O “lugar no mundo” de um positivo!


Por ignorância da minha parte, sempre me pergunto como a novela adolescente Malhação, da Rede Globo,pode deixar passar diversos temas que são caros para a vida social como um todo, especialmente na fase tão conturbada da adolescência. Por isso, quando descobri que na atual temporada teria um rapaz interpretando um “caso” de soropositividade, voltei ao passado e comecei a assistir ao programa com o objetivo de tentar identificar quem seria esse “rapazinho que não teve sorte na vida”.

LadoPositivo2O debate sobre racismo, machismo, LGBTfobia e afins não têm muita visibilidade na novela. No passado, a personagem Erika – interpretada por Samara Felippo – se descobriu positiva, e até onde sei, foi o último registro do assunto no horário. A nova fase se chama “Seu lugar no mundo”, e alguns temas sociais como o feminismo estão em pauta, até mesmo pela resposta das redes sociais. Apesar de alguns problemas, a narrativa tem mostrado situações comuns ao universo das opressões. O que eu, particularmente, acho perigoso quando se trata dessas temáticas é a administração da força do lado de “quem já vem ganhando”.

Henrique (Tales Cavalcanti) é um rapaz retraído, que pouco vai às festas, bastante misterioso, pouco (ou nada, eu diria) namorador e baterista. A Malhação veio construindo toda uma história da vida do personagem para que pensássemos que ele muito provavelmente escondia algo. Todo esse “jeitão” dele fez com que os seus amigos e até mesmo a sua primeira namorada na trama, Camila (Manuela Llerena) desconfiassem que ele não fosse uma pessoa sincera. Realmente é muito interessante todo esse jogo de construção da positividade, colocando de um lado um vírus “problemático”, cheio de preconceitos, estigmas, situações plurais e do outro um rapaz que não vive uma juventude “normal”; existe então um vírus e uma produção feita sobre ele.

A dicotomia entre sinceridade e não sinceridade aparece logo de cara quando esse personagem vem sendo bombardeado inúmeras vezes por sua namorada, que apela para que ele se abra com ela. Finalmente, todo esse mistério é revelado e Henrique tem a sua condição exposta após um jogo de basquete em que ele se machuca com outra menina, ficando preocupado com o possível contato com seu sangue e falando sobre a doença.

É interessante pensarmos esse “caso” de Henrique de forma mais ampla, na qual toda a personalidade “problemática” dele impede o mesmo de parecer com os seus amigos. É como se ele fosse definido pelo vírus. Não ignoro, claro, que o HIV “não tem cara” e que ele mude a vida da gente, mas me parece que mais uma vez esse tema vem sendo tratado de forma tão descolada da realidade que é necessário separar, no que diz respeito a comportamentos, aqueles que são “normais” dos “anormais”.

Tratar o HIV como um vírus que não necessariamente precisa da sua participação na infecção é positivo, esclarecedor e libertador, como é o caso de Henrique (nascido com o vírus). No entanto, me parece problemático que isso sirva para acionar a “pena”, ainda mais levando em conta que o personagem é homem e heterossexual. Muito provavelmente ele sofrerá preconceitos ao longo da temporada, no entanto será lembrado como “ele não teve culpa do que aconteceu”.

Não penso que só tenham coisas negativas nesse personagem. Penso, muito pelo contrário, que esse caso é relevante, pois por trás de seu jeito reservado existe uma violência social e simbólica que forma e administra corpos positivos. É uma pena que quando esse tema aparece na telinha ainda seja colocado com “N” problemas que dizem respeito mais à realidade estrutural do que à doença em si. Pensando em Henrique, entendemos o fantasma da AIDS. O terror que um simples machucado pode causar, já que o sangue positivo é um problema por si só.

Talvez o tema dessa temporada faça muito sentido, e o “lugar no mundo” de Henrique seja o de soropositivo, e essa marca nunca se descole dele. Não é assim que funciona com todos os preconceitos?

Leia a Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Para falar comigo, você pode escrever para poz@osentendidos.com.

Previous Então é Natal - Simone de volta com seu "25 de Dezembro"
Next O que é "coisa de gay"?

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *