Na cabeça e na cintura: o CD que gerou o É o Tchan


Em 1996, a música da Bahia voltou a ter atenção máxima no país. O axé e o pagode voltaram com gás às paradas de sucesso com grande projeção nacional e isso se deve ao surgimento do grupo então conhecido como Gera Samba que, depois do retumbante êxito do disco “É o Tchan” (1995), lançou “Na cabeça e na cintura”. Gravado nos estúdios WR, do produtor Wesley Rangel (morto no último dia 6) e lançado pela Polygram (atual Universal Music), o álbum consolidou a visibilidade nacional, além de conquistar terrenos internacionais.

nossa senhora do comebackCarro-chefe do disco, “Dança do bumbum” tem em sua letra referências às canções que pavimentaram o sucesso do grupo, presentes no primeiro disco, lançado de forma independente em 1994, como “Tomás do Sul” e “Dança do tchu tchu”. Didaticamente, foram ensinados os passos que fizeram o público reproduzir em massa os movimentos circulares que tinham como personagem central os glúteos. Como agachamentos ocasionaram desgaste na cartilagem do joelho da dançarina Carla Perez, o dominical Fantástico (Globo) dedicou espaço para que ortopedistas explicassem a maneira mais correta de dar a temível “abaixadinha” para os que estavam fora de forma: com as pernas abertas para que o peso do corpo fosse distribuído sem causar lesões.

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Outras músicas temáticas fizeram farra: “Dança da cordinha” e “Estátua”. Houve passeio pelo cancioneiro tradicional do forró em “Procurando tu” (Antonio Barros/J.Luna) já há muito regravada pelo Trio Nordestino, Jackson do Pandeiro e até por Genival Lacerda. O culto à boa forma e a importância de sua manutenção se encaixam na swingada “Malhação”, com um naipe de metais fervoroso, refinando a sua sonoridade. “Mexe mexe mainha” já era conhecida nas FM’s baianas com o grupo Vou Vivendo, assim como “Melô do tchaco I” com o Coisa de Acender. Foi a partir desse trabalho que a expressão “ordinária/o” e bordões como “eu gosto muito”, “tchan-tchan-dudupá” viraram moda e passaram a fazer parte dos álbuns posteriores e das interações dos vocalistas Beto Jamaica e Compadre Washington com os dançarinos Carla Perez, Débora Brasil e Edson Cardoso (Jacaré), numa época em que o politicamente correto não era tão vigilante.

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Rebatismo – Pouco depois do lançamento do disco, uma disputa judicial pela marca Gera Samba colocou o grupo na berlinda, já que unidades do disco com o nome antigo já estavam à venda, mas a solução foi rápida. Devido ao grande sucesso da faixa “É o Tchan”, do álbum anterior, não houve dúvidas quando ao novo nome, fato que gerou ainda mais buzz para o emergente grupo, disparando a sua popularidade e número de CDs vendidos.

O É o Tchan tornou-se um produto rentável e expandiu seus domínios para além da música, licenciando roupas, brinquedos e presença em comerciais de cerveja e chuveiro. Posteriormente, participaram dos tradicionais festivais “Viña del Mar” no Chile e no renomado Montreux Jazz Festival na Suíça, na noite dedicada à MPB do Nordeste. Nada mais justo. Como dito pelo jornalista Carlos Callado na matéria escrita para a Folha de São Paulo, intitulada “Montreux se rende ao tchan de Carla Perez”: Montreux escancara de vez sua orientação eclética, capaz de exibir as mais variadas vertentes musicais.

“Na cabeça e na cintura” virou mania nacional e entreteve multidões, agradando jovens e crianças. O disco foi menosprezado pela crítica especializada não só pelo teor erótico das coreografias, que por muito tempo motivaram concursos infantis em programas televisivos como o “Domingo Legal”, mas por sua música, proveniente da comunidade negra, ser reproduzida em festas de largo e não terem compromisso intelectual, onde o intuito é fazer todos dançarem. A mensagem é corpórea, na qual o quadril é a prioridade. O grande público pareceu não se importar e em 1996, a “Dança do bumbum” pegou de uma vez.

Texto escrito com a colaboração de Paloma Ayres.

Relembre os sucessos do passado na Nossa Senhora do Comeback, a coluna musical d’Os Entendidos.

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