Bonecas de fogo: Sublimes incendiaram com R&B made in Brasil


Nos anos 90, muitas girl bands estavam em voga na música pop americana: En Vogue, TLC, Salt N’ Pepa, Eternal, entre outras. Sempre com integrantes negras e vozes poderosas, unindo o rap, o hip-hop e o R&B, elas traziam mensagens positivas e levantavam bandeiras em meio a um cenário essencialmente masculino, exigindo direitos iguais e maior respeito. E é claro que, em terras brasileiras, teríamos a nossa própria versão, com tamanho glamour, estilo, sensualidade e presença: as Sublimes (livre alusão ao trio Supremes com válida “inspiração”) com Lílian Valeska, Karla Prietto e Isabel Fillardis, que entraram em cena com o álbum homônimo, há 23 anos, lançado pela Sony Music.

nossa senhora do comebackResponsável por encontrar a sonoridade do grupo, o produtor Alexandre Agra buscou obter maior identidade, para que o trio não parecesse um produto genérico. A faixa que abre o disco, “Alma exilada”, questiona a posse de sentimentos e suas motivações, assim como a ordem do gênero sexual (masculino e feminino) e a forma em que isso pode ser exercido. “Será que os sexos são mistérios ou não estão nítidos ainda”? Pelo bem da descoberta e de suas inúmeras possibilidades, eis a chave: “Desnuda genitália” para a desconstrução.

O disco contém momentos românticos de fossa light: “Stop”, “Essa história era só minha” (Fred Nascimento/Paula Toller“) e, com solo de Karla Prietto (cantora descoberta no programa do Chacrinha), “A Última Ilusão”, que chegou a ser usada na abertura do programa “Al Dente” (MTV Brasil), dedicado a clipes sensuais. Outro ponto alto foi o resgate bem-vindo de “Black is beautiful” (Marcos e Paulo Sérgio Valle), protagonizada por Lílian Valeska. Imortalizada na voz de Elis Regina no álbum “Ela” (1971), a música foi inspirada no romance interracial entre a atriz Arlette Salles e o cantor e ator Toni Tornado, que foi um escândalo na época. A letra original ganhou versos novos e aura clássica pelo arranjo de cordas com regência de Vitor Chicri.

sublimes094

Erotismo – O grande hit do álbum foi “Boneca de fogo” (Fausto Fawcett/ Fred Nascimento), usada como faixa de trabalho, cuja letra foi inspirada em um sonho erótico. Segundo o próprio Fawcett, a ideia era escrever um tema onde a fantasia brigava com o real, sendo que ambos fortalecem-se no decorrer da música, em meio a um joguete de palavras que parecem sem sentido. A intenção já aparece no refrão: Ser um instrumento de prazer e satisfação sexual.

O videoclipe estreou no programa dominical “Fantástico” (Globo) e ajudou o fato de Isabel Fillardis ter iniciado a carreira na novela “Renascer” (1993), como Ritinha, que ganhou destaque no decorrer da trama. Além de “Boneca de fogo”, “Menina mulher da pele preta” foi repaginada com batidas sampleadas e participação do autor, Jorge Ben Jor. Luiz Melodia também dá o ar da graça, fazendo rap em “Sexy Sim”.

Mike Tyson Free – Usando como base rítmica o sample de “Housequaid” do álbum duplo “Sign O’ The Times” (1987) do cantor americano Prince, a canção, que conta com o rap de Fausto Fawcett, saiu em defesa do campeão mundial de boxe, preso em março de 1992 pela acusação de ter estuprado a Miss Black Americana, Desiree Washigton, de 18 anos. Na contramão do empoderamento feminino que poderia ter sido usado no discurso do trio, a letra põe a mulher vítima como culpada da situação, sendo chamada de “mulataça venenosa do sexo amor interesseiro”, de estirpe messalina. Invertendo os papéis, colocando o pugilista como o “poeta do boxe animal” e iludido, “Tyson Free” é o momento de vergonha do disco, pela contradição da imagem forte que as Sublimes, naquela época, representavam.

A grande pena é que por conflitos de agenda, Isabel Fillardis teve que sair do trio. Começaram bem e parecia promissora a trajetória delas. Com sua formação original duraram apenas dois anos e, mesmo que por pouco tempo, marcaram a década de 90 com um hit inesquecível. Aquelas bonecas de fogo fizeram jus ao nome do grupo.

Sublimes - Boneca de fogo - Capa

Relembre os sucessos do passado na Nossa Senhora do Comeback, a coluna musical d’Os Entendidos.

Previous VisibilidadeS
Next Como os aplicativos revelam nossos preconceitos e fetiches?

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *