Entre divas, heroínas e vilãs, como os homens gays consomem as mulheres?


Algumas são boas, algumas são más. Umas são personagens de livros, de novelas e filmes, outras protagonizam sagas da vida real. Atrizes, cantoras poderosas ou rainhas da dublagem e da bateção de cabelo. Celebridades de internet, fábricas incessantes de memes e de coreografias sensuais. Entre histórias trágicas e trajetórias de empoderamento, uma horda de mulheres povoa o imaginário de muitos homens gays, chegando inclusive a fazer disso um negócio. Seriam as nossas “divas” a versão gay das “mulheres-objeto”?

DandoPintaSloganBem, a identificação é antiga e o amor é mútuo. A produção da divisão de comportamentos em “masculino” e “feminino” dá a base para um tipo de entendimento especial entre gays – que sob certa ótica seriam homens com desejos ou comportamentos considerados femininos – e mulheres. Um tipo de comunicação que é mais raro entre homens heterossexuais cis e “mulheres masculinizadas”, porque a relação de poder entre os gêneros colocaria essas mulheres em risco, ou pelo menos temerosas de algum tipo de assédio.

Ah, isso quer dizer que apenas gays afeminados cultuam divas ou são os melhores amigos das garotas? Quer dizer que TODOS os gays se identificam com o feminino? Não, nada disso! Fenômenos sociais não são absolutos, ainda mais quando a análise sai dos grupos para os indivíduos. Entretanto, em linhas gerais, para a parcela mais visível do que se entende culturalmente como a “comunidade gay” – ou seja, homens homossexuais que assumem essa identidade por auto identificação – , a lacração é mais divertida com as maldades de Paola Bracho, azinimiga precisam segurar a marimba do recalque e a fofoca no Facebook deixaria Regina George orgulhosa. Isso sem falar na disputa eterna pelo posto de diva-mor, com Katy Perry e sua ausência de Grammys, Gaganás ressurgindo das cinzas do Jazz, Madonna mostrando o peito e a Posh esnobando o retorno das Spice Girls!

Essa é a parte boa. Seja porque a dominação masculina também pesa sobre os gays, seja porque a sofrência contra amantes machistas é uma experiência comum, seja porque descobrimos e apoiamos artistas que falam sobre o girl power. É maravilhoso que essas mulheres estejam mais livres para explorar sua sexualidade e que alguns homens, especialmente os que sofreram sanções por não se adequar a uma masculinidade normativa, possam experimentar coreografias, letras de música e piadas internas que desafiam a superestrutura do machismo.

Por outro lado, somos o público-alvo de uma produção cultural que exige um tipo de atitude específico dessas mulheres, um tipo de beleza dentro de determinados padrões e uma sensualidade maquiada em trajes minúsculos, cabelos esvoaçantes e cirurgias plásticas. Não que a indústria não ligasse para isso antes, mas com a explosão visual dos anos 1980 e o surgimento dos clipes da MTV, esse processo se radicalizou na música, reproduzindo uma cobrança que já existia no cinema hollywoodiano e na moda. Veio o feminismo, que talvez esteja vivendo seu momento de maior abrangência com as redes sociais, mas embora existam diversas opções “alternativas”, a indústria de massa ainda produz um tipo ideal de mulher que endeusamos. E é bom pensar nisso.

Não sei se existe uma solução para esse problema – se é que é um problema – a curto prazo. Não sei se deveríamos parar de endeusar essas mulheres, inclusive porque talvez seja a própria situação especial da homossexualidade que facilite essa identificação. Certamente, o lado bom dessa interface traz oportunidades de trabalho e de empoderamento para algumas delas, assim como um meme, uma cena de novela ou uma música podem ajudar qualquer um naquelas horas mais difíceis. Provavelmente essa é uma relação simbiótica que se retroalimentará pelo menos até que a divisão entre os gêneros seja mais justa ou deixe de existir. No fim das contas, talvez só possamos esperar não estar causando mal, só possamos tentar não prestar desserviço. Talvez parar com a gongação seja uma boa maneira de conduzir essa relação, deixando de cobrar corpos perfeitos e performances fechativas, de repente parando para escutar what it feels like for girl, sei lá…

Assistimos essas mulheres surgirem, ficarem famosas, sofrerem colapsos e às vezes, sucumbirem ao “monstro da fama”. Enquanto isso, suas caras e bocas colorem nossas memórias e marcam nossas histórias de amor e de amizade, ou aquela noite inconsequente em que a coisa mais importante da vida é dançar até ser expulso da balada. Torcemos por elas, brigamos por elas, rimos COM elas e sim, muitas vezes, rimos delas. E também choramos. Somos sexualizados, objetificados, temos nossas vozes silenciadas, somos ridicularizados, e de repente é por isso que uma bunda rebolando dá um tiro certo em nossos corações. Bang!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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