Corpo não documentado


EU: Queride, então, esse papel quer dizer que você é você.

ET: Mas essa pessoa do papel é você?

EU: Não.

ET: Por que você precisa disso?

EU: Pra tudo. Pra morar, pra viajar e comprar coisas.

ET: Mas então quem fala quem é você?

EU: Os outros.

Faz um ano que me dei esse lindo nome: Ariel. De lá pra cá foi tiro, porrada e bomba. A transição de gênero bagunçou minha vida financeira e passei a ter problemas de habitação. Basicamente, estou há um ano sem casa. Porém, depois de muito pensar, resolvi encarar o aluguel novamente e recomeçar. Reuni forças e amigos e decidi: vamos lá!

Estava tudo indo bem, até que chegou a tão comum burocracia desumana da imobiliária. Esses formulários por si só já são uma violência contra qualquer cidadão, mas me abalaram bastante. Tudo fica pior quando você diz ser uma coisa e seu documento diz outra. Eu não sabia o que fazer. Os formulários são herméticos, não tem espaço para nenhuma observação além da enorme má vontade dos profissionais desse ramo, que me parecem preocupados apenas se você vai pagar ou não, a ponto de fazerem perguntas desconcertantes sem nenhuma intimidade.

Casada? Solteira? Renda fixa? Gay? Ah, ganha dinheiro? Então prova. Não sabia como me apresentar, se como homem ou mulher. No fim das contas colapsei, ajudei meu amigo (cis) com os documentos mas não consegui dizer que sou mulher e, ao mesmo tempo, tive que dizer para tornar o empreendimento possível.

Sinceramente, não desejo isso para pessoa alguma. É uma situação que me paralisou. A burocracia é uma violência sem sangue. Para mim, e para muites trans, formulário é um drama cotidiano. Demorei 27 anos pra ter coragem de ser quem eu sou e agora isso, um formulário com 5 cm para se colocar um nome e outro espaço pra colocar um número, tudo baseado no que um médico viu entre minhas pernas em 1987.

Eu fico com a sensação de que tem algo não dito, algo importante. Os processos vão acontecendo, carimbos caros, linguagens oficiais, taxas surreais, papéis nos envelopes, escritórios com homens engravatados e eu aqui sem espaço pra dizer que na verdade eu não sou essa mulher aí da foto.

Com tudo isso acontecendo, sonhava com formulários, números e códigos. Ontem foi o auge, sonhei que uma nave de alienígenas pousava na Terra, um ET me procurava e perguntava “o que é um documento de identidade?”. Eu, sem saber  responder, mostrei meu RG.

Abstrações à parte, aproveito esse texto para fazer um apelo: chega de transfobia nos processos burocráticos. Estamos em 2016, #transvivo existe desde sempre, não somos uma novidade social, mas a sociedade invisibiliza as trans-vivências, os desobedientes do status quo (vagina-mulher e pênis-homem) são marginalizados. Precisamos, diga-se de passagem PRA ONTEM, ser incluídos nesse tal estado democrático de direitos. A mulher da foto não é o #transvivo que fala, ama, trabalha, namora e dança.

Quero agradecer ao meu amigo (e agora companheiro de casa) que gentilmente se dispôs a negociar com a imobiliária. Nico, disso eu não esqueço, razô viado!  

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