Bandeiras levantadas, protagonismo, e o medo do ativismo LGBT. Quanto custa pra gente se unir?


Em qualquer notícia sobre homossexualidade ou sobre direitos LGBT ou identidade de gênero, é a mesma coisa: uma enxurrada de comentários falando em falsas ideologias, a mítica “Ditadura Gay”, a denúncia de “um exagero” e a preocupação de que “essa moda” esteja sendo estimulada. Para a opinião pública, ao que parece, “esse assunto está demais”. É como se – de fato – existisse uma entidade cósmica homolesbobitrans, tentando derrubar o status quo do sexo para instaurar uma “nova ordem mundial”. Só esqueceram de avisar para a gente…

DandoPintaSloganA luta por igualdade é sempre meio esquizofrênica. É preciso afirmar a diferença para tentar fazer com que o outro – um humano igual a você – entenda que algumas questões históricas, econômicas e sociais criaram abismos entre nós. Independente de dividir o mundo em “opressores x oprimidos”, temos que mostrar nossa fragilidade para quem acaba se beneficiando – querendo ou não – dela. E isso não é fácil.

Que a internet é um ambiente hostil, não é novidade. Por trás de telas e teclados as pessoas revelam o seu pior, e basta ler os comentários em qualquer notícia para assistir a um verdadeiro “show de horrores” travestido de debate, em que o ódio se manifesta mal disfarçado de “opinião”. Nas redes sociais a coisa é um pouquinho melhor porque em geral as pessoas estão identificadas, mas também não é rara a leitura de frases racistas, misóginas e LGBTfóbicas. A resposta dos movimentos sociais a essa hostilidade é doída e algumas vezes, violenta, o que reflete a diversidade de qualquer grupo formado por mais de uma pessoa. Sempre tem a galera do “deixa disso” e um povo mais diplomático, mas também quem já chegue “na voadora” e não tenha “paciência pra quem tá começando”. Estratégias daqui, estratégias de lá, meia dúzia de memes da Inês Brasil

A questão é que ninguém é obrigado a nada. A comunidade LGBT é uma comunidade porque a experiência social de “ser LGBT” coloca esse conjunto de pessoas em “um mesmo barco”, embora marcadores como gênero, raça e classe criem vivências bastante distintas entre nós, “somos um”. O mesmo ocorre com as mulheres, com os negros e com as pessoas com deficiência. Faz sentido que essas “minorias” todas lutem juntas ou sejam pelo menos solidárias umas com as outras porque, à sua maneira, cada um sabe a dor e a delícia de sua diferença. Entretanto, essa não é uma obrigação porque todos os grupos – seja num chat de Whatsapp ou em um congresso da ONU – são formados por indivíduos com histórias particulares e visões de mundo que podem coexistir até mesmo em conflito.

Não existe “ditadura gay” ou mesmo uma “bancada LGBT” ou um “partido feminazi” porque não estamos interessados em “tomar o poder”. Não temos o apoio de uma estrutura milenar internalizada em palavras e gestos para naturalizar os nossos discursos. A nossa articulação política surgiu da necessidade de defesa e ainda ocorre com muita luta, no dia a dia, e às vezes através de um tweet.

As paradas do Orgulho LGBT são um ótimo exemplo. Criadas em um contexto histórico de muita repressão, elas se institucionalizaram como festivos eventos turísticos em várias cidades. Enquanto alguns militantes defendem que a visibilidade que proporcionam já é política por si só, outros acreditam que o perfil carnavalesco esvazia as demandas. Há ainda quem considere que o clima de festa é parte da história desse segmento, e quem aponte – com razão – que nem todas as letras da sigla são representadas direito pelo evento.

Ser gay é ser vítima de um tipo particular de exclusão, mas não anula certos privilégios do gênero masculino. Além disso, a “identidade social” dos homens gays vem sendo trabalhada através de normas de comportamento e status econômico que, embora se mostrem efetivas no plano de aceitação da homossexualidade, acabam por dificultar a empatia entre os “G” e os “LBT”, e ainda mais entre outros grupos oprimidos. Pior, essa posição privilegiada é capaz até de nos cegar ao fato de que muitas situações de fragilidade se combinam, e que há pessoas que são vitimadas de diversas maneiras.

É triste ver gays batendo no peito para gritar que “não levantam bandeiras” ou para vociferar contra os conceitos de “protagonismo” ou “lugar de fala”. Ao que parece, essas pessoas não entendem que são protagonistas de uma luta em particular e que, por isso mesmo, podem ser úteis às outras demandas. Todo mundo pode e deve combater o machismo, o racismo, o preconceito de classe, o capacitismo, a gordofobia e a homolesbotransfobia. Esse é “o papo chato” dos militantes, mas são as bandeiras que carregamos independente da nossa vontade, simplesmente porque a sociedade trata de colocá-las sobre nós. Vamos discordar, vamos brigar, vamos questionar… Às vezes será preciso calar e apenas escutar o outro, tentando entender até mesmo sua raiva. E isso é cansativo, mas é necessário. Faz parte do processo.

Não há porque temer o ativismo LGBT. As nossas poucas conquistas custaram muitas vidas, e os verdadeiros inimigos estão do outro lado da trincheira.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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