Humilhado: como a era da internet mudou o julgamento público, de Jon Ronson

Humilhado: como a era da internet mudou o julgamento público, de Jon Ronson

Jon Ronson, em Humilhado, busca compreender neste livro, publicado no final do ano passado pelo selo Best Seller do Grupo Editorial Record, os mecanismos que levam as humilhações públicas que acontecem na internet.

Estante2O livro, de leitura leve e agradável, inicia com ele relatando uma experiência particular, na qual teve o seu perfil no Twitter clonado e transformado por um spambot, uma espécie de perfil robô que faz publicações por si mesmo.

É a partir dessa experiência, que pra ele foi humilhante, que ele começa a pensar a respeito, daí segue narrando sua pesquisa e entrevistas com diversas pessoas que, em algum momento, passaram pela humilhação pública na internet, principalmente no Twitter.

A pesquisa de Ronson acaba levando-o a compreender como a justiça “do mundo real” se comporta no que se relaciona a esse fenômeno do julgamento público e humilhante, o que nos traz algumas informações bem interessantes sobre a história dos julgamentos públicos e de estudos sobre o movimento de multidões, de forma desgovernada, em busca de justiça.

O acusado não tem direito a defesa, não tem direito ao julgamento. Quem os acusa são juízes e carrascos. Há, de um lado, a sua desumanização. Ele é transformado em uma espécie de monstro que deve ser expurgado da sociedade e quem age assim crê que o faz em nome de algo bom, um bem maior. A pessoa, juiz e  carrasco, se sente como uma espécie de ser útil, uma benfeitora.

A conclusão que ele chega é que esse tipo de comportamento acaba por normalizar as práticas e condutas humanas na internet, o que me lembra, de certo modo, a normalização estuda por Foucault em seus estudos sobre a loucura. O louco não tem direito à palavra, deve ser somente retirado do meio social, acusado, julgado, humilhado e deixado no ostracismo.

Depois de o tribunal da internet ter finalizado o seu processo, vai-se em busca de outro réu, que ao contrário do que foi bem no início desses processos de humilhação pública, não se restringem mais as empresas e grandes corporações, mas atingindo mesmo pessoas desconhecidas. Pessoas essas que, depois que são substituídas pelo mais novo escândalo, são deixadas de lado, sem se importarem o que a humilhação causou em suas vidas.

Desde a recente campanha do Banco Itaú, acusado de ensinar a ortografia errado, ao dizer que digital é com ‘u’ e não com ‘l’ ou com o casal e o filho vestidos de personagens de Alladin ou o desmerecimento dos discursos de Beyoncé, por ela ser rica e famosa.

Esses eventos todos têm em comum o fato de que muitos perdem o poder de dialogar e tentar compreender o que está além da superfície, e aproveitando para jogar em cima dos outros os mais diversos discursos de ódio que podem existir. Isso pra mim ficou bastante claro, recentemente, nesse carnaval.

Uma das escolas de samba entrou com integrantes de uma ala carregando balões de hélio, que logo foram soltos. Uma página no FB de proteção ambiental aproveitou desse ocorrido para falar sobre os prejuízos que esses balões trazem para o meio ambiente.

O que se viu nos comentários foi um show de horrores, senhores.

Aproveitaram-se disso para falar do mal do carnaval, do povo brasileiro, que é coisa do demônio, que muita gente morre por conta de embriaguez, que o povo devia se preocupar com os problemas do país e ir trabalhar, ao invés de ficar sem fazer nada em feriados, que isso não colaborava em nada a situação crítica da economia brasileira. Ou seja, nada que realmente tivesse relacionado com a discussão proposta (e fosse uma redação de ENEM, seria zero por fuga ao tema!).

E, embora isso não chegue a ser do que trata exatamente o livro de Ronson é de uma proximidade absurda, já que mostra o descontrole das pessoas ao discutir temas, ao dialogar com outras.

No mais, só não compreendi os destaques dados pelas críticas de jornais como Guardian e Independent, que evocaram humor e hilaridade para o livro de Ronson. Em suas 300 e poucas páginas, o que eu encontrei foi um estilo de escrita leve, que torna a leitura de um tema um tanto espinhoso, agradável. Mas nem de longe se pode considerar que isso tenha algo de engraçado.

Lugar de livro é na Estante, a coluna literária d’Os Entendidos.

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