação mais específica do “não curto afeminados”. O problema, no caso, é que um homem soe feminino, e dependendo do radicalismo esse “defeito” pode até anular “qualidades” como corpo sarado ou “barba de lenhador”.

Sempre que o desejo está em discussão se cria polêmica, simplesmente porque não estamos acostumados a pensar sobre os mecanismos responsáveis por nossos “gostos”. Quem lembra de quando a Marília Gabriela entrevistou o Harry Louis e os comentários chocados falavam da decepção causada pela voz do rapaz, que aparentemente quebrava a imagem de ativão dominador construída em seus filmes pornô? É como se na cultura que endeusa o comportamento masculino existisse uma tabela de pontos para coisas como altura, músculos, pau grande e voz grossa, com a afeminação funcionando sempre como medida de inferioridade e moldando a nossa performance.

Basta pesquisar por “voz grossa” no Google para que uma infinidade de matérias sobre o assunto – entre pesquisas científicas, achismos e listinhas curiosas – trate do poder de sedução da voz, sugerindo que ela funcione como uma “propaganda da nossa sexualidade” e fazendo a ligação entre os timbres mais graves e as qualidades de força e liderança que biologicamente atrairiam as mulheres e ameaçariam os outros homens, o que faz algum sentido. Entretanto, é importante pensar em como as narrativas sobre o gênero masculino em nossa sociedade afetam essas pesquisas ou pelo menos a interpretação de seus resultados, lembrando que dados que podem parecer conclusivos para um tipo de saber talvez sejam insuficientes em um recorte mais amplo.

No caso da sexualidade, embora algumas questões biológicas certamente tenham seu valor, estamos falando de um entendimento social sobre desejos e práticas sexuais. Em nossa era, transformamos a sexualidade em parte fundamental do próprio conceito de identidade – tanto que existe o termo “identidade sexual”. Assim, se estamos analisando especificamente a homossexualidade masculina, seria simplista afirmar que gostamos de voz grossa porque procuramos parceiros do sexo masculino agindo biologicamente como fêmeas. Pro bem e pro mal, o buraco é mais embaixo e somos um pouquinho mais complexos, até porque uma mesma pessoa pode mudar completamente de uma foto para outra e mesmo entre áudios, nudes e mensagens…

Meu primeiro contato com teoria queer e essa história de “performance de gênero” se deu no teatro. Como já me interessava pelo tipo de coisa que pesquiso hoje, quando chegou a hora de concluir meu curso eu queria acabar com a dúvida que tinha se seria capaz de convencer interpretando um personagem heterossexual nos palcos. É, naquela época eu ainda tratava desses temas de forma bastante essencialista. O bom foi que esse trabalho me apresentou uma série de leituras e de experiências que efetivamente resolveram o “problema”, não porque eu tenha mudado minha forma de andar ou falar, mas porque fizeram com que eu entendesse que essas representações já estavam acontecendo o tempo todo, comigo e com os outros. A forma como falamos com nossos pais é diferente daquela usada para zoar com os amigos, que certamente é diferente da maneira – tanto no falar quanto no gestual – como nos dirigimos a um chefe ou a um professor.

No caso dos gêneros existem “verdades” construídas sobre os papéis “de homem” e “de mulher” que produzem saberes também, como técnicas de fonoaudiologia para engrossas ou afinar a voz, o estudo da fonética dizendo que é feminino alooooongaaaar as vogais ou o treinamento de movimentos precisos – como golpes – para gestos “masculinos” e arredondados – como os do balé – para os femininos. Observar tudo isso é fascinante e também libertador, porque fica fácil de ver como as pessoas utilizam essas ferramentas até mesmo sem se dar conta delas.

Será que os manos que falam ou escrevem “coé”, “blz”, “fmz”, “suave” e afins realmente utilizam essas palavras no dia a dia ou dentro de seus recortes de classe e região, ou de repente esse linguajar “mais macho” quer projetar uma masculinidade idealizada? Não que isso seja essencialmente condenável, mas será que sem o machismo e a homofobia esse tipo de projeção seria valorizada? Quantos desses gays que hoje rejeitam quem “fala miando” escutaram, na infância, um “fala que nem homem” em forma de esporro? É nessa espiral de ação e reprodução de preconceitos que a homofobia atinge seu objetivo mais cruel: nos matar por dentro.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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