O feminismo e seu poder de cura

O feminismo e seu poder de cura

São muitas as formas de atuação do patriarcado para distanciar as mulheres e uma das principais consiste na competição inconsciente que nos torna rivais desde o berço. Por isso, estamos constantemente atacando e ferindo umas às outras. E existe um movimento de cura: o feminismo.

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Passei boa parte da minha infância sendo atacada por outras meninas. O motivo? Eu nunca correspondi à noção de feminilidade que atribuem ao meu gênero. Brincava de barbies e cozinha, mas nunca fui uma menina meiga, pelo contrário, era e ainda sou o tipo de mulher que não costuma titubear pra dar uma resposta. Isso me tornou automaticamente o desvio do padrão, que era ser uma menina carinhosa. Ainda criança, sofri os primeiros ataques femininos das colegas de sala.

A estética me favorece e hoje compreendo que eu me encaixo no padrão ditatorial de beleza, mas há dez anos, as cacheadas eram perseguidas e eu perdi muitas noites tentando encontrar alguma forma de alisar o cabelo. Aí chegaram as progressivas e eu não pensei duas vezes ao me render a esse poder. Dez anos depois, eu me encontro em transição capilar e cada vez mais apaixonada por cada cachinho que brota timidamente no meu cabelo além de me sentir imensamente feliz por ver as mulheres cada vez mais poderosas amando a forma natural de seus cabelos.

Durante a adolescência, eu me rendi à competição. O primeiro relacionamento longo que tive, ainda aos 15 anos, fez com que eu entrasse em uma disputa discreta com outra mulher: a ex. Estávamos em uma eterna briga por um cara que merece ficar sozinho e que desejo que saiba o quanto eu me libertei ao terminar um relacionamento tóxico e abusivo. Espero também que um dia eu possa dizer a ela que sinto muito por todas as ofensas trocadas. Se tem uma coisa que a ex não merece e nem a atual é brigarem por causa de homem. Mas especialmente no nosso caso, nós não merecíamos nem o homem em questão.

Às mulheres dos meus ex-namorados, posso dizer para algumas o quanto fico feliz de saber que estão ao lado de alguém que realmente merecem. Por elas, fico feliz. Por outras, é uma tristeza infinita não poder chamar pra conversar sobre como ela se meteu em uma furada e por essas, eu estarei aqui quando quiserem conforto e cura. Eu já caí na velha ilusão de que iria mudá-lo.

Estive carregando comigo a culpa de todas essas feridas durante muitos anos da minha vida. As tristezas que senti por não compreender que isso tudo é fomentado por um sistema, que genocida a nós mulheres diariamente, foram se esvaindo no momento em que comecei a perceber que essas mulheres também são vítimas. Quando finalmente entendi que quando ataco outra mulher, estou ferindo a mim também. Se reproduzo machismo, contribuo pra que eu e todas as outras sejamos violadas. Foi quando me senti livre e compreendi a importância da sororidade.

Se eu preciso desabafar, posso contar com as minhas amigas. Se publico uma foto no Facebook, mulheres de todos os lugares, que nem sempre conheço pessoalmente, deixam sua curtida e comentam deixando minha auto-estima nas alturas. Se penso em desistir, elas estão lá pra dar ânimo. Se uma mulher está precisando de auxílio, feministas se organizam e criam campanhas para ajudá-la. Isso é o que me move.

Àquelas mulheres com quem já discuti ou entrei em uma disputa, àquelas a quem ofendi ou causei algum mal e até mesmo àquelas que me magoaram, eu sinto muito por nós, sinto por tudo que eu possa tê-las feito passar e por tudo que fizeram comigo. Mas eu não guardo mágoas, não sinto nenhuma raiva ou inquietude quando penso em vocês. O que brota é simplesmente uma tristeza por termos desperdiçado energia e anos valiosos das nossas vidas em uma briga desnecessária. Muitas são as mulheres que passam pela minha mente agora. Vejo seus rostos, sorrisos e com algumas, eu ainda mantenho contato, outras estão somente na minha memória, mas a todas essas mulheres, eu desejo a cura. Eu desejo o feminismo.

Diante de uma sociedade que força a nossa competição, o amor e a amizade entre mulheres é a própria revolução.

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