O que gayzinhos necessitam fazer pra ficar bonitos?


Foi notícia em todo mundo. Do Brasil à Austrália, sites gays e portais de fofoca comentaram a transformação de Chris Crocker, famoso por defender Deus Britney Spears no viral “Leave Britney Alone”. O rapaz efeminado e desgrenhado de antes, que lançou clipes em drag e fez até filmes pornô, agora exibe os dentes brancos sob uma barba convidativa e músculos apertados em camisetas justas. Está lindo, lindo…

DandoPintaSloganNa verdade, não é novidade. Desde 2011, quando anunciou que faria filmes pornô, Chris já exibia um corpo e um estilo mais próximo aos padrões de masculinidade exigidos por essa indústria e pela cultura gay. Por algum motivo, o fato foi redescoberto agora e ganhou repercussão, com muita gente se mostrando espantada por tamanha “evolução” na aparência do rapaz.

E o que esse caso comprova?

O próprio Chris sabe a resposta. Em vídeo postado no Facebook, agradeceu aos elogios e perguntou: “estou mais bonito porque deixei de ser andrógino?” E continuou comentando que há muitos anos se identifica como uma pessoa trans, mas que não tem condições de investir na transição e que devemos nos sentir bonitos quando conseguimos ser verdadeiros, sem preocupação com que a sociedade considera belo. Hoje, ele é tão sincero quanto consegue ser, mas ainda não está certo de ter atingido a aparência que considera verdadeira, então recomenda uma atitude positiva sobre a diversidade e diz que devemos nos sentir atraentes mesmo quando não conseguimos “passar batido” na “normalidade”.

A questão é óbvia, mas polêmica. Além da inclinação humana a classificar – e logo em seguida, hierarquizar – as coisas, a produção de “verdades” sobre os assuntos funciona em círculo, descrevendo e prescrevendo essas verdades e as transformando em conceitos sociais. O “belo” segue um determinado padrão, e quando algo é considerado bonito nós aprendemos COMO É alguma coisa bonita. Assim, ao identificar e repetir esse julgamento, o padrão se estabelece. E como a classificação e mesmo a criação de identidades funciona por oposição, a criação do “belo” automaticamente cria o “feio”, assim como acontece com “certo” e “errado”, “masculino” e “feminino”, etc.

Sempre que o assunto ressurge na comunidade gay, o “tribunal da internet” vocifera que questionar isso é atacar a sacralidade do “gosto pessoal” ou alimentar disputas dentro de um grupo estigmatizado. Entretanto, insistir que valorizamos características como a pele branca, a magreza (ou músculos) ou a masculinidade NATURALMENTE, como se a apreciação desses valores pela cultura não significasse nada é desonesto, estúpido ou simplesmente maligno.

Chris Crocker é um produto das redes sociais. Uma pessoa que faz vídeos para chamar atenção e é criticada por alguns e aplaudida por outros. Quando surgiu, independente do assunto considerado fútil, foi xingado de tudo quanto é nome por causa da postura histérica, dos olhos maquiados e do jeitinho afeminado. Ficou famoso pelo ridículo da cena, muito mais do que pela mensagem que partilhou. E agora volta aos holofotes porque para algumas pessoas é espantoso que na passagem da adolescência para a vida adulta ele tenha deixado a barba crescer! Não é incrível? E claro, ele também deu uma malhada, mas isso não é comum entre homens gays, tão pressionados a construir corpos “saudáveis” e “masculinos” para negociar desejos nos aplicativos? Malhar não pode ter sido, também, uma condição para o ingresso na indústria pornô, que também molda e reflete nossos padrões de consumo sexual?

LEAVE PINTOSAS ALONE! Essa é a mensagem. Não desse rapaz, que sabe na pele a dor e a delícia de ser indesejável, mas dos milhões de comentários que gritam que ele agora está melhor e que, portanto, antes era pior. É a mesma mensagem do “Não sou e não curto afeminados” e textos similares, tão facilmente encontrados em anúncios gays.

Ninguém é obrigado a ficar com quem não quer ou a tentar enxergar beleza onde não vê. O que se torna uma obrigação – especialmente quando essa questão vira bandeira política – é uma visão mais ampla e sofisticada dos mecanismos de opressão e de como eles agem de forma insidiosa, construindo nossas subjetividades e nos fazendo perpetuar filosofias negativas sem nem sentir. Não é crime achar que alguém ficou mais bonito de barba. O crime é achar que essa é uma verdade óbvia, até porque manda a mensagem de que os outros valem menos. Obviamente que entre likes e dislikes isso pode parecer inofensivo, mas quando expandimos o olhar para a grande estrutura da sociedade e pensamos em como o machismo é afirmado, esse tipo de declaração funciona como mais uma pedra atirada a um criminoso.

O que gayzinhos necessitam fazer para ficar mais bonitos? Se a resposta é “serem menos gays“, alguma coisa está muito errada. Afinal, que espécie de respeito exige uma coisa dessas?

Leave Britney Alone

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta toda quarta, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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