Quando o HIV chegou


Quando eu tinha uns 12 anos, mais ou menos, assisti ao filme que retrata a vida do poeta Cazuza. Costumo dizer que construí a minha sexualidade muito cedo, então já naquela época tinha noção de que seria “viado”. Teve uma cena no filme que me marcou, quando a mãe do Cazuza passa a mão pelo cabelo dele, já rareando. É uma imagem que, apesar de não ter vivido quando ele e outras pessoas morreram, durante o início da epidemia da Aids no Ocidente, ainda associo à doença: o encaveiramento e a morte biológica em pouco tempo.

LadoPositivo2Esse filme é tão marcante porque aos 12 anos vi a minha morte. Criei, em minha cabeça, a ideia de que o HIV e o desenvolvimento da AIDS seriam inevitáveis no roteiro da minha vida, porque parte da “loucura” de Cazuza estava em sua bissexualidade. Estava no fato de que ele fazia sexo com homens. Assim, eu via a AIDS como um rito de passagem que todos os homossexuais, mesmo eu pré-adolescente ou um quarentão maduro, atravessariam. Uma consequência e uma punição ao “crime” de relacionar-se com outro homem.

Quando peguei meu diagnóstico, ainda no início da minha juventude, pensei mil coisas. Passava pela minha cabeça me suicidar, processar o laboratório, me esconder, contar para todo mundo e ver quem teria pena de mim, enfim, tanta coisa… E também uma sensação esquisita de “alívio” (por falta de palavra melhor) porque esse resultado tinha finalmente chegado.

Me perguntava porque tão cedo, já que eu ainda estava no Ensino Médio e com toda a vida pela frente, mas sempre com essa sensação de culpa e de “merecimento” como resposta. Ao mesmo tempo em que procurava buscar as explicações em mim, acionava que aquilo era o esperado, o inevitável. Por fim, tive que me render aos anti-retrovirais e hoje estou “bem” – e faço questão de reforçar o meu posicionamento de agente nessa situação e dizer que sim, que eu estou bem e que resisto, para provar que estou bem.

Alguns anos se passaram e eu cresci. Melhor dizendo, a vida me fez crescer muito cedo. Hoje, enquanto leio e escrevo sobre esse assunto, me pergunto como aquele menininho tinha tanta certeza desse “fim trágico”. Essa certeza foi tão naturalizada em mim, desde cedo, que me pergunto se não tinha outra saída ou se não fui conduzido a esse destino. E se esse destino é inevitável, qual é a razão do uso de preservativos? Não sei, mas talvez seja esse questionamento que faça com que tantas pessoas não se protejam, aumentando as taxas de infecção todos os anos. É por causa dessa naturalização e dessa construção de “imagem” do vírus que ele segue matando vários menininhos, menininhas, adultos, velhos e velhas.

Hoje sabemos que o HIV não tem cara nem orientação sexual. A única coisa que não sabemos é como que as diferentes pessoas, com as suas diferentes práticas sexuais (não ignoro outras formas de transmissão, apenas não é foco da discussão), reagem ao receber seu diagnóstico. Enquanto uns já esperavam, outros não sabem explicar e se perguntam “por que eu?”, já que para alguns o vírus ainda é um castigo que viria mais cedo ou mais tarde, enquanto que para outros é uma surpresa sinistra.

https://www.youtube.com/watch?v=UrsMph1vhL0

Leia a Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Para falar comigo, você pode escrever para poz@osentendidos.com.

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