Meu amigo vísivel, o vírus HIV.


Nesta semana finalmente poderei ver a minha militância sendo debatida pelas pessoas das mais diferentes formas. E tudo isso porque no 01 de dezembro é “celebrado” o dia mundial de combate à Aids. Parece ironia do destino que o ator americano Charlie Sheen, famoso pela série “Two And a Half Men”, tenha falado sobre a sua condição justamente próximo do “dezembro vermelho”. Pela primeira vez em muitos anos de sorologia, eu vi o HIV sendo debatido antes desta data…

LadoPositivo2Na verdade eu gostaria mesmo de pedir desculpas e dizer que quando digo que o HIV não é debatido, estou mentindo. Ele aparece sempre que uma camisinha estourada ou um “descuido” fazem uma gravidez ou uma DST serem tratadas como possibilidade. Ele é debatido sempre que o medo coloca o HIV como o pior de todos os castigos, provando que a culpa faz parte do nosso cotidiano. Escutar coisas do tipo é parte do meu dia a dia, já que nem todo mundo sabe como essas palavras ecoam dentro de mim.

O que realmente me deixa triste é saber que o HIV é debatido especialmente em uma data, enquanto nos outros dias ele é lembrado como “o que devemos evitar”. Infelizmente para mim ele é uma realidade diária. Sempre que vou tomar meus remédios passa um filme em minha mente que vai desde o resultado até aquele momento. Sim, eu definitivamente não tomo apenas um remédio. Eu tomo tudo aquilo que nas relações e no campo das moralizações e estigmatizações foram construídas e formaram e administram “o vírus”. Quando eu tomo os remédios eu penso em milhões de pessoas que também estão fazendo isso naquele momento, com seus telefones programados para tocar alarme sempre na mesma hora. Alguns são lembrados pelos pais, enquanto outros tomam escondido porque não têm coragem de assumir seu status. Outros como eu, que engolem as pílulas pensando que a vida é boa, que vamos vencer, e que tudo tem seu Lado Positivo.

O que essa pluralidade de situações tem a ver com o assunto do texto? Tudo, eu diria. Graças aos diferentes exemplos eu tenho a certeza do quanto sou invisível durante o ano inteiro e as pessoas parecem se importar apenas numa data. O que vem antes do 01 de dezembro são dizeres que te silenciam e acham que o HIV vai ser combatido com o uso do preservativo. Condição e infecção são coisas completamente diferentes. Costumo dizer que eu tenho a subjetividade formada pelo lado vermelho da força. Mas evito falar sobre o assunto porque não é importante para as pessoas.

Ainda é muito difícil encarar toda essa visibilidade de uma data. São tantas coisas que eu gostaria de dizer que acaba não me sobrando tempo, até porque o dia abre com “faça o teste” e “use camisinha”. Mais uma vez eu continuo invisível no “meu” dia. Mais uma vez o olhar para a data vai ser “aquilo é o que devemos evitar”.

Pegando gancho com o #MeuAmigoSecreto, eu tenho o meu e ele está vivo ao longo desse texto. É o preconceito que transforma a soropositividade em um martírio. Quanto ao meu “inimigo invisível”, ele vive dentro de mim, me lembrando todos os dias sobre a minha condição e sendo acionado quando tenho que dar conselhos ou falar abertamente sobre “a coisa”. Ele é, na verdade, um amigo. Um amigo que me lembra que, apesar de sua presença, eu não me defino por ele. Um amigo que diz que grita que estou vivo e que eu existo!

Leia a Lado Positivo em quintas alternadas, aqui n’Os Entendidos. Se estiver precisando de ajuda ou quiser desabafar, escreva para poz@osentendidos.com.

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