Romagaga e os indesejáveis que só podem morrer


Acabou a Romagaga. Vítima de transfobia, a web celebridade anunciou o fim da personagem e de sua página no Facebook enquanto raspava a cabeça em um vídeo emocionado. Entre lágrimas, a explicação: “É o fim da palhaça, porque é essa a visão que as pessoas tem de mim. Travesti não tem valor nenhum para a sociedade.” Nos comentários, o costumeiro sermão sobre quem “não se dá ao respeito”.

DandoPintaSloganRomagaga é um produto de nosso tempo. Uma mulher trans heterossexual – que a princípio se identificava como um jovem gay afeminado – que viralizou na internet com vídeos engraçados onde, aos berros, falava sobre cantoras pop, lançava gírias e “pagava mico” com performances em casa, na rua ou em motéis. Não demorou para que a fama se traduzisse em milhões de likes e seguidores nas redes sociais, entre fãs e haters, e em convites para apresentações em boates gays pelo Brasil.

As críticas sempre foram muitas, e das mais batidas. Que ela não podia pedir respeito por “não se dar ao respeito”, que esse tipo de palhaçada é que “nos envergonha”, que “essa bicha não me representa”, que ninguém é obrigado a gostar de escândalo, que esse tipo de “humor” é vulgar, que ela só quer saber de aparecer, que se bota a cara a tapa tem que aguentar, que é feia, que é pobre, que é deslumbrada, que é isso, que é aquilo… E como cantou sua musa Lady Gaga, Romagaga acabou consumida pelo monstro da fama. Esmagada pelo sistema que só tolera as diferenças até a página 2. Que até curte, pero no mucho.

Ela foi vítima da perseguição de um grupo chamado “Máfia Maliciosa” que orquestrou denúncias, xingamentos e ameaças de morte em sua página, inclusive prometendo atacá-la durante algum de seus shows. Ou seja, ameaçando matá-la se ela OUSASSE sair de casa para trabalhar.

O caso é reflexo do tratamento dispensado aos “indesejáveis”. Ninguém é obrigado a gostar de travestis, de gays afeminados, de gordos, de negros, de mulheres, de pobres, de nenhuma dessas “minorias” que são maioria em nosso país, exceto nas posições de poder. Ninguém é obrigado a gostar do tipo de humor da Romagaga ou de achar bonito esse movimento de pessoas que procuram “aparecer” na internet, nem é obrigado a sentir e professar atração sexual ou afetiva por essas pessoas. A luta nunca foi essa. O que é uma obrigação é o respeito, porque ele é direito universal. Ele não pode ser condicionado a um tipo de comportamento, a valores morais e culturais específicos. Qualquer animal merece respeito. Criminosos ainda merecem respeito – não importando quanta gente acredite que não – a seus direitos e à sua integridade física, etc. Desrespeitar os outros é desumano, e infelizmente pessoas como a Romagaga ou a Inês Brasil, à margem da sociedade por questões de gênero, raça e classe, são desumanizadas para nosso entretenimento e desrespeitadas como se isso tivesse graça.

O grupo que atacou a artista é criminoso porque fazer ameaças a alguém é crime e ponto. Entretanto, essas pessoas só se sentiram nesse direito porque a sociedade afirma e reafirma que pessoas como Romagaga não são dignas de viver. Estivesse ela se prostituindo – o que é uma atividade legal e perfeitamente digna, quando escolhida conscientemente – ninguém acharia ruim. Ela estaria ocupando o lugar reservado às travestis. Se fosse cabeleireira ou maquiadora, estaria dentro de um nicho naturalizado como “lugar de gay”. O que não pode é aparecer falando na internet sem censura, é ser convidada para programas de TV, é ganhar cachê para fazer uma apresentação em um palco. Aí, já é demais. É um pária social tendo a desfaçatez de se colocar sob os holofotes, talvez até lucrando mais do que honrados trabalhadores que enfrentam o busão lotado às 7 da manhã para ganhar a vida honestamente. Afinal, quem ela pensa que é?

Não sei se Romagaga vai voltar. Espero que sim, nem que seja para “lacrar o cu das inimigas” – como ela diria. Mas vou entender se ela não quiser voltar a se colocar nessa posição, já que não há razão para alguém fragilizado se transformar em alvo constante de ódio. O que acho interessante, nem que seja como lição, é que esse episódio sirva para pensarmos na maneira raivosa como tratamos as pessoas e no impacto que certas palavras podem causar. Eu nunca perdi nada porque alguém como a Romagaga existe ou está na mídia, e nem deixei de sofrer preconceito por ser gay só porque por acaso não me pareço com ela. Quando não gosto de um vídeo, de um texto, de uma página, simplesmente ignoro, entendendo que algumas pessoas gostam e que várias manifestações artísticas diferentes estão ganhando espaço na rede. Gostar ou não gostar de alguma coisa não me faz superior, então não preciso ofender alguém para reforçar a ilusão social de uma posição hierárquica entre dois fodidos.

Afinal, na hora da lampadada, do exorcismo ou do ataque dos bolsominions, estamos todos no mesmo barco. À margem. Indesejáveis. MATÁVEIS.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia a Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página. Na semana que vem a coluna faz aniversário, e teremos um anúncio bombástico sobre o futuro do espaço mais fabuloso da blogayfera! 😀

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