O que os gays realmente querem dos meninos?


Cuidado! A homossexualidade está sendo imposta! Os gays saíram de suas boates e estão nas novelas e nas ruas, tendo a ousadia de chamar seus interesses de direitos! A doutrinação cultural começa cedo, então é preciso proteger nossas crianças. Até a boneca Barbie, que durante anos coloriu de rosa o mundo das meninas, agora está jogando seus cachos dourados para os meninos! Será que a masculinidade vai entrar em extinção?

DandoPintaSloganFoi notícia em portais, em revistas e em sites LGBT. Pela primeira vez em quase 60 anos de existência, a Barbie colocou um MENINO em um de seus comerciais! Nos comentários pelas redes, o terror da “ideologia de gênero” e a denúncia – risos – de uma “doutrinação LGBT”. É, parece que o medo é de que a homossexualidade seja contagiosa, e de que um simples brinquedo possa abalar as estruturas da sociedade. E pode.

A masculinidade, a “família tradicional” e a hegemonia da heterossexualidade estão com os dias contados. Não por causa de uma boneca e de um menino, mas por causa  de suas próprias fragilidades. O machismo é opressor porque o internalizamos e reproduzimos, espalhando-o de maneira uniforme pela sociedade, mas ele é fraco. Por se basear em um conjunto de pequenas e grandes repressões, ele é ameaçado por qualquer expressão de “diferença” – ou liberdade.

O menino do comercial virou notícia no mundo todo porque uma criança com “o brinquedo errado” causa espanto. Essa é a verdadeira “ideologia de gênero” que é praticada todos os dias, dividindo o mundo em rosa e azul e condenando pessoas a um “teatro da vida” em que seus papéis estão escritos e são dirigidos pelo coletivo. Às mulheres, ficam os papéis de esposa, mãe, objeto sexual, coadjuvante, suporte emocional… Aos homens, é reservado o papel principal de chefe, de macho, de pai e até de Deus. Um papel que a figura da “bicha” não pode interpretar porque qualquer traço de feminilidade é visto como uma falha. Ora, o que é SER homem ou SER mulher? Não é performar aquilo que a cultura lê como “masculino” ou “feminino”?

Não há como saber se o tal menino vai, um dia, se identificar como gay. Embora seja possível que ele já tenha alguma clareza sobre esse lugar social, pode ser também que esteja apenas “dando pinta” porque o trabalho no vídeo pedia. De qualquer forma, ele foi caracterizado como o estilista Jeremy Scott, o mandachuva da grife italiana Moschino, que lançou a boneca em parceira com a Mattel. E isso tem um significado.

Jeremy ScottQuando Jeremy anunciou que a Barbie seria a musa de sua coleção primavera/verão 2015, denunciou o que a diva de plástico representa para vários meninos gays. O tal comercial polêmico é “falso”, porque não foi veiculado para crianças. Ele reproduz a estética dos comerciais da marca Barbie nos anos 1980 – a época mais influente na história da boneca – porque foram aquelas campanhas, foram aquelas músicas e principalmente, AQUELE rosto sorridente que representavam um sonho impossível para meninos como o estilista e como eu. Foi ele – Jeremy Scott – que quis colocar um menino usando seu penteado brincando com as meninas.

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A campanha é quase prejudicial para a boneca, porque se utiliza de vários dos signos – o corpo impossível, o volumoso cabelo loiro, o dinheiro – que a fizeram alvo de polêmica nos últimos anos. Uma polêmica já datada, pois a Barbie de hoje está investindo na diversidade e em mensagens afirmativas. Entretanto, é essa imagem exagerada – representada pelo antigo molde de rosto “Superstar”, resgatado para as bonecas da Moschino – que entrou para a história da cultura pop e para o imaginário do designer, sendo “a cara” da coleção desenhada por ele. A cara de um sonho.

Metaforicamente, uma Barbie na mão de um menino é o símbolo da qualidade fantasiosa da masculinidade que regula nossa sociedade. Pessoas, roupas e objetos são carregados de significados que vão nos construir como indivíduos e definir nossa relação com o ambiente. “Rosa” e “Azul” viram escudos, insígnias de pertencimento usadas – também – para segregar. É assim, afirmando quais comportamentos são permitidos ou interditados, que criamos classes de humanidades que valem menos. É no dia a dia, ao dizer que uma criança está “certa” ou “errada” por andar de certa maneira ou escolher um brinquedo qualquer.

Nós – os “errados”, os “degenerados”, os “anormais” – morremos um pouco a cada palavra ofensiva ou direito negado, sem falar no sangue derramado de verdade pela LGBTfobia. Não temos um plano de dominação do congresso e até mesmo nossa articulação política anda meio capenga. A ligação entre a homossexualidade e “fantasmas sociais” como o da pedofilia é ignorante e maldosa. O que “queremos com os meninos” é o fim da perseguição e o respeito à diferença, no entendimento de que todos os meninos e meninas – mesmo os gays e as lésbicas – merecem uma infância feliz.

Queremos brincar de boneca em paz.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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