O que é “coisa de gay”?

O que é “coisa de gay”?

Filme gay, boate gay, revista gay, site gay, gíria gay, Parada Gay, movimento gay… Tudo “coisa de gay”! A rigor, é uma identidade definida por nossas práticas sexuais e/ou orientações afetivas, sendo que as pessoas não passam o tempo todo fazendo sexo ou discutindo relacionamento. Assim, não é difícil concluir que o “ser gay” esteja mais ligado à uma categoria social do que ao que se faz na intimidade. E esse é o problema!

DandoPintaSloganO que existe de tão ameaçador na “Agenda LGBT” – para incluir os segmentos invisibilizados da sigla – para que se fale tanto em “desejo de privilégios”, “ditadura gay”, “fim da família tradicional” ou “excesso” de discussão sobre esse assunto? Será mesmo que os Direitos LGBT estão sendo falados demais, a ponto de “sobrar” e chegarem a incomodar “ozétero”?

Já falei bastante sobre a relação hierárquica que a classificação hétero/homo produz. Automaticamente, as pessoas são divididas por uma inferência de suas preferências sexuais – já que geralmente isso ocorre muito antes dessas preferências se transformarem em práticas – e colocadas em papéis sociais distintos. Um “certo” e outro “errado”. Um “normal”, um “desviante”. Um “superior”, um “inferior”.

Quando ativistas apontam essa diferença ou a colocam como argumento para justificar suas demandas, é comum que se fale em “vitimismo”. Algumas pessoas, inclusive na comunidade LGBT, chegam ao extremo de acusar esses ativistas de uma espécie de “homofobia reversa”, como se o indivíduo que acusa o preconceito fosse responsável por sua produção. Como se essas pessoas estivessem “comprando a ideia” de sua inferioridade. Pior, como se toda luta fosse movida pelo “recalque” ao status privilegiado do opressor.

Ora, exemplos de opressão dentro da comunidade não faltam, e sem dúvida que é um problema que devemos enfrentar, mas isso está longe de significar que nossa inferioridade social seja algum tipo de ilusão. Ela é produzida diariamente através da violência, das piadas, do discurso médico e do religioso, na política e no Direito. Somos diferentes porque somos tratados como diferentes, e somos inferiores porque é nesse lugar que somos colocados. Isso constrói nossa subjetividade e é parte essencial da vivência LGBT, marcando também nossa cultura e nossa visão de mundo.

Evidentemente, recortes de classe, de raça e de gênero vão influenciar as trajetórias pessoais, mas quando generalizamos para a experiência da “comunidade LGBT” como um todo, falamos da relação desigual entre os conceitos “hétero” e “homo”, que nada mais são do que “fantasias sociais”.

“Fantasia” quer dizer que identidade sexual não existe? Sim e não, na verdade. A sexualidade é uma fantasia porque a ideia de que o sexo define o indivíduo foi construída socialmente, em um processo histórico e filosófico relativamente recente. Quando o sexo foi atrelado ao ideal de amor romântico, e “sentir tesão por seu amor e só ter olhos para essa pessoa até morrer” virou a grande meta da sociedade – pelo menos na teoria – , selou-se o destino da “orientação sexual”. Entretanto, por sermos seres sociais, somos entrecortados por nossa cultura, por nosso ambiente, nossa localização no tempo e no espaço. Isso forma a nossa identidade. Então, embora o processo de criação da sexualidade possa ser identificado e discutido, isso não quer dizer que ela não seja “genuína”, já que crescemos em um mundo que não só a considera real, bem como se estrutura para que ela SEJA real.

É por isso que existe “coisa de gay”.

Por que a heterossexualidade precisou ser estabelecida como padrão, a homossexualidade virou o desvio. Por que o desvio é “errado”, seu lugar é o gueto. Por causa da violência, o “amor que não ousa dizer seu nome”, nas palavras de Oscar Wilde, se escondeu nas sombras de parques, banheiros e cinemas. Veio o capitalismo, viramos mercado, e vieram saunas e boates gays. Por um lado, é maravilhoso que tenhamos lugares e coisas – inclusive na arte e na língua – que sejam nossos. Que sejam seguros e divertidos. Porém, esses lugares estão à parte do todo e reafirmam a nossa diferença, que até pode ser muito boa quando pensamos em música mas que está longe de significar algum privilégio, já que muitas vezes permanecer “no nosso lugar” é uma questão de vida ou morte.

Existe “coisa de gay” porque estamos vivendo um momento histórico em que isso ainda se sustenta, pro bem e pro mal. O paradoxo da militância é gritar a diferença para lutar por igualdade, mas é assim que a coisa anda. É por causa dos nossos esforços de agora que amanhã, talvez, essas barreiras estejam mais nebulosas e sexo e amor possam ser apenas uma parte mais ou menos importante da vida de alguém. Quem sabe, de repente as pessoas até passem a ser tratadas como pessoas, ao invés de serem definidas por seus gostos e paixões…

Mas aí é pro futuro, se um dia respeito virar “coisa de gente”.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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