O swing de Daniela Mercury antes do trono


Oriunda da banda Companhia Clic, na qual foi vocalista entre 1987 e 1990, gravando dois discos experimentais para o selo Eldorado, fundindo ska, pop e axé, a cantora Daniela Mercury partiu para carreira solo e lançou o seu primeiro disco (homônimo, em 1991), que legitimou sua identidade e lhe abriu espaço na música baiana, ao som dos tambores que lhe dariam, posteriormente, o título de rainha do gênero que despontou nacionalmente.

nossa senhora do comebackGravado no estúdio WR em Salvador, o disco traz a intérprete preocupada com o estilo musical que traria consigo dentro do repertório. Após beber de muitas fontes e da experiência trazida como cantora de barzinho e de trio elétrico, Daniela preferiu adotar o samba-reggae como condutor e gravou autores de sua terra, unindo-se aos expoentes da música baiana. E usufruiu do ecletismo de cada um deles, projetando-os, sem medo de correr riscos, a exemplo da parceria com Durval Lelys (Asa de Águia) no funk “Vida é”, no qual denota necessidade de romper o estabelecido, escolher um lado, sair da zona de conforto, indo por todos os lugares. Daniela resgatou, em prol das particularidades folclóricas e literárias do Brasil, “Geleia geral” (Gilberto Gil/Torquato Neto), de discurso tropicalista, momento do disco em que também denota necessidade de abraçar outras influências.

Toque afro – Tal como aconteceu com Margareth Menezes ao ter uma composição de Luciano Gomes como seu primeiro sucesso, “Faraó, divindade do Egito”, Daniela obtém “Swing da cor” do mesmo autor, como carro-chefe do disco. Há uma dualidade presente entre a súplica de que o amor não a deixe e um não à resistência ao som provindo das quadras de ensaio do Pelourinho, onde o grupo Olodum era regido pelo mestre Neguinho do Samba (participante da faixa), criador da nova divisão rítmica percussiva que ainda permeia a música baiana. A intérprete convida o ouvinte a cair no swing e “relaxar o calor”, abrindo, sem temor, um sorriso mais largo, que disfarça uma atração internalizada.

Há também uma afirmação dessa influência ao dizer “eu sou Muzenza” e “com o Muzenza eu vou”, como que reconhecendo sua cultura e se enxergando dentro de sua representação étnica. Não é à toa que, no “Canto da cidade (1992)” este recurso se repete em “Não diga que não me quer/ Não diga que não quer mais”. Em “Swing da cor”, Daniela define o traço afro presente em sua arte, assim como em “Menino do Pelô” (Gerônimo/ Saul Barbosa), com participação dos filhos da cantora, Gabriel e Giovana Póvoas. Tocar tambor desde pequeno é natural para quem nasce numa cidade em que o batuque é a maior herança musical. O desejo pela perpetuação desse legado, em versos como “eu quero ver/ o menino subindo a ladeira”, vem como neutralizador da marginalidade que fica à espreita, como reflexo de uma sociedade que não lhe dá acessos igualitários. “Sem violência/ com toda malemolência/fazendo bumbá bumbá”.

Patrocinado – A promoção do disco contou com o apoio e patrocínio da rede de supermercados Paes Mendonça. Daniela Mercury foi garota-propaganda e o samba de roda “Maravilhê” (Dito) foi escolhido como jingle. No vídeo, a cantora aparecia em flashes de apresentações ao vivo, enquanto imagens turísticas de Salvador eram embaladas por versos como “A gente pode ser feliz/ pelas ruas da Bahia”. Um teaser legendado com “Todo reggae” (Rey Zulu/Cabral) estava nas telas das afiliadas locais.

Sem ter sido eleita pela comunidade negra como porta-voz de seus anseios, Daniela Mercury assumiu para si a responsabilidade de levar a cultura afro para a região centro-sul do Brasil. Com a ressalva de ser uma artista da terra e apropriando-se do caráter étnico do estado em que nasceu, Daniela pôs o seu canto quase como uma cúmplice da luta a favor do negro. No seu primeiro disco solo, ela delimitou espaço, antes de ser coroada rainha. Era apenas o começo e o melhor ainda estava por vir.

swing_da_Cor

Relembre os sucessos do passado na Nossa Senhora do Comeback, a coluna musical d’Os Entendidos.

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