Por que odiamos homem hétero que faz sexo com homens?


Quantas experiências homossexuais são necessárias para transformar alguém em gay? E em bi? Há homens gays que ficam eventualmente com mulheres e não se consideram bissexuais e de jeito algum o senso comum os considera como heterossexuais, então por que o contrário parece algo mais difícil de aceitar? Mesmo entre uma galera mais “moderninha” e que discute papéis de gênero o assunto é polêmico, pergunto: Por que odiamos héteros homossexuais?

DandoPintaSloganNa última semana circulou uma matéria do UOL sobre os tais “homens que transam com homens mas não se consideram gays”. Com três depoimentos, o tamanho padrão de um post rápido de internet, é óbvio que a reportagem não consegue dar conta de um assunto tão complexo, mas acho que dentro do possível, foi ok. Como sempre, o mais interessante foram as reações que ela provocou.

Comentários do tipo “no meu tempo isso era bi” ou “coisa de enrustido” mostram que não estamos preparados para implodir com as “caixinhas” hétero e homo, e nem para lidar com as infinitas possibilidades de práticas e desejos que essas definições permitem e interditam. Comprovam também a relação de disputa entre essas categorias e a hierarquia social que elas definem e representam.

Entre “G0ys”, “Espartanos”, “homens que fazem sexo com homens” e caras que “curtem uma parada no sigilo” existem, certamente, muitos casos de homofobia internalizada e de negação da própria sexualidade. Entre os bissexuais – tão desacreditados por gays e héteros – também encontramos indivíduos em conflito, isto é, temos uma negação do estigma da identidade gay, já que não se pode dizer que alguém que chega a realizar seus desejos os esteja negando. Em geral, é essa a crítica mais comum .

Deixa eu contar um segredo: bissexualidade existe, da mesma forma que heterossexualidade e homossexualidade. No fim das contas, essas são identidades sociopolíticas com as quais as pessoas se identificam por vários motivos. É óbvio que muita gente “força uma barra” e considera o rótulo de hétero o mais seguro. Ele é mesmo. E o “preferível”, já que é o modelo através do qual todo o resto é considerado como desvio. E mesmo com todas as dificuldades, há também quem acione a identidade gay com orgulho, até porque em nossa sociedade qualquer definição – mesmo uma considerada “inferior” – é melhor do que nenhuma ou, no caso da bissexualidade, uma “intermediária”.

A recusa em aceitar que existam “bissexuais de verdade” é essencialmente homofóbica, pois “acusa” que o indivíduo é gay mas não quer ou não consegue admitir isso. Ou seja, reafirma que ser gay é algo tão ruim que até os próprios gays evitam reconhecer. Além do mais, como alguém mede esse tipo de coisa? Quais são os signos culturais, que número de experiências afetivas ou sexuais vai definir a identidade de alguém? Se um gay assumido for a uma micareta usando camisa Pólo, pegar cinco meninas e postar que esteve em uma “balada top”, vira hétero? O cara que “curte uma brincadeira” com o parceirão do futebol é necessariamente gay? E quem se identifica de alguma forma mas não faz sexo, é o quê? Uma planta? O que conta mais, o sexo ou o amor? E se for sexo com amor?

Entre homens “modernos” e “desconstruídos”, é comum aquela história de “beijei um cara um vez, mas vi que não era a minha”. Legal, abrir a cabeça para novas experiências é interessante e obviamente que o resultado disso pode ser a descoberta que aquilo não é pra você. Mas porque será que um beijo gay precisa ser tratado como experiência e, principalmente, definir o interesse de alguém por um gênero como todo? Não dá para simplesmente beijar a pessoa e ver se foi legal beijar AQUELA pessoa, ao invés de considerar que qualquer coisa boa ou ruim seja referente a um mesmo sexo? Essa “barreira arco-íris” é tão intransponível porque a estrutura do preconceito reforça a ideia de que a homossexualidade é inferior. Nesse contexto, um hétero que “se nivela por baixo” jamais poderia voltar a gozar – opa – dos privilégios de antes, da mesma forma que um gay não teria como “subir de casta”. Lembra aquela história de que “não existe ex-viado”? Pois é.

Um hétero que apoia a causa LGBT é aplaudido – e isso é muito justo – por sua “benevolência”, mas o hétero que “cruza a fronteira” e faz sexo gay é visto como um “duplo farsante” que renega sua natureza. É por isso que algumas pessoas tem dificuldade em assumir sua sexualidade “desviante” e, também, que muitos de nós que passamos pelas dores e delícias da vida no armário e fora dele olhamos com ceticismo ou até raiva para esses caras. Entretanto, é preciso lembrar que as práticas sexuais ou a orientação afetiva podem valer como marcadores em algumas áreas, como a biologia ou o direito civil, mas que não necessariamente vão definir a sensação de pertencimento de um indivíduo em relação a um grupo.

Eu não sou gay porque transo com homens. Sou gay porque me impediram de brincar de boneca, porque me chamaram de “viadinho” na escola, porque minha mãe me mandou para uma psicóloga para aprender sobre reprodução humana. Por que não podia falar sobre meus desejos com os meninos da minha idade, porque tive que assumir o que todo mundo sabia quando me apaixonei por um amigo, porque tinha – e tenho – medo de beijar um namorado na rua e ser agredido por isso. E claro, por causa da coreografia de Slave, dos memes da Inês Brasil, do Grindr e do Globo de Ouro da Gaganás.

Existe uma cultura, uma linguagem, um tipo de experiência subjetiva que define o que é “ser gay” em nossa sociedade. Algo que vai além do que fazemos na cama ou de como fazemos. Algo que não é completamente inteligível para todas as pessoas. Algo que PRECISA de uma auto identificação. É óbvio que tem gente que é reprimida e covarde, mas existem gays assumidos que não se identificam completamente com esse rótulo, assim como existem heterossexuais que “são super gays” sem nunca terem pensando em sexo homossexual.

Aprendi muito cedo que não se deve usar certas palavras como ofensa. Posso até achar esquisito, mas se o cara me disser que é o Batman, tentarei respeitar.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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