O novo estereótipo gay: chantagista, autoritário e aproveitador!


Aconteceu na novela: Breno, personagem interpretado pelo ator Otávio Müller, revelou-se um crossdresser – ou seja, pessoa identificada com um gênero que gosta de vestir peças de roupas designadas ao gênero oposto. Independente do tema estar sendo abordado pelo núcleo cômico da novela, algumas questões interessantes – como o fato de esse desejo não ter ligação com a orientação sexual – surgiram, mas tudo veio abaixo quando Breno tentou chantagear o antigo chefe para conseguir o emprego de volta, ameaçando denunciá-lo por discriminação.

DandoPintaSloganA cena reflete o aparecimento de uma nova figura social do preconceito, a do “LGBT aproveitador”, que se utilizaria de sua condição para exigir privilégios, calar críticas ou conquistar status. Uma figura social que vem em resposta ao poucos avanços que a política LGBT conquistou nos últimos anos, e que só comprova a maquiavélica capacidade de distorção dos fatos daqueles que dominam a sociedade.

Em uma das notícias sobre o personagem, um comentário reclamava que “tinham que ter colocado um viado”, porque agora as novelas “só falam disso”, tentando forçar o assunto, e quem não gosta “é logo taxado de homofóbico”. Outra notícia, falsa, sobre a possibilidade da abertura de cotas para LGBT em universidades e empregos públicos, gerou revolta e comentários irônicos sobre o tipo de igualdade pedido por essa população, além da costumeira indignação seletiva que grita que economia, saúde e educação são assuntos mais importantes e que, portanto, questões sociais não precisam ser discutidas.

Juro, adoraria dizer que isso é sinal de que as coisas estão dando certo, que a causa LGBT conquistou tanto espaço que está até sobrando, mas não é o caso.

Esse incômodo todo é mais uma manifestação da exclusão a que “os diferentes” estão sujeitos. É algo paralelo ao racismo e à misoginia, até porque os movimentos negro e feminista também são acusados de “vitimismo”, “perseguição” e de “tirar vantagem”. É uma filosofia de “terrorismo social” que cria a imagem corrompida de um “inimigo”, de um “outro” que é prejudicial ao sistema e, logo, pode ser eliminado – seja simbolicamente, através da discriminação, ou seja efetivamente, através da violência física.

É esperar muito que a Rede Globo se preocupe em retratar populações marginalizadas com algum cuidado? Talvez. Qualquer mudança social é demorada, e mesmo com a internet dando uma acelerada no processo de troca de informações os preconceitos não terminam da noite para o dia. Está aí o racismo, com 500 anos de sucesso em solo nacional, para provar isso. Entretanto, nada vai mudar se não começarmos a prestar atenção nas pequenas coisas do cotidiano que reforçam essas estruturas de segregação. As piadas, os xingamentos, os incômodos e a hipocrisia que mandam a mensagem de que algumas pessoas valem menos do que as outras.

A marginalidade LGBT é construída socialmente – como tudo, aliás. Quando as práticas homossexuais foram separadas como marcadores de uma identidade à parte, automaticamente se estabeleceu uma relação de “certo/hétero” e de “errado/homo”. A moral religiosa e leis que criminalizavam a homossexualidade forçaram os homossexuais a dar vazão a seus desejos no submundo de grupos secretos, lugares fechados e nas sombras da noite. Uma vivência underground que faz parte da história LGBT que produziu dores, estigmas e fetiches, sendo hoje consumida em bares, boates e saunas porque o movimento político conseguiu nos “tirar do armário” e conquistar alguma legitimidade social. Porém, a hierarquia continua e se mantém porque desde o séculos XIX existem essas narrativas sobre a “face monstruosa” dessa sexualidade “desviante”. São os estereótipos do gay fraco e afeminado que é motivo de riso, do gay pedófilo, do gay promíscuo, do gay que está sempre à espreita para assediar/tentar converter os héteros, da lésbica caminhoneira, do bissexual indeciso, da travesti criminosa, do transgênero com distúrbio e, agora, do LGBT que se aproveita de sua condição para “tirar vantagem” do sistema que o oprime. Bitch, please!

É maravilhoso que o avanço do debate sobre a sexualidade esteja permitindo que alguns desses estereótipos e que até alguns xingamentos sejam ressignificados. É preciso ter ORGULHO de ser bicha, de ser queer, de ser sapatão, de ser travesti! Quem come o pão que o diabo amassou para ser o que é precisa ser celebrado, e isso não é vantagem nenhuma. Quando muito, é uma resposta à opressão e uma tentativa de equilibrar as coisas. De gritar que não somos motivo de vergonha, doentes ou criminosos.

Isso quer dizer que os LGBTs estão acima da lei? De forma alguma. Certamente que existem muitos, mesmo dentro da militância, que são capazes de cometer crimes ou ter atitudes violentas. Agora, sugerir que todo um movimento ou que nossas poucas conquistas são coisas injustas é um absurdo!

Não é por acaso que algumas das “pessoas normais” se ressentem da nossa visibilidade e da luta por igualdade. O avanço, apesar de tímido, é inegável, e quando as coisas se equilibrarem os modelos normativos “ideais” perderão esse status e serão apenas alternativas de vida. Possibilidades ao invés de objetivos. E isso assusta. Dá a impressão de que estamos roubando alguma coisa, quando na verdade só estamos lutando pelo espaço que nos é de direito: o espaço de humanos.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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