O meu lado positivo

O meu lado positivo

Texto do colaborador F.L.G.P.

2009. Uma campanha de Doação de sangue foi realizada no campus da minha universidade e como nunca havia doado, procurei saber mais. Por que não? Seguindo o protocolo, fiz um teste rápido de HIV. O resultado: positivo. Um segundo teste foi feito para tirar a suspeita de falso positivo e foi aí que nasci de novo. A partir daquele momento a minha vida nunca mais seria a mesma. Eu não seria mais o mesmo. Eu tinha apenas 21 anos.

LadoPositivo2Sem qualquer apoio psicológico, pediram para que eu me encaminhasse a um dos centros de tratamento da cidade e realizasse mais testes para dar inicio ao tratamento. Assim. Não esbocei reação e nenhum filme da minha vida passou pela minha cabeça. Saí do local como se nada tivesse acontecido, já que uma plateia de amigos me esperava na porta e eu não poderia demonstrar nada além um sorriso. Perguntaram como havia sido. Tudo ótimo, claro.

Não me reconheci. Diferentemente da pessoa exaltada e que expressa seus sentimentos no calor do momento, estacionei o carro normalmente, entrei no apartamento e chorei. Estava a quatro horas de distância da minha família e não poderia me desesperar. Não tive pensamentos suicidas ou qualquer outra coisa parecida, só pensava em como aquilo poderia ter acontecido. Não culpei ninguém além de mim mesmo.

Agradeço à minha mãe pelo apoio psicológico quando me assumi gay. Ouvi um árido “Você vai começar um tratamento psicológico” e retruquei que não estava doente, e ela simplesmente disse que sabia disso, mas que queria que eu me fortalecesse porque infelizmente eu teria que ser mais forte que as outras pessoas. E foi por causa dessa força que peguei o telefone e contei aos meus pais o que tinha acontecido.

Na madrugada do mesmo dia eu já estava no consultório de uma infectologista amiga da família, pois eles queriam saber o que poderia ser feito, queriam a cura. Lembro do desespero da minha mãe, dos olhos vazios do meu pai, e de uma sensação de dormência que foi fazendo eu me dar conta do meu novo status. Os exames comprovaram, eu era (e sou) portador do vírus HIV. Estava de volta a um tipo diferente de armário.

Após alguns dias comecei a conversar com meu médico e diferentemente de hoje, quando o tratamento é iniciado logo após o diagnóstico, ele decidiu esperar e ver como meu organismo e minha imunidade lidavam com o invasor que era agora parte de mim. E foi aí que, de certa forma, as coisas desandaram. Como se nada tivesse acontecido, retomei minhas atividades, comecei um namoro e fui deixando de lado essa parte da minha vida. Com o término da faculdade, começo de namoro e propostas de emprego e crescimento profissional, não havia espaço para pensar em saúde – eu sei, idiotice minha. Por inconsequência, fiz besteira, chegando a fazer sexo sem preservativo com meu ex-companheiro. Apesar de estar bem comigo mesmo, o medo da rejeição, da não aceitação, de ser visto como “tóxico” estavam latentes e eu evitava falar desse assunto.

Certo dia meu namorado apareceu com um resultado positivo para sífilis. Eu sabia que não tinha transmitido para ele, já que fazia exames, o que significava que tinha sido traído, mas preferi fechar os olhos. Frustrado, fui buscar refúgio na casa dos meus pais, e quando meu companheiro me procurou acabei contando tudo e pedindo que ele fosse fazer exames. Quis terminar, mas depois de horas de conversa, decidimos que não. Fui acompanhá-lo carregado de culpa, o que teria piorado se ele tivesse se tornado positivo, mas não foi o que aconteceu. Negativo. Conversamos mais e o namoro ainda durou alguns meses, mas como ele já estava se relacionando com outra pessoa também – acho que ele pensava que nossa relação era aberta, só esqueceu de me avisar – , enfim terminamos. Cinco anos.

Com o passar do tempo veio o amadurecimento. Cada vez mais, ouvia falar no aumento de infecções entre jovens, então resolvi retomar o tratamento. Novamente, a minha inconsequência cobrou seu preço, e minha carga viral estava altíssima, me sentia sempre cansado, desanimado… MAIS TÓXICO DO QUE NUNCA. Outra série de exames – cheguei a ir ao centro de referência mais de dez vezes em apenas uma semana – para descobrir doenças pertinentes, tipos de medicamentos que meu corpo poderia ou não aceitar, exames de estrutura óssea. Tudo gratuito e à minha disponibilidade, como deixei passar?

Foi quando comecei a pensar o tratamento e me descobrir dentro do assunto, da doença, da transmissão, da vida de um soropositivo. E descobri que além de não ser tóxico, não sou diferente de ninguém. Tenho apenas uma condição que precisa ser tratada, como a diabetes. Hoje, em Janeiro de 2016, posso dizer que com poucos meses de tratamento tenho uma carga viral indetectável. Minha qualidade de vida melhorou, meu psicológico está ainda mais forte, minha noção do que é ser soropositivo e a aceitação de disso está 100%. Acabei também me curando como pessoa, a partir do momento em que procurei me tratar.

Tenho amigos que não fazem exame por medo. É a sociedade que enxerga essa doença crônica com horror, levando as pessoas a agirem assim e se esconder. E o que digo é “não façam isso”! Não se privem de uma vida plena, sem mais essa incerteza. Eu passei por isso e não foi nada bom. Nós, soropositivos, podemos viver vidas normais. Sexualidade e sorologia só dizem respeito ao indivíduo, não ao mundo. Como disse, me achava tóxico… Não somos. Hoje posso dizer, sem medo, que sou feliz. Melhor ainda, que sou POSITIVO.

Esse texto provavelmente tem algumas confusões e erros, mas a vida não é assim também? Obrigado por ler o meu desabafo.

Leia a Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Para falar com a coluna, você pode escrever para poz@osentendidos.com.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *