Todo o poder de sedução da Fafá de Belém em “Atrevida”

Todo o poder de sedução da Fafá de Belém em “Atrevida”

“Atrevida” foi o terceiro disco da cantora Fafá de Belém, lançado em 1986 como contratada da Somlivre. Produzido por Max Pierre e com arranjos de Lincoln Olivetti, o disco revela o momento em que a artista se dividiu entre a sedução e o feminismo, com temas de amor e de afirmação de suas vontades, antes sujeitas à aprovação do seu parceiro. Em “Atrevida”, Fafá mostrou as múltiplas faces da mulher, desde a que cuida, sonha e briga por seu amor, assim como a que não abre mão de ser atendida por seus desejos mais carnais.

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Fafá já estava sendo duramente criticada na época pela mudança do seu repertório. Antes, mais regional e restrita, gravando grandes nomes ditos “de primeiro escalão” da música popular brasileira, ela, ao assinar com a Somlivre, trocou o linguajar mais sofisticado para se tornar mais acessível e popular. Para muitos, isto denotou decréscimo artístico. Para Fafá, a sua consagração para atingir em cheio o coração do povo, com canções mais apaixonadas e menos “cabeça”.

O disco abre com a versão de “Nobody does it better”, já conhecida na voz de Carly Simon, trilha de James Bond em “The spy who loved me” (1977). Escrita em português pela própria Fafá, “Meu homem” ganhou versos de forte apelo sentimental e é dedicada àquele que a faz se sentir plena, viva e desejada. Percebe-se que a voz da cantora ganhou novos alcances, outrora mais grave e um tanto rouca, agora ocupa mais espaços, arriscando falsetes.

Múltiplas faces – A presença de Ivan Lins e Vitor Martins traçou o fio condutor nas faixas que possuem as letras que mais refletem a alma feminina, a exemplo de “Minha estrela” e a faixa que batiza o título do disco. Nem todas as mulheres são iguais. Algumas nascem pra ser santas. Outras realizam-se na maternidade. Há aquelas que abrem espaço no que anda proibido. E também as que, insatisfeitas, viram a cabeça e mudam de atitude. Dizem não ao que as faz sofrer. Quando Fafá diz “Agora eu tenho é fome de homem que seja feliz”, há uma explícita negação de um comportamento masculino que não dá ouvidos à mulher e que age conforme a uma norma social que as rebaixa, não deixando-as exercer seus direitos. Essa mulher que contesta quer um homem mais bem resolvido.

Fafá resgatou, em “Atrevida”, uma canção de Roberto e Erasmo Carlos, gravada em 1977, “Cavalgada”, repleta de intenções sexuais, dando maior carga emotiva e uma nuance que se enxerga toda a cena em que a cantora revela, através dos versos, suas fantasias eróticas. Eleita para ser tema de abertura da novela global “Sinhá Moça” (1986) estrelada por Lucélia Santos, “Pra não mais voltar” era até então um poema inédito da cantora Maysa (1936-1977), musicado por Ivan Lins. Acabou também lançado o autor Leonardo Sullivan, irmão de Michael Sullivan, em “Memórias”. A música puxou as vendas do disco e foi por si só a responsável pela conquista do certificado de platina pela marca das 500 mil cópias vendidas, tornando-se um dos seus títulos mais vendidos.

Por mais que soe datado para os dias atuais, pelos elementos eletrônicos usados por Lincoln Olivetti no acabamento dos arranjos, o discurso feminista de “Atrevida” permanece atual, em um momento em que muito se discute a emancipação da mulher e a luta por seu espaço, seja no campo profissional, familiar e sentimental. Fafá ousou, novamente, por ter levantado sua voz à favor de uma minoria. A mulher fatal que esbanjava sensualidade com seus seios fartos, provou que, dentro da aparente breguice, existe coerência e motivos de sobra para se fazer ouvir e ser notada.

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