A maternidade e a maldição divina

A maternidade e a maldição divina

Certa vez, um amigo do meu marido disse para ele: “Você tem que ter filhos. Filhos dão sentido à vida.” O tom de conselho paternal não me tocou, e, na verdade, me fez lembrar bem mais de algo irrelevante e, ao mesmo tempo, autoritário: o “crescei e multiplicai-vos” do patriarca Noé.

venusPara falar sobre a maternidade, vou partir dessa fábula da mitologia cristã, a do dilúvio. Deus se arrepende de ter criado o homem e decide destruir toda a sua criação, com exceção de Noé e sua família, para que dela pudesse nascer uma nova humanidade. Ora, se a humanidade de antes não deu certo, e Deus achou que destruí-la seria a solução, faria todo sentido criar uma nova humanidade a partir dela própria, certo? Errado. Mas foi o que Deus fez, mandou Noé construir uma arca para salvar sua família, que, depois, copulou entre si para proliferar a espécie, orientada por Noé, que disse: “Sede fecundos, disse-lhes ele, multiplicai-vos e enchei a terra.” De todas as ordens que o texto bíblico nos dá, essa é uma das que menos fazem sentido, a começar pelo fato de que Deus se arrependeu de ter-nos criado, então por que contrariá-Lo e procriar, não é mesmo?

De qualquer forma, a criação divina está aí, multiplicando-se, proliferando-se, chegando aos sete bilhões de indivíduos e destruindo absolutamente tudo o que está criado, seja por Deus, seja pelo próprio homem, seja pela natureza. A vontade divina se cumpriu, tanto a da destruição, quanto a da multiplicação de homens. Talvez, o projeto de destruição Dele não era propriamente o dilúvio, mas a civilização criada e mantida por Noé e seus descendentes. Para que sujar as mãos, se Deus tinha o homem para acabar com o mundo? Mais fácil nem se dar ao trabalho. O que Ele fez foi dar uma das tantas amostras da Sua ira, oferecendo o exemplo de conduta, e deixou que os homens reproduzissem a si e o modus operandi divino. E no meio disso, estávamos nós, mulheres, e nossos úteros servindo para produzir essas ferramentas do projeto de Deus.

O primeiro motivo pelo qual eu não vou ser mãe é que se Deus tem um projeto para nós, então o meu projeto é a desobediência. Para mim, a liberdade é o maior dos valores. Um símbolo de autoridade me parece, por isso, algo artificial e contraditório à natureza humana, essa que Deus quer destruir. Em segundo lugar, é importante lembrar que, antes da história do Noé, temos a história do Adão e da Eva, que são castigados pela desobediência a Deus, quando comem o fruto do conhecimento. O castigo do Adão é o trabalho – terá que cultivar a terra para dela extrair seu sustento, já que não terá mais tudo disponível como tinha no jardim do Éden; e o castigo da mulher é a dor do parto, ou seja, a maternidade com sofrimento. Não sendo mãe estou burlando essa maldição divina, que é também uma punição absurda, já que o único crime que Eva cometeu foi se interessar pelo conhecimento e querer dividí-lo com Adão.

Meu terceiro motivo é entender que conceitos são criações dos outros, não minhas. A civilização criou o conceito do indivíduo do gênero feminino como aquele que deve se restringir ao casamento e à maternidade, assim como os conceitos de o que é “coisa de homem” e o que é “coisa de mulher”. Sendo conceitos que eu não criei, não me dizem nada. O que é “coisa de mulher” para mim é o que eu quero fazer ou ser. E a maternidade não se inclui nisso. Meu quarto motivo ainda tem relação com a civilização, que se desenvolveu para a sociedade do trabalho, que precisa de muita, muita gente. Tanto gente para realizar o trabalho, quanto de gente para consumir. Quanto de gente para votar, para ser público alvo, contribuinte, passageiro, fiel, ovelha e exército. Como disse anteriormente, eu prezo pela liberdade, e a configuração desse mundo restringe a liberdade para que possamos servir aos propósitos da civilização. Assim sendo, para mim é mais do que óbvio tanto sabotar o status quo não oferecendo mais gente para o sustentar, quanto optando por fazer coisas que gosto, em vez de ser mãe.

Por fim, vem a vocação. A individualidade tem muito definido tudo aquilo para que temos vocação. Uma pessoa pode ter vocação para ser engenheira, motorista de táxi, cantora. Ou pode ter vocação para praticar esportes, ver filmes ou fazer artesanato; ou para tudo isso.

Ou a pessoa pode gostar de sorvete de chocolate, ou de morango, ou de baunilha. Acredito que a maternidade é uma vocação. Prova disso é que existem mães boas e mães ruins. É claro que uma civilização que precisa de muita gente cria o mito da mãe perfeita, que faz as pessoas pensarem que não existem mães ruins. Assim como também cria o mito da mulher perfeita, fazendo as pessoas acreditarem que não existe mulher sem instinto materno. Mas, mitos são criações – que eu não criei. E que precisam ser, de uma vez por todas, entendidos como isso que são: meros mitos, pura fantasia. Ainda sobre a individualidade, volto à ideia pueril do amigo do meu marido, de que filhos dão sentido à vida. O que dá sentido à minha vida sou eu mesma. Não estou dizendo que todo mundo deve viver sozinho, mas que todo mundo deve ser feliz sozinho, antes de pensar em adicionar pessoas à sua vida. Fora que, não consigo imaginar nada mais covarde e egoísta do que depositar em uma criança inocente toda a responsabilidade de dar sentido à vida de um adulto. Coitados dos filhos desse amigo do meu marido. Penso na quantidade de gente que pensa como ele, e que multiplicou-se em, pelo menos, mais um, e a quantidade de pessoas frustradas e infelizes que eu imagino existir nesse planeta alcança uma proporção astronômica.

Não que eu tenha que dar satisfação para ninguém; a ideia em escrever isso é fazer com que outras mulheres se identifiquem com alguém que não tem vocação para ser mãe e entendam que elas são livres para decidir sobre o que farão com seus corpos, como formarão suas famílias, como é sua individualidade e de que forma elas querem ser parte do conjunto. Eu, como mulher livre, e com projetos de vida entre os quais a maternidade não se inclui, aproveito também a oportunidade para anunciar que meu útero está à venda, interessados inbox.

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