MASTURBASELFIE: Vale a pena estrelar nosso próprio pornô?


No meio da madrugada o celular começa a apitar loucamente. Um novo grupo do WhatsApp, 307 mensagens, 150 pessoas… Quem criou isso? Quem saiu? Opa, foto de pau. Vídeo carregando, um cara puxou assunto por fora. De onde tc? Manda nudes? Onde esse povo pegou meu telefone? Ah, tem esse cara aqui daquele grupo de sacanagem do Face, só pode ser. Ih, não, tem esse outro que já conversei no Grindr. Eita, o Maurício lá da firma também está aqui! Melhor sair do grupo e marcar como spam, sei lá. Alguém mais me viu?

DandoPintaSloganConveniências da modernidade. Se antigamente a homossexualidade precisava de linguagem em código e lugares secretos em vielas escuras, hoje a próxima transa se esconde atrás de uma foto sem cabeça nos aplicativos. Diariamente, grupos privados nas redes sociais postam nudez artística-transgressiva-libertária-anarquista-de-faculdade que basicamente se resumem à mesma profusão de pintos e bundas trocadas nas negociações conversas por inbox. Seria uma resposta ao crescimento do conservadorismo entre os gays na última década, que de certa forma funcionou como estratégia política de inclusão?

Logo no início da minha vida sexual – ou seja, em outro milênio – saí com um cara muito bonito e fomos para um motel. Durante a transa, ele parava a toda hora para mudar de posição e procurar aquelas que, no espelho, ficassem assim ou assado, literalmente “dirigindo” o sexo. Anos depois, saí com um cara que tinha conhecido em um grupo de discussão e a onda dele era ficar tirando fotos da transa para depois postar no tal grupo como um registro do nosso encontro, de algo gostoso que tinha nascido dali. Acontece que a única coisa boa foram as fotos mesmo!

Esse texto não é uma crítica a algum fetiche. No primeiro caso, até por causa da minha falta de experiência, estranhei o que rolou porque nunca tinha passado por aquilo. Entendo que o apelo visual existe e temos aí toda a produção pornográfica criando e ao mesmo tempo satisfazendo um tipo de olhar sobre o que e como queremos ver o sexo para nos excitar, nos ensinando até como fazer sexo. O tal cara ainda tinha uma piração com a própria beleza e ficava falando coisas tipo “olha para a minha cara, olha você me pegando, olha ali no espelho”, enfim… Foi meio cômico, porque apesar de estarmos transando não tínhamos intimidade para isso, então ele não sabia – e nem se preocupou – se eu estava na mesma onda ou não.

O segundo episódio me lembrou disso porque também existia esse prazer de ver, de pedir para ver. Concordei em tirar as fotos porque não fazia diferença para mim e porque posteriormente poderia curtir mandar para outras pessoas, me masturbar relembrando a transa, não sei. Entretanto, ali naquela hora, era importante que o sexo fosse bom, e acabou não sendo porque toda hora tínhamos que parar para pensar em um ângulo, colocar a cabeça de um jeito, a bunda do outro, etc.

Sexo tem muito disso, da descoberta. Qualquer relação, na verdade. Não acho que essas experiências tenham sido propriamente ruins porque foram interessantes para pensar sobre essas coisas, e acho que na trajetória de qualquer pessoas sexualmente ativa vão existir esses episódios variados. Há momentos e pessoas que nos estimulam a explorar fantasias mais hardcore, relações que pedem mais calma, etc. De repente, não bate química com aquela pessoa em que você tinha o maior tesão ou então aquela outra que não te dizia nada se revela um grande amante, nunca se sabe.

O fato é que a internet faz parte das nossas vidas, e com os smartphones estamos cada vez mais conectados. Com os blogs e com o YouTube, a mídia informal está cada vez mais popular e a produção de entretenimento também sofreu impacto, inclusive no segmento adulto. A indústria pornográfica segue firme e forte, mas são os vídeos amadores que ocupam o maior espaço no Xtube e que viralizam nos grupos de conversa, tanto nos casos lamentáveis de exposição não autorizada e vingança quanto nos casos de exibicionismo saudável. Quantas frases trocamos em uma conversa antes de pedir nudes e, em alguns casos, nunca sair do virtual? A satisfação da curiosidade sobre o corpo do outro e mesmo o estímulo de algum vídeo às vezes são o suficiente para acalmar o tesão, especialmente na rotina maluca das grandes cidades que joga a nossa vida cada vez mais para esse espaço cibernético. De certa forma, nos satisfazemos em produzir e trocar essas imagens quase como se fôssemos sims cumprindo uma tarefa de jogo.

Não sei se cabe dizer se isso é bom ou ruim. Como tudo que diz respeito ao desejo, me parece óbvio que vai ser legal para algumas pessoas e que não vai funcionar para outras. Talvez não estejamos muito longe de robôs sexuais e relações via realidade virtual que permitam que se tenha intensa atividade sexual sem jamais ter que encostar em alguém. Certamente seria um tipo radical de sexo seguro, além de um mercado amplo a ser explorado. O que me parece lógico é que, uma vez que a nudez sempre foi tema da arte e que também aparece nos primórdios da fotografia, a facilidade que temos hoje para produzir uma pornografia de nós mesmos vai afetar definitivamente a maneira como nos relacionamentos com o sexo, especialmente dentro de uma identidade social ultra sexualizada como é a dos homens gays.

E se é inevitável, talvez o melhor mesmo seja relaxar e gozar!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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