Incrível! Por dinheiro, gays aceitam “virar” héteros!!!

Incrível! Por dinheiro, gays aceitam “virar” héteros!!!

Inacreditável! Existem gays – viados, boiolas, mariquinhas – que, POR DINHEIRO, topam virar héteros! Outro dia, um gay fez sucesso nas redes sociais ao postar uma foto dando selinho em uma mulher, em protesto contra a heterofobia. Recentemente, uma famosa travesti provou sua generosidade ao se deixar fotografar com um – argh – padre! Já dizia o poeta: loucura, loucura, loucura!

DandoPintaSloganOk, ok, as notícias não foram bem essas. O anúncio de que a MTV lançará um documentário sobre homens heterossexuais que trabalham como atores pornô gays – os chamados “gay for pay” – causou o frisson de sempre, com muita gente revoltada “dos dois lados”, já que héteros não conseguem admitir algo do tipo e gays consideram que isso é apenas negação. Os atores Bruno Gagliasso e João Vicente de Castro se beijaram enquanto apresentavam um prêmio de “homem do ano” no Copacabana Palace, em protesto contra a homofobia. E há pouco, o padre Fábio de Melo virou notícia por ter tirado uma foto com a célebre travesti Luana Muniz, a quem chamou o tempo todo de “rapaz”.

Nada de novo sob o sol. Colocando as divergências de opinião à parte, o discurso produzido sobre a homossexualidade ou sobre as identidades de gênero sempre atende a uma lógica que coloca “os normais” como modelo ideal.

Atualmente, com o impacto das redes sociais repercutindo nos movimentos políticos, vemos que as divergências sobre o que é “empoderamento”, “lugar de fala”, “protagonismo”, “vivência” e afins estão em ebulição. É algo natural ao debate político, já que as “comunidades imaginárias” dos movimentos identitários não são necessariamente coesas, e qualquer “inchaço” tende a ser absorvido com o tempo. Além disso, é interessante que se discuta o sucesso ou a impopularidade das estratégias, até para que elas possam vir a ser reformuladas em outro momento. Entretanto, é preciso chamar a atenção para como a construção ideológica da “anormalidade homossexual” ainda ocorre todos os dias, naturalizando aquilo que nos condena.

Se a notícia fosse mesmo “gay ganha dinheiro para fazer sexo hétero”, geraria polêmica? Infelizmente, a bissexualidade é largamente desacreditada tanto por gays quanto por heterossexuais, então é provável que a reação mais comum fosse a ridicularização. Mas no fim das contas, a única coisa que pode definir o pertencimento de alguém a esses rótulos é a autoidentificação, de forma que esse espanto só acontece porque estamos habituados a tratar estigmas sociais como características essenciais. Ninguém É nada.

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É hétero e apoia a causa LGBT? Quedê #SomosTodosViados?

Práticas sexuais são apenas práticas sexuais. Elas são carregadas de significado pela cultura justamente através desses processos de aceitação e rejeição, de exaltação e de violência. Não é estranho que um homem que se identifique como heterossexual – afinal, ele tem direito de se identificar como quiser – CONSIGA fazer sexo com outro homem – por dinheiro ou por desejo – porque esse ato não tem nada de essencialmente repelente. É a forma como essa oposição entre hétero e homo se constrói e se mantém que cria esses “muros intransponíveis”, como se as pessoas fossem PERDER o direito a uma identidade por causa de algum comportamento. É um mecanismo de controle e de poder que não beneficia verdadeiramente ninguém, simplesmente porque o modelo ideal corresponde a uma fantasia de superioridade, de adequação “natural” ou de opressão.

Ah, é ótimo que celebridades usem de sua fama para apoiar a causa LGBT ou levantar o debate sobre os crimes de ódio sofridos por essa comunidade? Sim, é maravilhoso. É possível que o Padre Fábio estivesse cheio de boas intenções e apenas um pouco desinformado sobre a maneira correta de se expressar em relação à Luana? É, pode ser. Mas o problema é forma como a sociedade, em geral, trata desses episódios. O problema é a forma como qualquer gesto de respeito ou de apoio aos LGBTs, vindo de um heterossexual, é transformado em um pequeno milagre de bondade, um grande sacrifício magnânimo de abnegação. Ora, não somos todos humanos? Não somos iguais? Não merecemos respeito?

É óbvio que é positivo quando alguém presta solidariedade. Sem dúvidas, é muito melhor que qualquer ataque. Entretanto, é preciso refletir sobre essa ótica que coloca a homossexualidade e as questões de gênero sempre em posição inferior ao modelo normativo. É preciso refletir e, logicamente, mudar. E isso deve partir dos próprios LGBTs.

A “notícia” do título é falsa e a foto é só mais uma a pintar como “gay” um padrão de beleza masculina baseado no branco europeu. Mas pensando na quantidade de pessoas que escondem sua sexualidade, não por uma opção discreta, mas por um medo angustiante, a frase poderia ser verdadeira e a imagem poderia ser uma sentença.

Se tem gay se passando por hétero em troca de respeito, que deveria ser grátis, por dinheiro seria até bom negócio.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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Escrito por:

Fabricio Longo

Ator e cientista social, criador e editor-chefe do site. Apaixonado por antropologia, cinema e Coca-Cola, é a mente problematizadora por trás da coluna Dando Pinta. Morre de orgulho do legado desse espaço, e segue tentando não ser soterrado por uma montanha de bonecas Barbie e quinquilharias da Mulher Maravilha! Perguntas, críticas e cantadas no fabricio@osentendidos.com.br.

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