Tá de bob? O sexo fácil e o valor das relações gays!


Fim de noite, os ossos moídos pelo trabalho, e o “canto da sereia” da internet e dos aplicativos. Mensagens, corpos bonitos, selfies escolhidas para forjar naturalidade, like, dislike, it’s a match! Uma notificação e aquela pergunta-convite, o famoso “tá de bob?”. Claro, claro… Por que não estaria? Não estamos, todos, o tempo todo disponíveis para sexo e sem nenhuma ocupação que nos impeça de atender aos desejos sexuais de qualquer um?

DandoPintaSloganÉ como se fizéssemos parte de um cardápio com delivery 24 horas, sete dias por semana. Não é preciso dizer “boa noite”, basta mandar logo uma foto do pau, da bunda ou do peitoral. Não curto isso, não curto aquilo, tudo “questão de gosto”. Fisting, DP, sexo à três ou a cinco, barebacking, só oral, só punheta, gouinage, ativo, passivo, virgem, discreto, sigilo… Real agora!

A homossexualidade – especialmente quando pensada no papel social do “gay” – é uma identidade política, independente do que seus praticantes pensam sobre o assunto. As práticas homossexuais sempre existiram e sempre vão existir, mas foi a partir da criação de um imaginário sobre os homossexuais que a ideia de uma sexualidade definida – e, por sua vez, definidora – passou a moldar a própria vivência dessas pessoas. Nesse processo de catalogação, a “caixinha” definida considera que qualquer desejo ou experiência é suficiente para que uma pessoa SEJA gay, como se essa fosse uma identidade inescapável. Até aí, beleza. No fim das contas, as pessoas seguirão vivendo suas vidas como puderem, independente de rótulos. O problema é que uma identidade social que é definida, em princípio, pelo sexo, carrega consigo todos os problemas que nossa sociedade moralista enxerga no gozo.

A ideia de que nossa próxima transa esteja na esquina, em um parque escuro ou em um perfil sem cabeça em nossos telefones é, para alguns, filosoficamente problemática. Pode ser irritante que alguém pergunte se “estamos de bobeira”, querendo saber se por acaso estaríamos dispostos a largar tudo e atravessar a cidade para fazer sexo imediatamente. Entretanto, é um comportamento esperado entre homens homossexuais porque a masculinidade é moldada por uma sexualidade predatória e porque a homossexualidade é estigmatizada como uma identidade puramente sexual e/ou hiper sexualizada.

É nesse contexto que posturas “moralmente respeitáveis” como os relacionamentos monogâmicos e o casamento são transformadas em modelo, criminalizando ainda mais o sexo considerado “libertino”. E assim, se forma aquela que talvez seja a primeira grande disputa do Movimento Gay como bandeira política: a disputa entre os “assimilacionistas”, que desejam se inserir no status quo através da reprodução de seus valores, e entre “as destruidoras” que, direto de sua marginalidade, desejam “enfiar o pé na porta” e implodir o sistema porque respeito não pode ser algo condicional.

Só que nessa guerra não há vencedores.

É verdade que respeito não se pede, se exige. É verdade, também, que uma postura combativa pode ganhar ares de heroísmo. É verdade que nosso sexo é político e transforma a sociedade simplesmente por existir, inclusive porque, para algumas pessoas, um simples beijo gay já é um (puta) protesto violento. Também é verdade que a ocupação de espaços “tradicionais” e mesmo a reprodução de formatos normativos – seja feita de forma consciente ou não – pode ser entendida como uma estratégia de articulação em prol da igualdade. O que não dá é que o nosso senso de comunidade seja abalado de dentro, pela internalização de uma filosofia “preto no branco” que coloca “gays bons” contra “gays maus” baseada apenas no que fazemos – e no quanto e com quem fazemos – na cama. Isso é algo que só beneficia o sistema que nos oprime, pois é uma experiência que os heterossexuais simplesmente não enfrentam, o que só reforça o fato de que nossas vivências são diferentes e de que nós, gays, ocupamos uma posição social inferior.

Não há razão para considerar que “os gays não querem saber de namorar” porque esse não é um problema “gay”. O amor romântico é também uma invenção social, historicamente transformada em sinal de status e objetivo a cumprir, o que obviamente gera ansiedade e muitas frustrações para as pessoas. Um relacionamento é – como diz a própria palavra – uma “relação”. É algo que se estabelece entre duas (ou mais) pessoas de acordo com afinidades específicas. Não é a coisa mais corriqueira do mundo, não importando quantos filmes façam parecer que sim. Além disso, nossa sociedade pós-moderna está aí exigindo produtividade, reproduzindo padrões de beleza (como o da foto do post) e modelos de relacionamento inalcançáveis, estimulando competitividade… Tudo isso enquanto “facilita” nossos encontros através de cliques, fazendo com que nossas vidas sejam resumidas a anúncios de felicidade  maquiada que descartamos com um block ou com um deslizar de dedo.

Amar é muito bom. Foder até desmaiar, também. Viver sem sexo ou sem amor – olha só – também é possível e digno. O que não podemos permitir é que as nossas diferenças sirvam para nos separar, como se toda a violência a que estamos sujeitos não fosse forte o bastante para nos fazer lutar juntos, independente de nossas escolhas.

Enquanto não enxergarmos isso, estamos mesmo “de bob”. E sendo feitos de bobos.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

Previous Sobre brancos, "mestiços" e afroconvenientes
Next Meu amigo vísivel, o vírus HIV.

4 Comments

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *