O vôo livre do pássaro de Maria Bethânia


“Pássaro Proibido”, 13° álbum da santo-amarense Maria Bethânia, completa 40 anos em 2016. O disco abriu-lhe as portas do sucesso popular graças à sua marcante interpretação para “Olhos nos olhos” de Chico Buarque. Na década de 70, o Brasil vivia sob forte domínio da ditadura militar e a figura de uma ave, ali, representava uma tão sonhada liberdade.

nossa senhora do comebackApós ter gravado a duo com Chico Buarque um disco ao vivo no Canecão (RJ), em comemoração aos seus dez anos de carreira na gravadora Philips, Maria Bethânia retornou ao estúdio sob direção de Caetano Veloso e Perinho Albuquerque, para dar sequência ao seu trabalho. Apesar de nunca ter participado de movimentos de contravenção cultural (não quis ser musa do tropicalismo, nem da bossa nova e muito menos participou da marcha contra a guitarra elétrica), Bethânia permitiu-se dar voz a uma insatisfação frente a falta de liberdade artística, tolhida pela censura.

Orixás – A força magnética captada pelo belo clique da fotógrafa Marta Viana deu para a capa do disco um ar de divindade sobre a cantora. De olhar fixo e contemplativo sobre o horizonte, Bethânia apresenta-se como uma orixá. O seu contexto encaixa-se nos versos de “As ayabás” (Caetano Veloso/ Gilberto Gil), faixa que abre o disco: “É uma moça cismada/ Que se esconde na mata/ E não tem medo de nada”. A figura mítica Iansã, conhecida por seu temperamento forte e que domina os ventos e os raios, é a única que enfrenta e domina os eguns (espíritos desencarnados ou alma de pessoa morta). Além de Euá, a senhora das possibilidades, outra orixá reverenciada na canção é Oxum, responsável pelas águas, pela união e da prosperidade. Todas elas são consideradas mães-rainhas, pela ligação à fecundidade e a feminilidade. Outra figura materna que comparece em modo católico se enxerga na música “Mãe Maria” (Custódio Mesquita/David Nasser), dando sentido à continuidade da vida através da gestação. Considerada a Padroeira do Brasil, a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida surge na contracapa do vinil com a citação: “Doce Mãe dessa gente morena”.

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Sem poder falar com todas as letras do descontentamento geral sobre a situação socioeconômica do país, muitos autores usavam manobras para driblar os censores, por meio de metáforas, no intuito de comunicar na canção seus ideais. Em “Balada do lado sem luz” (Gilberto Gil), a voz de Bethânia serve como veículo deste lamento: “Hoje eu canto a balada do lado sem luz/ A quem não foi permitido viver feliz e cantar como eu/ Ouça aquele que vive do lado sem luz”. A própria faixa-título, escrita por Caetano Veloso, denuncia essa opressão, mas sabendo que voar é transpôr as barreiras do regime ditatorial, vencido pela palavra: “Pássaro proibido de sonhar/ O canto macio, olhos molhados/ Sem medo do erro maldito/ De ser um pássaro proibido/ Mas com o poder de voar”.

Olhos nos Olhos – Faixa que impulsionou as vendas do disco, rendendo à Maria Bethânia o seu primeiro disco de ouro, a dolente música composta por Chico Buarque narra a história de uma mulher apaixonada, que dá a volta por cima após o abandono do homem amado. A sua vingança é mostrar para o outro que o fim simboliza um recomeço mais vitorioso. Vê-la feliz, sem a sua presença é o seu maior trunfo, mantendo as portas abertas para um possível reencontro.

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Mas o disco não é todo protesto e nem todo tristeza. Há pontos de luz na festiva “A Bahia te espera” (Herivelto Martins/ Chianca de Garcia), resgatada do repertório de Dalva de Oliveira de 1965, que apresenta o sincrético estado em sua exuberância cultural, convidando o ouvinte a conhecer. A alegria da vinda da chuva para a seca do sertão é também celebrada em “Festa”, outro resgate do repertório de Luiz Gonzaga, gravada originalmente em 1968. Há espaço para romance no bolero em espanhol “Pecado” (Bahr/ Pontier y Francini) e em “Amor, amor” (Sueli Costa/ Cacaso).

O disco “Pássaro Proibido” conseguiu sintetizar o discurso politizado de sua época, assim como reafirmou sua orientação religiosa e suas raízes, elucidando memórias afetivas de sua infância. Na sequência, Maria Bethânia reuniu-se com Gal Costa, Caetano e Gilberto Gil, pra formar o mítico “Doces Bárbaros”, embarcando numa turnê que geraria mais um disco ao vivo, seguido de um documentário dirigido por Jom Tob Azulay. De lá pra cá, a cantora, que rendeu à Estação Primeira de Mangueira o título de campeã do Carnaval deste ano, voou livremente para dar voz às canções que todos fazem pra ela.

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(Máteria complementar da Revista “Hitpop/Junho de 1976)

Relembre os sucessos do passado na Nossa Senhora do Comeback, a coluna musical d’Os Entendidos.

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