David Bowie – A estrela negra que ainda brilha


Foi tudo muito rápido. Na última sexta (8), David Bowie completou 69 anos, lançou seu vigésimo quinto disco “Blackstar” e na manhã de segunda-feira (11), estava em todos os jornais a notícia de sua morte, ocorrida na véspera (10), na sua residência em Manhattan (NY), EUA. Admirado por sua figura cult, andrógina e pela incrível capacidade de remodelar sua imagem, David Robert Jones (1947-2016) sai de cena imortalizando sua obra, já há muito servindo de referência não só para a música, mas para o cinema, moda e também no comportamento. Vamos elencar suas contribuições mais importantes na cena artística, onde soube expressar com precisão toda a sua genialidade.

nossa senhora do comebackRompendo barreiras raciais – Em 1975, David Bowie participou do programa “Soul Train” exibido pelo canal CBS para promover as faixas do álbum “Young Americans”. O interessante é que programa era dedicado tão somente a artistas negros e brancos não entravam. Como o disco tinha influências do soul e da black music (com adesão dos vocais de ainda um não conhecido cantor chamado Luther Vandross) e pela admiração que o inglês tinha pelo apresentador Don Cornelius, uma carta foi escrita a próprio punho por ele, se convidando a ir a tão importante programa, que promovia a exaltação da cultura, da beleza e da dança provindas da comunidade negra. Bowie conseguiu o feito de ser um dos primeiros artistas brancos a subir no palco do Soul Train assim como Elton John e Gino Vannelli, rompendo barreiras raciais e sacudiu os dançarinos do programa com as faixas “Fame” (composta em parceria com John Lennon) e “Golden Years”. Posteriormente, Bowie disse que tamanho era o seu nervosismo que se apresentou bêbado para que ninguém notasse.

Em 1983, em entrevista para Mark Goodman, da MTV americana, David Bowie criticou o canal por não exibir videoclipes de artistas negros em sua programação normal, apenas no período da madrugada, sem a devida atenção. Apesar das justificativas nem um pouco convincentes dadas por seu entrevistador, Bowie não se deu por vencido e riu, incrédulo. Logo depois, Michael Jackson fez sua estreia com “Billie Jean”. De forma indireta, Bowie abriu a discussão fazendo com que as gravadoras pressionassem o canal a executar vídeos dos seus artistas negros de forma igualitária. E deu certo.

Masculino e Feminino – Bowie com certeza parecia muito seguro frente a sua sexualidade, abusando de figurinos exóticos e espessa maquiagem que nos confundia frente à questão do seu gênero “indefinido”. Não havia um travestismo over e caricato na sua imagem e sim um rompimento de padrões com bastante ousadia. O seu visual era impactante. A alegoria provocativa lhe deram, merecidamente o status de “camaleão”. Havia um estilo, uma proposta, um conceito. O andrógino Bowie usava a moda glam a seu favor e serviu de inspiração para muita gente. Quanto à preferência sexual, uma incógnita. Homossexual? Bissexual? Heterossexual? Oportunista? Burburinhos de flertes com o mito do rock, Mick Jagger, eram só pra causar frisson na mídia, ou ele se permitia passear por todas as possibilidades sem precisar levantar bandeiras? David Bowie de fato era um ser inclassificável, muito além do tempo regulamentar. Como poucos artistas, era totalmente livre, o que era o seu maior diferencial e aliado.

Muro de Berlim – A derrubada da delimitação física, símbolo da opressão de um regime socialista teve como trilha a música “Heroes” – do álbum homônimo de 1977 -, parceria de Bowie com Brian Eno, eleita como hino pelos jovens que afrontaram a polícia em 1989. A romântica história de um casal que se beija, alheio aos militares armados e aos possíveis riscos de vida que corriam serviu de apelo para que o amor vencesse a fronteira e simbolizasse o fim das diferenças políticas (comunismo X capitalismo). A canção também foi tema do polêmico filme alemão “Eu, Christiane F., 13 Anos, drogada e prostituída” (1981) e se tornou um marco entre a juventude na época.

Bowie, inclusive, cometeu a façanha de transformar a sua própria morte em arte. Seu último videoclipe, “Lazarus”, apresenta o cantor em cenas mórbidas numa cama de hospital, fazendo um testemunho de sua vida entre perdas e ganhos, em tom sombrio, melancólico com sonoridade experimental. Assim como a parábola bíblica, relata o milagre da ressurreição de Lázaro, pois é na morte que a obra alça status superior e se imortaliza. No caso de David Bowie, além de imortalizar, ele transforma-se em uma estrela. Negra. Todo mundo o conhece agora.

Relembre os sucessos do passado na Nossa Senhora do Comeback, a coluna musical d’Os Entendidos.

 

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