Por um carnaval sem blackface – Negritude não é adereço


Oficialmente o Carnaval só começa no próximo final de semana, mas nas ruas do Rio a folia já queimou a largada. E, pelo visto nas ruas daqui, boa parte dos foliões adotaram a tendência lançada pela Vogue esse ano: o racismo, conforme apontado brilhantemente pela Stephanie Ribeiro. Porém, apesar de achar necessário falar sobre como a fantasia de Inês Brasil parece ter vindo para atualizar a da “Nega Maluca”, não tenho esperanças de convencer ninguém a desistir desse deboche mascarado de admiração — além de saber que uma irmã faria isso bem melhor. Portanto focarei em tentar expressar o impacto da apropriação e do blackface na percepção da negritude.

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Nem sempre curti Carnaval, mas sempre detestei fantasias de tema “afro”. Muito antes de ter consciência política do que significa ser uma pessoa negra num país racista como o nosso, sempre me incomodou o fato das mesmas pessoas que usam peruca black power caçoarem do meu enquanto faziam a sua “homenagem”. Pra mim sempre ficou bastante claro que a textura natural do meu cabelo é coisa de palhaço de circo na concepção delas. O que por sua vez explica o sucesso daquela versão multicolorida.

E mesmo não conhecendo a África tal como a conheço hoje, tampouco achava graça ao ver pessoas brancas trajando tecidos imitando peles de animais se declarando “africanas”. Era só perguntar qual grupo étnico elas, supostamente, estariam “homenageando” para se deparar com uma série de declarações que associavam o traje aos Flinstones ou à Idade da Pedra. Elas costumam alegar que “é só zoação”, mas não é preciso ser vidente para pressentir o quão ridicularizado alguém seria caso vestisse um kilt (escocês) e gritasse ao mundo que estava fantasiado de holandês. Ou seja, não fazer distinção entre os povos de um continente só é aceitável e risível quando não se trata do continente europeu.

Imagina então agora que tô letrado nas pautas da militância negra. Tô mais insolente que nunca! Contudo, depois do baile de blackface celebrado pela Vogue Brasil nesse ano, receio que pular carnaval sem ter o meu senso de dignidade ferido vai ser impossível. Eu poderia até contar a história do dessa técnica teatral, segundo a qual atores brancos se denigrem, surgiu num contexto onde teatros não aceitavam pessoas negras (nem na platéia), apesar da fonte de ridículo se dever a elas, mas há tantas explicações maravilhosas sobre o assunto pela web que apenas compartilharei a minha interpretação crítica do tema.

Independente da história ou da intenção por trás do Blackface, o resultado é sempre o mesmo: resumir pessoas negras ao tom de pele e traços estereotipados. Como se só houvesse um tom de pele negra – lá em casa mesmo somos 5 e ninguém tem o mesmo tom de ninguém. Como se pessoas brancas fossem o modelo original da humanidade à uma camada de tinta das demais etnias. Como se os traços físicos da negritude fossem adereços que pessoas negras escolhemos pra dar um tom de comédia à nossas vidas. Quando vejo alguém com a pele pintada de preto sei que pra ela, no fundo, todas as pessoas negras são iguais e motivo de escárnio. Ainda que não tenha sido de forma consciente, essa escolha representa que a cara pálida em questão não fez absolutamente nada para deixar de compactuar com a mesma ideologia que desumanizou nossos antepassados por quase quatro séculos. Logo, quando vejo alguém caracterizado de negro, sei que nem adianta exigir respeito porque quem encara a cor da minha pele como acessório — um objeto que pode ser usado convenientemente — dificilmente vai conceber que sou outro ser humano. Talvez seja por isso que não me incomodei quando, casualmente, vi um bêbado derramar cerveja na maquiagem de uma “nega maluca” qualquer.

Embora o folhetim de moda tenha sido o último a anunciar o óbvio: as raízes africanas estão na moda, não me surpreendo com essa nova #tendência por reconhecer que paralelo ao processo recente de tombamento empoderamento da nossa comunidade — no qual cada vez mais de nós ousamos assumir uma estética nossa —, a branquitude retoma a velha síndrome de Pedro Álvares Cabral e afana o território alheio.

Como já é de se esperar, pessoas brancas, mais uma vez, demonstram não terem aprendido a admirar nada de outros povos sem acabarem chamando de seu. Parece até que as culturas de outros povos só passam a ter valor a partir do momento em que alguma pessoa caucasiana “a descobre” e toma o holofote pra si. Ecoando aquela velha crença de que tudo no mundo é propriedade branca e os demais povos servem apenas como fontes “exóticas” de exploração. De fato há algo na cultura ocidental que teima em confundir apreciação com apropriação, pois não basta ser lindo e significativo para os outros, eles se sentem (como que na obrigação) de copiar em total desrespeito ao sentido original pretendido pelo povo-matriz. Como se a branquitude, assim como a Hello Kitty, precisasse somente de acessórios para se incluírem numa identidade que na realidade desconhecem e ignoram. Como eu já disse anteriormente, na tentativa de fugirem ao padrão imposto pela própria branquitude, pessoas brancas acabam tendo que “importar” características marginalizadas pelo mesmo referente de supremacia. Como crianças que botam um chapéu de jornal na cabeça e acham que são soldados por um dia. Como se a marginalização fosse um clube secreto de privilégios e os “adereços” escolhidos uma carteirinha de it-girl ou it-boy.

A realidade disso a gente pode perceber com o samba, por exemplo, que, apesar de ser frequentemente defendido como um ritmo do Brasil, passa a ser exclusividade do “criolo doido” quando degringola. O mesmo mecanismo se repete quando o assunto é Carnaval: em inglês falamos que é a maior festa popular do mundo, já no português da norma culta falamos que é “farofada do povão”. Ou seja, quando é para incluir pessoas brancas um mesmo aspecto cultural é descrito como firulas e orgulho, já quando é pra se referir aos criadores originais do mesmo aspecto…

Se ser demovido e ridicularizado dentro da própria festa — como foi o caso das escolas de samba — é privilégio talvez precisemos lembrar em quais circunstâncias figuras negras estão restritas durante o Carnaval. Pois daqui onde estou só vejo confete colorido chovendo em cabeças brancas. Foliões negros continuam sendo enquadrados por “vagabundagem” e não fazendo o “perfil de empresas” por naturalmente terem as mesmas características “zoadas” nesse feriado. O negro e a negritude permanecem sendo objetos utilizados conforme a comodidade branca. Continuamos sendo não-sujeitos, não merecendo protagonizar nem mesmo os elementos da nossa própria cultura e identidade.

Sei bem que de que não será nesse carnaval, mas aguardo ansioso pelo dia em que pessoas brancas desistam da “árdua tarefa” de conceder “civilidade” aos povos e as culturas não-brancas. O dia no qual elementos culturais não precisem ser peneirados e refinados pela opinião de jurados brancos. Também sei que é demais pedir coerência demais do mesmo tipo de gente que defende o blackface alegando que “somos todos iguais” ou que “a cultura é de todos” quando todo mundo sabe muito bem que não existe daltonismo racial e que, numa lógica de mercado, produtos culturais são patenteados e franquiados. Até mesmo porque não se trata de quem pode ou não tem direito de usar o que bem quiser. Apropriação cultural e blackface são frutos do mesmo sistema de poder que desautoriza pessoas negras a terem voz sobre tudo que produzimos. Desde os canaviais das plantantions ao modo como lidamos com o nosso cabelo. O descaso marca as nossas vidas desde ontem até os dias de hoje, mas certamente não para sempre.

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