VisibilidadeS

VisibilidadeS

Quando me vi trans, a palavra VISIBILIDADE entrou na minha vida. Essa palavra ainda hoje me instiga. Acompanho as redes sociais e pesquiso sobre a comunidade trans no Brasil desde quando caiu a ficha – bombástica – de que eu sou um homem trans.

Quando chega meu dia de folga, gostaria de ver um filme que contasse a história de um homem trans feliz, que namora, paquera, tem um trabalho legal… Entretanto, isso é raro. A maioria dos filmes com temática transmasculina tem finais trágicos, o que infelizmente talvez seja um reflexo da nossa realidade. Não tenho a ilusão do “viveram felizes para sempre”, mas sinto falta de imagens mais alegres para o nosso cotidiano. Nós, homens trans, precisamos de um vocabulário imagético mais rico. Mais do que nunca, precisamos de visibilidadeS.

Eu me percebi trans aos 27 anos. Imagine se existissem mais produtos culturais de pessoas trans, voltados para pessoas trans? Filmes, séries de TV, revistas, livros… Se a gente pudesse se reconhecer, garanto, economizaria muita ansiedade. Aí você pode me perguntar: “Cara, como assim você não tinha nenhuma referência em plena era da internet, você é da roça?”. Sou. E com a família T.O.D.A evangélica, dos dois lados, por três gerações. Segura essa marimba, monamú! Na roça/família em que fui criado não tinha vocabulário imagético para considerar/viver meu corpo – lido como feminino – em masculino. Com frequência, via-me como uma mulher revoltada com um não-sei-o-quê-inteiror, acometida de angústias crônicas, de um mal estar inominável. Não conhecia pessoas como eu. Não tinha referências para me reconhecer como trans, e mesmo hoje me faltam imagens positivas para que possa me projetar com possibilidades mais amplas, seja no trabalho ou seja na vida pessoal. Tenho impressão de que me falta um passado que permita imaginar um futuro.

Quando lemos nos jornais – notícias escritas de forma bem descuidada, inclusive – que travestis foram assassinadas na última madrugada, estão matando não só os nossos corpos, mas a nossa memória. Nossas futuras referências.

Homens trans visíveis constroem um Brasil mais inclusivo. As crianças machinhas olham pra mim e enxergam uma possibilidade, uma esperança. A internet pode ser/é uma mão na roda para que homens trans se conectem entre si e enunciem, mesmo que sem palavras: não estamos sós, estamos nós.

Não vamos desaparecer dessa terra, fato. Existimos, não somos um capricho do século 21. Aceita que dói menos. Muito menos, principalmente do lado de cá. Incluir é a melhor política, e pra isso é preciso abrir o peito e sentir os caminhos de empatia de que tanto falamos. Colabore conosco, seja um aliado para a construção de um Brasil menos violento e hostil para transgêneros/as. No país que mais mata trans no mundo enuncio: silêncio é morte, trans visível é #transvivo!

29 de Janeiro, dia da Visibilidade trans.

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