Ligações Perigosas: Os valores, os bons costumes e a Literatura


Há alguns dias a emissora rede Globo de televisão começou a exibir uma minissérie em 10 capítulos baseada no romance epistolar do século XVIII “Les Liaisons Dangereuses”, de Chordelos de Laclos.

Na trama, dois libertinos apostam entre si e jogam com os que estão ao seu redor. Jogos de sedução e vingança, onde os princípios morais são deixados de lado a todo o momento. E, por mais chocante que isso possa parecer, é isso mesmo que Laclos se propôs a mostrar, sem hipocrisia, pois esta é justamente o alvo da obra: a hipocrisia da sociedade francesa “du fin de siécle”.

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Naquela época foi um escândalo. Ainda hoje é um escândalo. E não tanto por acreditar-se que somos a sociedade ali, na minissérie representada, mas por algumas coisas com as quais nossa sociedade, em grande parte, não comunga mais e tenta a todo momento fazer com que não ocorra mais, como é o caso da prática do estupro.

Questionar o estupro e trazê-lo à luz do debate, ao invés de fingir que não aconteceu, é algo que merece sim acontecer, inclusive, usar o fato de que na minissérie o estuprador não foi delatado e que a vítima foi levada a crer que foi culpa dela e que no fim ela própria quis e gostou é algo que deve ser mostrado como errado e prejudicial. Essa discussão, no entanto, tem que ser feita fora da ficção.

A ficção nada tem a ver com os nosso valores e bons costumes. A essas especificidades ela não pode ficar presa. Imagine se o autor tivesse que se preocupar em produzir textos politicamente corretos para todos os grupos sobre os quais ele escrever? Isso é construir uma política de censura no ambiente artístico, é transformar em tabu e não permitir o bom debate das questões mais cruas e difíceis de nossos valores. Ray Bradbury diz justamente isso em seu posfácio em uma das edições de ”Fahrenheit 451”, quanto às cartas que ele recebeu criticando-o sobre a maneira como ele retratou alguns grupos em sua produção.

Pensar dessa maneira, de preservar os valores e os bons costumes é o que fazem os editais culturais principalmente os voltados à área literária. Isso não pode ser aceito e, dizer isso não é fazer apologia a qualquer tipo de violência, mas mostrar que ela existe ou existiu e que precisa ser mostrada, assim como foi o caso da escravidão dos negros.

Pensar dessa maneira é pensar como a sociedade francesa pensou e se mostrou frente a personagem Emma Bovary e seu autor Flaubert ou mesmo os ingleses em relação a Oscar Wilde.

No caso da cena de estupro e os seus desdobramentos na minissérie, há ainda que lembrar que aquilo está no romance e desde o início é o que se diz que irá acontecer, já que é o plano de Isabel D’Ávila de Alencar (ou Marquesa de Merteuil, no romance) executado por Augusto Valmont (ou Visconde de Valmont, no romance). A culpa, se há alguma, não é da minissérie e nem dos autores que se basearam no romance, já que aquela parte é essencial para a trama. A culpa também não é do autor do romance. A culpa é da nossa sociedade que não discute e escancara os valores, que não pratica de certa maneira o “castigat ridendo mores”. Nesse caso, não pelo riso, mas pelo choque. A culpa é nossa que insiste em manter certos assuntos debaixo do tapete para ter a ilusão de que as coisas não acontecem do jeito que acontecem.

No capítulo de sexta-feira, além de mostrar os desdobramentos sobre a cena do estupro exibida na quinta-feira, houve ainda a exibição de uma mulher gorda dançando com uma cobra e de um gay travestido, em uma espécie de teatro-cabaré.

Pelos nossos valores, uma mulher gorda não é sensual, mas na cena foi mostrada de maneira positiva, pois leva à percepção da beleza e sensualidade da mulher gorda. Pode cair em uma objetificação do corpo feminino? Claro, mas ainda assim há um viés positivo, por contestar os nossos padrões de beleza e sensualidade. O mesmo se dá com o homossexual travestido. O pai não o aceita, embora socialmente ele tenha reconhecimento pelo seu trabalho artístico, evidenciando assim um pensamento preconceituoso daquele pai que o expulsou de casa por conta da sua orientação. Podemos cair no clichê da representação do homossexual como profissional que se exibe e traveste, sim, mas há muitos que assim são e fazem um trabalho maravilhoso e não é vergonha nenhuma ser do jeito que eles são. Há outros modos de ser LGBT, mas negar esse modo para poder mostrar outros não é o caminho.

Esses exemplos são bem mais positivos em relação aos tabus impostos por nossa sociedade que também trazem, assim como o exemplo do estupro, que é bastante negativo, discursos que devem ser constantemente pensados e debatidos e não deixados de lado. Que a sociedade veja e perceba que isso deve ser feito é o que interessa.

Aliás, evidenciar esses discursos muitas vezes velados da sociedade, sem hipocrisia, era o que almejava Laclos com o seu romance. Um choque de realidade que talvez pudesse trazer a reflexão e a interrupção de certas práticas imorais de seus contemporâneos, como ele mesmo dá a entender nos prefácios e notas do editor que acompanham as cartas que compõem o romance.

#ESTANTE, era pra ser uma sexta sim e outra não, mas a Literatura não aceita mordaças, ela exige reflexão e discussão, em qualquer hora e em qualquer lugar.

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