A poeira da glória, de Martim Vasques da Cunha


Sob o subtítulo de “Uma (inesperada) história da literatura brasileira”, Vasques, no decorrer das mais de 620 páginas, faz mais que escrever uma história da literatura, seu projeto é o de traçar, por meio das obras e de autores brasileiros, uma identidade política, sob o viés do que muitos consideram ideologia (palavra que ele constantemente usa em tom depreciativo) de “direita” do povo brasileiro.

Estante2A análise proposta, além de referenciais mais voltados para discursos de direita são logo por ele mencionados no prefácio, como algo que ele sabe ser um elemento que o tornará alvo de críticas ao que tem a dizer. Ora, quem se permite julgar a obra sem lê-la por completo, cairá no que ele, a certa altura do seu trabalho, na fuga ao debate de ideias, algo muito corriqueiro nos dias de hoje entre a nossa “intelligentsia”, pensamento esse que é destacado na quarta capa e que, aqui, reproduzimos abaixo:

“Qualquer um já viveu a seguinte situação: ao presenciar um debate entre cientistas, políticos, historiadores, filósofos, críticos literários e escritores, percebeu-se que, por trás da superfície da polidez e das palavras bonitas, todas emolduradas por conceitos como ‘tolerância’ e ‘pluralismo’, no fundo ninguém concorda com ninguém, e todos querem ter somente uma garantia de que o seu quinhão, o status quo, não foi atingido, sequer arranhado. Não estão em busca daquela travessia arriscada que o filósofo inglês Michael Oakeshott chamava de ‘a aventura da conversação’. O que eles querem manter é a sua posição nos labirintos do poder. Procura pela verdade? Podem esquecer. O que esses sujeitos pretendem é permanecer na mentira custe o que custar.”

Polidez e palavras bonitas são o que de longe Martim faz uso ao fazer as considerações e análises dos problemas que ele considera serem o mal em que estamos imersos e de como isso muito se deve aos nossos literatos, análises que têm um fundo e embasamento filosófico pautado na tríade Bem, Belo e Verdadeiro.

É claro que em certos momentos, e graças que são poucos, ele se perde nas críticas as teorias de análise marxistas e sociológicas, como as feitas pelos nossos ilustres Antonio Candido e Sérgio Buarque de Holanda. Na maior parte do tempo ele consegue ser bastante coerente e “comedido”.

Aliás, quem acredita que o posicionamento político de Martim fará um elogio à dita “direita brasileira”, muito se engana, para ele, a direita e a esquerda brasileira são muito mais parecidas e, perceber isso em seu texto o faz sair do senso comum dos embates sobre política que nos restringe aos partidos políticos, algo muito pequeno no âmbito da disciplina política.

Enfim. A história literária de Martim é menos uma história da literatura, tendo em vista que o volume de obras e autores, bem como os objetivos dele ao analisa-los diferem do que se entende por histórias literárias, porém, isso não desmerece em nenhum momento o trabalho ali desenvolvido, uma vez que, a quantidade reduzida, geralmente dois autores por cada capítulo e nem sempre seguindo uma perspectiva retilínea da produção, e sim por aproximações – uma espécie de protótipo de cartografia -, tornam o texto muito mais denso, o que é, com toda a certeza, uma qualidade do trabalho.

Outra coisa que chama atenção de modo bastante positivo é a análise do trabalho de historiadores e de críticos literários, como já se deu a perceber quando, acima, mencionamos as críticas a Sérgio Buarque e Candido. Também é muito interessante o posicionamento que ele tem frente a autores canônicos e endeusados, como Machado de Assis e Mário de Andrade.

Para quem cursou a Faculdade de Letras ou estudou Literatura Brasileira de forma um pouco mais aprofundada, com textos teóricos, sabe que, tanto o ‘Bruxo do Cosme Velho’ como um dos pais da Semana de Arte Moderna de 22 são endeusados e seus estudiosos, muitas vezes, vivem em uma cegueira que beira a parvoíce e que, por conta do enorme tempo dedicado a eles, muitos outros autores são deixados de lado.

Por isso, foi com grande prazer que lendo o livro me deparei com figuras que, infelizmente, não havia tido contato durante a minha formação acadêmica, como foi o caso de Nelson Rodrigues, autor que eu já conhecia um pouco, fosse pela biografia “O anjo pornográfico”, de Ruy Castro, ou pelas adaptações televisivas; ou a descoberta de Otto Lara Resende, autor mineiro modernista, do quem, eu, durante a leitura de “A poeira da glória”, li “Boca do Inferno”.

Esse, talvez seja, junto com o maior tempo dedicado aos autores, por não serem muitos, é a maior qualidade do trabalho apresentado, tendo em vista que não concordo muito com o posicionamento de que a Literatura tenha que ter a função de se preocupar com a moral (mesmo que não seja do tipo reducionista, moralizante).

No último capítulo, há ainda a menção e análise de romances e autores mais atuais, como Daniel Galera e seu “Barba ensopada de sangue”.

Por fim, Martim consegue atingir o seu propósito de traçar o perfil do brasileiro politicamente por meio da literatura, autores e projetos nacionais envolvendo-os, ainda que possamos considerar que esse é apenas um espectro de uma identidade, haja vista que, toda a história literária faz escolhas dos autores que serão trabalhados e que análises são sempre feitas por perspectivas de pensamento, ou seja, não são nunca totais.

#ESTANTE, era pra ser uma sexta sim e outra não, mas a Literatura não aceita mordaças, ela exige reflexão e discussão, em qualquer hora e em qualquer lugar.

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