Quem vale mais, um hétero de vestido ou uma bicha reprimida?


“Somos todos iguais” é um princípio básico de nossa sociedade e, filosoficamente, de nossa humanidade. Sabemos que a coisa “não é bem assim”, e que a complexidade das relações humanas foi criando categorias sociais que reconhecem e também produzem nossas diferenças, o que dá problema quando essa diversidade é hierarquizada e o “diferente” passa a ser lido como “pior” em relação ao “modelo ideal”. É como nascem “minorias”, preconceitos e opressões.

DandoPintaSloganNessa semana, o ator Bruno Gagliasso “causou” nas redes sociais ao publicar uma foto em que estava de vestido. Bruno, que há muito se mostra um apoiador da causa LGBT – tendo inclusive beijado um homem em evento recente – , foi instantaneamente incensado como “herói da causa” por desafiar os padrões de gênero e por levantar essa bandeira para seu enorme público. Tudo lindo e até muito justo, já que respeito é bom e infelizmente a LGBTfobia ainda precisa ser discutida.

Acontece que a foto, ainda que possa repercutir e ganhar força política, foi tirada na festa de aniversário do também ator Paulo Vilhena, na qual a brincadeira era que os convidados fossem vestidos com roupas do gênero oposto. Não foi em nenhuma campanha, em nenhum protesto ou durante a apresentação de um evento com cobertura da mídia. Era uma festa com “homens vestidos de mulher”, tal qual qualquer “Bloco das Piranhas” como os que veremos colorir as cidades no próximo carnaval.

Ah, é errado ele usar vestido na festa ou a foto ser usada pra falar sobre gênero? Não, de maneira alguma. Bruno, assim como qualquer pessoa, pode contribuir positiva ou negativamente para essa e para outras causas, dependendo de suas intenções, do contexto de suas atitudes, do significado social emprestado a elas, etc e etc. O que considero lamentável é que um caso desses seja usado no “fogo cruzado” das discussões de internet para deslegitimar – o que é diferente de criticar ou reformular – questões levantadas por alguns militantes. Ou seja, por pessoas que, independente de estarem certas ou erradas ou apresentarem suas demandas de maneira agressiva ou mais diplomática, sentem na pele o problema que um apoiador jamais vai sentir.

Para piorar, uma imagem comparando Gagliasso com o humorista Paulo Gustavo, famoso por interpretar personagens gays ou femininos estereotipados e também por declarações contrárias à militância LGBT, colocou a situação em outra perspectiva:

Reprodução do Facebook
Reprodução do Facebook

Paulo Gustavo é homofóbico e Bruno Gagliasso é a Cher? Não sei. Acho até irrelevante, visto que sempre vai ter quem se identifique mais com a postura de um do que do outro. Como pessoas públicas, ambos recebem atenção independente do que façam, e é por isso que acabam tendo o poder – desejado ou não – de colocar assuntos em pauta. Que algumas das opiniões de Paulo Gustavo são danosas à causa LGBT não se discute. Agora, ignorar que ele – um homem gay – provavelmente teve sua subjetividade afetada pelo preconceito, é maldoso.

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Se vamos olhar para os indivíduos e procurar responsabilizá-los (ou premiá-los) por suas ações, é preciso ponderar que para Bruno ou para algum outro apoiador, “fazer o certo” é simplesmente fazer o certo. É ajudar os outros, é ter empatia. Ao passo que para Paulo Gustavo e outros LGBTs, “advogar em causa própria” pode ter o custo emocional de uma negociação com anos e anos de xingamentos, de oportunidades perdidas, de violência, de uma família preconceituosa, de um conflito religioso, etc. Não sei se é esse o caso do Paulo Gustavo ou se foi por isso que ele não beijou o marido no casamento ou não gosta da Parada LGBT. O que sei é que independente do que ele pensa existe um sistema, uma ESTRUTURA que diz que ele – e qualquer LGBT – é inferior a um heterossexual, simplesmente por causa dessas identidades sociais.

Isso quer dizer que Paulo Gustavo é algum coitadinho? Não, absolutamente! Quer dizer que a discussão não pode criar “mocinhos” e “vilões” como se estivéssemos assistindo novela, e que as coisas são mais complexas do que a atribuição de valor a um beijo ou um vestido. Os estigmas de gênero e sexualidade não se resolvem porque um homem colocou um vestido, inclusive porque uma “fantasia de mulher” já fala exatamente de construção de gênero, especialmente quando é celebrada em um tipo específico de homem e execrada em outro, já que vários gays – afeminados ou não – que andam com adereços femininos são ridicularizados exatamente por isso. Aliás, como seria o Paulo Gustavo se o fizesse “na vida real”. Ou vocês acham que ele – viado – seria apontado como revolucionário? Acham que não teria ninguém para pedir que ele guardasse seus trejeitos pra Senhora dos Absurdos e “se desse ao respeito” ou mantivesse “seus gostos” em privado? Pois é!

Eu sei, somos programados para aplaudir tudo que um macho sarado de olho azul faz. E várias vezes isso não tem problema nenhum, mas é bom pensar um pouco nessas desigualdades antes de sair batendo palma ou atirando outra pessoa ao fogo. Denunciar a LGBTfobia é o que interessa, porque ela é parte de um sistema de poder que divide experiências e forja identidades para criar uma guerra que não deveria existir, inclusive porque parte do pressuposto de que um dos lados é o “correto” e o outro é o “desvio”. Ela é desigual em sua gênese. E nesse cenário, não existe apoio ou esperança, militância ou ingratidão… Ser “bicha” é estar sempre errado.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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