Michael Jackson – “History” revisitado


Após ver sua carreira quase enterrada devido à acusação de abusar sexualmente Jordan Chandler, de 13 anos, era o momento do Rei do Pop ressurgir das cinzas e fazer justiça ao seu legado. Para isso, decidiu recontar a sua história (para que ninguém se esquecesse o que o fez chegar ao posto de realeza), fazendo a sua primeira retrospectiva de carreira, por meio do álbum duplo “HIStory: Past, Present and Future, Book I” (Sony Music/1995).

nossa senhora do comeback

Entre grandes sucessos e faixas inéditas, o público pôde então celebrar o seu retorno acompanhado da irmã mais nova, Janet Jackson, em um inesperado dueto onde relata o seu cansaço frente aos rumores publicados sobre sua vida pessoal e vocifera contra a mídia pela pressão sofrida, ora pela despigmentação de sua pele gerada pelo vitiligo, ora pelas intervenções cirúrgicas, ou por suas excentricidades como, por exemplo, ter um parque de diversões em casa para compensar a infância não vivida plenamente em nome do trabalho. Todos estes temas seriam abordados nas faixas a seguir – com breve análise de cada uma nesta coluna – que compõem o seu disco mais biográfico e revelador, que completou 20 anos de lançado em junho deste ano.

1 – “Scream” – Michael já havia dado sinais de paranoia frente a exposição precoce, mas nesta faixa ela se mostra ainda mais desesperadora. Vítima de uma mídia sensacionalista, que mais se preocupa em veicular escândalos para vender jornais e revistas, é contra a esta imprensa que Michael levanta a sua voz com o apoio de Janet. Com ela dividiu os créditos da composição com Jimmy Jam e Terry Lewis. Envolta por ruídos sonoros no melhor estilo high-tech, “Scream” usou samples de Sly & The Family Stone e da própria irmã Janet, como visto nos vocais de “If”.

2 – “They don’t care about us” – Outra canção de protesto, mas desta vez Michael usa a sua voz para engrossar o coro de uma população menos favorecida, esquecida pelo governo: “Me diz o que aconteceu com os meus direitos/Me tornei invisível pois você me ignora/A tua proclamação me prometeu liberdade”. Originalmente um rock raivoso, ganhou ares retumbantes quando desembarcou em Salvador/BA para gravar o vídeo-clipe no Pelourinho, produzido por Spike Lee, com a participação do grupo percussivo Olodum, regido pelo mestre Neguinho do Samba. Não havia melhor lugar para cantar um tema contra as injustiças sociais como o Brasil, tamanha é a sua desigualdade.

3 – “Stranger in Moscow” – Mesmo com tamanha fama e o mundo inteiro aos seus pés, é nesta música que Michael mostra o seu lado mais introspectivo e melancólico ao relatar sua solidão e as lembranças de um tempo bom ao ouvir uma criança chamar seu nome. Sua maestria em fazer beatbox com a boca se revela na introdução da música.

4 – “Earth song” – Preocupado com a devastação da natureza e com os malefícios causados pela intervenção do homem e por todo o sangue derramado em nome de interesses próprios, Michael compôs uma tema ecológico de alerta para seus ouvintes, tal e qual a consagrada “Heal the world”, do anterior “Dangerous (1991). Outro momento reflexivo do disco que chama atenção em um momento de atentados e tragédias ocorridas no mundo hoje.

5 – “You are not alone” – Composta por R.Kelly, a romântica balada chamou mais atenção por mostrar Michael e a sua então esposa, Lisa-Marie Presley, em um momento íntimo: Os dois semi-nus, trocando carícias. Foi o seu décimo terceiro single a ser n° 1 na Billboard.

6 – “Childhood” – Michael nunca escreveu uma letra tão biográfica quanto esta. É em “Childhood” que ele mostra a sua verdadeira identidade, pedindo desculpas a quem o julga sem conhecê-lo. O fato de não ter vivido uma infância como qualquer outra criança normal, foi uma lacuna que jamais pôde ser preenchida, por mais que se recompensasse em ter em sua mansão um parque de diversões e gostar de brinquedos. Desde cedo teve responsabilidades de adulto, com uma mãe omissa e um pai tirano que o explorava para obter mais dinheiro e manter uma vida perdulária.

7 – “Tabloid junkie” – Outra vez Michael sendo vítima de uma imprensa sensacionalista. E por mais que sua vida pessoal gere tanta curiosidade ao público, mais mentiras e especulações inventam para obterem mais audiência. Michael tenta abrir os olhos de quem gosta de consumir este tipo de notícia: “Só porque você leu em uma revista/ Ou viu pela televisão/ Não torne isto um fato/ Embora todos queiram saber sobre isso”.

8 – “Smile” – Frente a tantos problemas, especulações, cobranças e desentendimento, o disco se encerra com uma mensagem de esperança, com um olhar positivo sobre as adversidades. Composta por Charles Chaplin em 1936 para o filme “Tempos Modernos”, a canção encontra na voz do Michael o escapismo perfeito para enfrentar sua realidade a bordo de um sorriso.

O álbum “HIStory: Past, Present and Future, Book I” repôs a coroa de rei, mesmo com um discurso raivoso e inflamado, de quem há muito tempo anda pedindo para ser deixado em paz. Paz nunca alcançada nem mesmo após sua morte.

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