“Antropofagia” não é bagunça


Texto do nosso colaborador Eduardo Nunes*.

Eu vou botar teu nome na macumba
Vou procurar uma feiticeira
Fazer uma quizumba pra te derrubar
Oi, iaiá
Você me jogou um feitiço, quase que eu morri
Só eu sei o que eu sofri
Que Deus me perdoe, mas vou me vingar
– Dudu Nobre,  “Vou Botar Teu Nome Na Macumba “
Êh Iansã, só vós podeis me ajudar
Chame meu Pai Ogum
Mande ele vir me salvar, êh Iansã (bis)
Porque tem alguém trabalhando
Comigo querendo acabar, êh Iansã
Avisa meu Pai Oxalá, êh Iansã (bis)
– Ponto de Umbanda

Nenhum Artista é autoridade para discutir qualquer coisa. Se a arte for objetiva demais perde, inclusive, um dos seus maiores poderes: a metáfora, a margem de interpretação, a alegoria. Do mesmo modo nenhum sujeito, Artista ou não, está desvinculado da sociedade em que vive, do berço cultural em que foi formado e de todo um conjunto de valores que são, por essência, contraditórios. Todo Artista que se preze acredita no que faz, cria por algum motivo pessoal, dialoga com o que desejava e lança sua obra para o mundo. Ser Artista é ter coragem. O(A) Artista vive da Alma do Mundo, sua sensibilidade a faz querer devorar tudo ao mesmo tempo – Comer, Digerir, Reelaborar, Vomitar de volta, “Antropofagizar”. O Artista vive disso. O Artista não tem carta branca para tudo. Toda Arte se realiza em quem a aprecia e, portanto, ela está sujeita a interpretações múltiplas e a tocar em pontos que o Artista nem imaginava que fosse possível. Porque depois de criada e jogada aos leões, a Arte só se torna Arte quando não mais pertence a quem fez. Ela vive da Dialogia, deste encontro entre quem faz e quem vê, aprecia, sente, frui.

Da Vinci, talvez o Artista mais importante do Renascimento Italiano, no seu esforço de Representar a Natureza da forma mais real e concreta possível nos aponta três fatores essenciais que precisaríamos nos ater:

  • Os fenômenos ligados ao olho e à percepção ótica;
  • A necessidade de empreender mensurações concretas”;
  • A aplicação direta dos princípios da Geometria.

Séculos depois, influenciado por este pensamento, Cézanne (Impressionista) aplicaria o primeiro destes fatores para discutir que “as montanhas à distância ganham um tom azulado”. Ou seja, a forma concreta das coisas era influenciada pelos efeitos de distância e de luz. Ponto fundamental para o entendimento do Impressionismo (entre outros tantos) a transformação do uso dos efeitos de Luz e Sombra em efeitos de Luz e Cor. Só no século XIX, com este movimento artístico, a forma das coisas deixou de ser tão perseguida, a natureza formal passou a não ser o único elemento balizador da criação e foi possível não apenas idealizar a mensagem por trás da obra (Neoclássico- XVIII), mas dar à imagem a interpretação possível aos olhos, de acordo com o modo em que se vê. E isso, do ponto de vista conceitual, é maravilhoso!!! Depois disso, houve solo fértil para as vanguardas, pois não havia mais uma forma oficial de construção, mas uma efervescência delas. Esvaziada a necessidade da forma ideal convencionada, a Arte se preocupou com seu conteúdo. Exemplo bom disto é o Expressionismo, que discutia a miséria humana no período pós I Guerra Mundial, a ausência de sentido em tudo, com corpos humanos que não correspondiam a “forma natural”, mas expressavam estados de alma, algo retomando pelo Teatro do Absurdo após a II Guerra.

Toda obra de Arte está sujeita ao mundo social que a cerca. Por isso, boa parte dos quadros do século XVIII só tratavam da burguesia e as peças Melodramáticas do mesmo período, tão populares e bem sucedidas, não entram nos livros didáticos tão facilmente quanto as peças Românticas. Nenhuma obra de Arte é neutra ou despretensiosa. Quem diz o contrário, pretensiosamente mente. Quando o Moinho que dava forma aos Ventos do Modernismo foi desaparecendo algumas posições davam conta de que “as obras de Arte deveriam praticamente abrir mão de suas particularidades e, no limite, dissolver-se no mundo”. Como nos conta Rodrigo Naves:

“Parece que o não reconhecimento das dificuldades da atual experiência histórica tem conduzido a uma incorporação exterior e rebaixada de dinâmicas que terminam sendo apenas tematizadas, sem que os trabalhos de Arte tenham a capacidade de aceder – e de revelar – à articulação destes movimentos e estabelecer com a realidade uma relação em que eles, justamente por agirem como força interna ao mundo que fendem, mostram também capazes de apresenta-lo como uma realidade menos impositiva, cujas fissuras cabe à Arte (entre outras forças) revelar e manter.”(NAVES, 2007)

Então a saída encontrada para muitos Artistas para ausência de uma forma, uma escola, um movimento artístico com forma forte o suficiente para se impor como estilo, tem sido a tematização de seu trabalho, seu apelo Engajado, não necessariamente à Esquerda, diga-se de passagem. Então, o que a obra de Arte diz passou a ter destaque. Convencionou-se que o Artista precisa se preocupar com o que diz. E isso não é novo e nem fenômeno isolado de nossa contemporaneidade. As músicas, peças teatrais, obras visuais ou de dança sempre disseram algo, e seu discurso sempre foi discutido pela plateia. O que acontece é que outras forças além daquelas que eram e continuam sendo hegemônicas disputam esta audiência, sua legitimidade e, principalmente, sua validade, não apenas como Arte, mas como discurso. E isso é uma revolução porque reconhece a multiplicidade do Espectador.

Nenhum artista pode mais esperar que o público vá ver e acatar tudo o que fez em sua genialidade sensível. Isso quer dizer que todo Artista vai se moldar às mil diferentes vozes só pra agradar? Ele não seria Artista se fizesse isso. Toda pessoa que trabalha com Arte deve defender o que produz ao mesmo tempo em que tem muita segurança do que se quis dizer. Rodrigo Naves também me faz pensar que esse fenômeno de difusão dos ventos criativos aponta para a necessidade de encontrar equilíbrio entre o discurso pretendido e a proposta estética/artística. Afinal não é uma palestra e sim Arte. E concordo com o pensamento de que Arte não se explica, é conversa com os sentidos, com as emoções. Entretanto, Arte se discute. E se discute principalmente as emoções que nos provocam. O nome disto é Educação Estética. Função que tento exercer há pelo menos dez anos.

Lembro aqui do discurso emocionado de Viola Davis no Emmy 2015, premiação de TV e Cinema norte-americana. Ela disse que não se pode ganhar prêmios por papéis que não existem. Nossa sociedade é extremamente complexa, dividida e possui inúmeros conflitos e vozes que carecem de canais de elocução. Encontrar esses espaços continua sendo uma tarefa muito difícil.

Setores acadêmicos da pesquisa e metodologia da pesquisa foram, durante a segunda metade do Século XX, questionados em seus métodos de abordagem sobre grupos sociais específicos. Grupos dos quais esses pesquisadores não faziam parte e que, mesmo assim, sua sensibilidade acadêmica decidia debruçar seu olhar, porém, para que seu olhar não contaminasse o “objeto” eles se mantinham distantes e apenas observavam. Esse seria o método clássico de trabalho na sociologia, a grosso modo. Destas críticas surgiram propostas como a Pesquisa Ação e a Pesquisa Participativa. Para o meio acadêmico tudo era – e ainda é – possível de análise e discussão, mantendo sempre em vista que quanto maior o distanciamento do objeto, melhor. É uma estratégia deste tipo de Mercado enxergar os produtos do povo, mas separados das pessoas que os produzem, “valorizá-los apenas pelos lucro que geram” (CANCLINI, 1982).

O popular é o outro nome do primitivo: um obstáculo a ser suprimido ou um novo rótulo pertencente a mercadorias capazes de ampliar as vendas a consumidores descontentes com a produção em série. (…) ele inclusive se apropria delas, reestrutura-as, reorganizando o significado e a função dos seus objetos e de suas crenças e práticas, (…) o reordenamento da produção e do consumo no campo e na cidade, a expansão do turismo e a presença de políticas estatais de refuncionalização ideológica. (CANCLINI, 1982)

E esse tipo de relação, presente na produção artística contemporânea, reduz o étnico (identidade) ao típico (estereótipo). Por Estereótipo entenda-se:

s.m. gráf. chapa ou clichê usada em estereotipia; estéreo, estereotipia;
p.met. gráf. trabalho impresso com chapas de estereotipia.

Sendo que Clichê, na cultura geral, seria uma ideia batida, formula repetida. Ambos os casos tem o sentido diferente da palavra Alegoria que significaria:

s.f. modo de expressão ou interpretação que consiste em representar pensamentos, ideias, qualidades sob forma figurada.
fil. método de interpretação aplicado por pensadores gregos (pré-socráticos, estoicos etc.) aos textos homéricos, por meio do qual se pretendia descobrir ideias ou concepções filosóficas embutidas figurativamente nas narrativas mitológicas.

Reduzir as culturas, existências e povos a figuração disponível para o uso e fruto ainda faz parte da ordem do dia, porém não é exatamente alegoria, posto como método para ler além das aparências conforme verbete. É separar o “É” da “Coisa”. É ficar com aquilo que é vendável. Está mais para um conjunto de estereótipos, clichês construídos através de preconceitos. Histórias, contadas por aqueles que detêm poder social, repetidas vezes a ponto de se tornarem a única versão conhecida e/ou válida.

Quando se tem diversas vozes que não conseguem dizer nada sobre si mesmas porque existe uma linha intransponível e há outra voz falando o que bem entende sobre a vida dessas outras sem pertencer a elas, é normal que exista um choque. Que a Arte perca o privilégio intocado de ser Arte e tenha seu discurso escrutinado. O sujeito, alienígena àquela realidade, sobe num palanque e diz o que bem entende sobre aquilo, reforçando muitas vezes preconceitos, estigmas, relações de poder, travestindo um conjunto horrendo de estereótipos sob o véu inocente da alegoria e se o apreciador contesta foi ele que não entendeu a metáfora. Nestes casos podemos muito bem trocar o uso da palavra “alegoria” por “opinião”. E aí voltamos aquele velho pesquisador-sociólogo tradicional. Sua opinião não teve o cuidado de perguntar ninguém. Você, artista, na autoridade que tem, apenas foi lá e disse, por que todo mundo diz, por que é o que se convencionou na aparência e no jogo social comum, sem se atentar que o jogo social comum tem um conjunto de forças conflitantes e em desigualdade de condições.

Ser Artista, com esse poder de comunicar metáforas, de explicitar aquilo que é oculto, de usar a alegoria como instrumento de tornar grande aquilo que está desapercebido não é mais que uma grande responsabilidade. Ouvir Gabriel O Pensador cantar “Até Quando?”, o Emicida sua “Boa Esperança” ou a “Formation” da Beyoncé servem como exemplos próximos do exercício consciente e empoderador desta potência, do ser Artista e de como muitas vezes isso não é vendável porque fere a ordem, o senso comum. Fere aquilo que se pensa sobre determinado grupo. Isso pra não falar de GOG, da Ellen Oléria ou mesmo da Renata Rosa. No que diz respeito ao direito de ser, de botar pra fora, Ney Matogrosso é um dos melhores exemplos que conheço e, em entrevista muito madura para Mariana Godoy, na Rede TV, oferece boa mostra. Assim como qualquer entrevista que possamos ter acesso com Elis ReginaRenato Russo ou Cazuza dão pistas de que estes e tantos artistas pensaram muito antes de cantar alguma coisa. No teatro, o desbunde de Zé Celso Martinez não é sem propósito, impensado nem sem intenção. Mas, ainda assim, tem Artista que esqueceu que pensar faz parte do ofício. 

Se um Artista não consegue entender um pouco destas dinâmicas e da responsabilidade que é ser Artista, eu sinto dizer, mas ele precisa estudar.

BARROS, José D’Assunção. Arte é coisa mental: reflexões sobre o pensamento de Leonardo da Vinci sobre a arte. Artigo. Revista Poesis. Nov. 2008
CANCLINI, Néstor Garcia. Las Culturas Populares em el Capitalismo, Editorial Nueva Imagem, Mexico, DF, 1982.
NAVES, Rodrigo. O Vento e o Moinho: Ensaios sobre Arte Moderna e Contemporânea – São Paulo: Cia das Letras, 2007
DESGRANGES, Flávio. A Pedagogia do Espectador/ Flávio Desgranges. – São Paulo : HUCITEC, 2003

*Eduardo Nunes: Licenciado em Teatro pela Universidade Federal da Bahia, professor de Arte e História da Arte, nas Redes Pública e Privada de Ensino. Vitória da Conquista – BA
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