Vamos ser bicha pra sempre?


Ser gay é tão engraçado! Dos trejeitos do Seu Peru ao “êeeepa” da Vera Verão, continuamos a entreter por causa de um dos princípios básicos da comédia: a quebra de expectativa. Ora, tem coisa mais engraçada do que ver um homem desmunhecando? Claro que não! Se tivesse, a “bicha palhaça” não seria estrela até hoje, néam?
dando pinta
O babado da semana foi o luxuosíssimo casamento do humorista Paulo Gustavo com o médico Thales Bretas. Na festa reservada, chamou a atenção o fato de os noivos não terem se beijado, preferindo encerrar a cerimônia com um abraço. Ora, é lógico que eles têm o direito de fazer o que bem entenderem, mas considerando que o ator acha que “levantar bandeiras é que gera preconceito”, o “alerta fúcsia” da homofobia internalizada não tem como não apitar.

Não cabe discutir a necessidade do casamento, da monogâmia ou de modelos normativos de relacionamento. No caso específico dos gays, a simples inclusão desse desejo no terreno das possibilidades é fenômeno recente, e a conquista efetiva desse direito ainda se restringe a uma pequena parcela do mundo. Politicamente, o uso do “casamento gay” como bandeira política dividiu o movimento, já que a ideia da adequação a um ideal “higienizado” serviu, também, para criminalizar ainda mais aqueles que não optaram por esse caminho. Entretanto, é inegável que a estratégia do “podemos ser como vocês” foi útil, uma vez que no fim das contas foi o que veio a garantir (alguns) direitos iguais para uma população socialmente excluída. Ou seja, vai ter bicha casando sim, e se reclamar vai ter várias, mas só porque algumas levantaram bandeira e continuam a levantar…

É maravilhoso que as redes sociais sirvam para unir os LGBTs, para solucionar problemas e espalhar nossas gírias por aí. Independente dos brados LGBTfóbicos, estamos colorindo o mundo com glitter e tombando com o preconceito. Mas infelizmente, esse processo é lento. Nem sempre as pessoas – mesmo aquelas em posição de fragilidade – estão abertas ao debate ou sequer conseguem entender (ou aceitar) sua vulnerabilidade social.

O apoio heterossexual é fundamental para que o objetivo de um mundo mais tolerante seja alcançando. Acontece que esse apoio tem seu preço, e por isso é preciso pensar sobre como a divisão hétero/homo funciona em nossa sociedade. É preciso ter orgulho da nossa diferença e exigir que ela seja respeitada, justamente porque a produção dessa diferenciação cria as particularidades que enriquecem a nossa história. E o respeito deve começar entre nós, com o fim da idolatria cega a ideais de masculinidade, o fim da misoginia e da transfobia, e com o fim dessa subserviência que mais parece um complexo de inferioridade.

Por que rimos da bicha pintosa? Por que batemos no peito para afirmar que estamos “fora do meio”, como se frequentar uma boate gay fosse pecado? Se existe alguma razão para que tudo aquilo que é lido como feminino/afeminado seja considerado piada inferior, é o machismo, que jamais vai admitir um “homem que faz sexo com homem”.

Somos todos viados porque esse rótulo vem de fora. Podemos estar mais ou menos próximos do “padrão de normalidade”, mas quando o assunto é identidade sexual, qualquer coisa que não seja heterossexual é “desvio”. Individualmente, histórias pessoais vão produzir LGBTs que não se sentem afetados por essas questões, assim como existirão heterossexuais plenamente engajados na derrubada da fantasia que os beneficia. Mas quando falamos do que significa esse SER LGBT, essa coisa tão profundamente atrelada à existência das pessoas, estamos falando de algo que foge do universo fascinante de nossos umbigos. Estamos pedindo que “eles” abram mão de sua “superioridade” para que as diferenças sejam apenas diferenças, sem hierarquia.

A bicha bichérrima é hilariante. O casal que não se beija em público nem no próprio casamento é uma comédia. O “beijo gay” esperado e comemorado na novela, mesmo com toda a sua importância, é cômico de tão casto. Somos o cabeleireiro engraçado, o estilista aplaudido por xingar a Parada Gay, o canal de vídeo que faz graça colocando na roda a viadagem para os héteros rirem. Somos os eternos palhaços de um picadeiro onde nossa sexualidade é o grotesco, o “show de horrores”, mas que nunca pode ser a atração principal. Nos becos e banheirões, pais de família desfrutam do nosso sexo, mas para que a gente “se dê ao respeito” é preciso conter nosso afeto porque “Aimeudeus, como vamos explicar prascriança?“!

A “bicha palhaça” é castrada. Bonitinha, engraçadinha, domada. Homo, não sexual. Beijar, amar, foder… Aí já é vandalismo! Nem os “apoiadores” querem ver isso. E embora seja perfeitamente legítimo que alguém prefira esse caminho, não dá para fingir que alguma coisa vai mudar enquanto interpretamos o mesmo papel. O problema não são as escolhas pessoais de um Paulo Gustavo, ou os caras que não curtem pintosa ou os “discretos fora do meio”. O problema é o “roteiro” que produz e justifica tudo isso, e que ainda consegue que a gente bata palma e ache bonito, como se nosso lugar fosse mesmo inferior ao dos outros. Como se essa diferenciação fizesse sentido e um desejo ou prática sexual precisasse definir a existência de uma pessoa.

Vamos ser bicha pra sempre sim, mas com respeito. É “Dona Bicha”, com orgulho e TODOS os direitos!

Permita-se. Seja livre. Seja Fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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