“Você é feminista demais!”


Depois que comecei a olhar o mundo de uma perspectiva, inicialmente de gênero e posteriormente de raça, classe e etnia percebi que trazer à consciência o funcionamento excludente da sociedade pode ser extremamente dolorido. O que iniciou com o desvelar dos discursos e atitudes machistas, hoje se mostra como um modo de pensar desconstrucionista. Isso significou que como mulher e pertencer – no que se refere a privilégios culturais e materiais em relação ao masculino – a uma minoria, acabei por me sensibilizar com as lutas de outras.

Quer dizer, percebi recentemente, ao me desafiar a aprender novas atividades distantes da minha área de trabalho, que muitas ideias que eu fazia de certas tarefas antes de praticá-las se baseava em uma imagem superficial, essencialista e etnocêntrica do trabalho que elas realmente demandavam. Percebi, ao aprender corte e costura, que confeccionar as roupas que tão indiferentemente colocamos diariamente ou compramos em lojas que escravizam pessoas para produzi-las é uma tarefa ABSURDAMENTE complicada.

Nesse exercício de aprender a costurar, percebi que só estando na pele da pessoa que executa essa tarefa que consegui compreendê-la e admirá-la. Até aí, tudo bem, porque serviços podem ser aprendidos e desenvolvidos por todas pessoas interessadas. No mesmo raciocínio, passei a mais ou menos entender que a maioria de nós observa o mundo e as pessoas através do seu olhar e que a EMPATIA pelo diferente é um exercício árduo, uma tarefa incessante de entender que a outra e o outro precisam ser escutados.

Ao ter essa compreensão da dificuldade que temos de sentir EMPATIA pelos outros comecei a entender a tamanha dificuldade que homens, brancos, burgueses, cisgênero e heterossexuais tem para compreender as problemáticas das mulheres. Estar dentro de todas estas categorias ao mesmo tempo acarreta numa posição social privilegiada por se estar inserido em uma história e uma sociedade que lhes concedeu poder e vantagens há muito tempo.

Nesse sentido, cabe a pergunta: um homem, branco, burguês, cisgênero e heterossexual será capaz de entender as demais categorias sociais? Bom, para essa resposta tenho a seguinte hipótese. Há o PRECONCEITO INDIVIDUAL (seja ele machismo, racismo, transfobia, lesbofobia, bifobia, homofobia etc.) e o PRECONCEITO INSTITUCIONAL. E aí se encontra um ponto que MUITA GENTE tem dificuldade de compreender e é justamente este que leva muita gente a proferir discursos excludentes.

Todos os homens são machistas? Não.

Todos os brancos são racistas? Não.

Todos os cisgênero são transfóbicos? Não.

Todos os hétero são homo-bi-lesbo-fóbicos? Não.

Todos os burgueses tem aversão às pessoas pobres? Lógico que não, gente. Mas aí estamos falando dos PRECONCEITOS INDIVIDUAIS que, ainda bem, nos mostram que nem todo mundo que pertence à uma categoria social abomina as demais.

No entanto, quando falamos de movimentos sociais é preciso, é necessário, é fundamental compreender que mais do que lutar contra preconceitos individuais estamos buscando DESCONSTRUIR OS PRECONCEITOS INSTITUCIONAIS, isto é, todo o conjunto de mecanismos (muitas vezes não percebidos socialmente) que permitem a manutenção do lugar de mulheres, negras e negros, trans*, homo e pobres em uma condição de inferioridade.

Para que haja esse preconceito institucional não há a necessidade de expressão de certas palavras nem a tomada de atitudes descriminalizadoras em relação às minorias. O sistema de preconceitos institucionalizados, pelo efeito de naturalização (do tipo “é assim” e “sempre foi assim”) já funciona por si, uma vez que no nosso processo de socialização somos inseridos nele e o passamos a reproduzi-lo inconscientemente.

Quer dizer, o simples fato de não se pensar no feminismo, na racialidade, na desigualdade social, na transgeneridade e homossexualidade faz com que acabemos reproduzindo SEM MUITAS VEZES PERCEBER o discurso hegemônico e dominante. Por quê? Por que estamos dentro da sociedade e ela, nas suas mais diversas formas de controle, nos constrói assim.

Quando desvelamos, por exemplo, a masculinidade e apontamos que este discurso social está baseado na inferioridade do feminino, acabamos por expor os privilégios daqueles que estão em situações sociais favorecidas e não querem perder seu status quo. Expomos os privilégios daqueles que por viver em um mundo competitivo e individualista – mas que de muitas maneiras os favoreceu – tem uma dificuldade tremenda de sentir EMPATIA pelas vivências das pessoas.

E aí vem o tal “feminismo exagerado” ou qualquer outro movimento social que acaba por ser distorcido. Vem da falta de compreensão de pessoas nas quais muitas INFELIZMENTE são mulheres, negras e negros, trans, homo, bi, les etc. Essas pessoas não compreendem por que não se dão conta, “não tiveram” ou “não tem” as vivências mais ou menos esperadas por suas categorias sociais sem perceberem que são EXCEÇÕES. Então, assistimos mulheres criticando feministas acusando-as de “vitimismo”, de “radicais” sem compreender que as pessoas, SIM, têm vivências diferentes.

Pessoas que riam e desprezavam o meu feminismo antes, tempos depois me procuraram para conversar, por saber que seriam ouvidas por mim para narrar algum acontecido misógino, machista e preconceituoso vindo de pessoas que confiava. Infelizmente, ser e estar mulher é estar vulnerável a esse tipo de situação. Ser e estar mulher é estar inserida em um sistema que não foi feito pensando em nossas particularidades e demandas.

Muitos acusaram a atriz Taís Araújo de ingenuidade, quando afirmou que a solução do visível racismo que sofreu era “falta de amor no mundo”. Na verdade, penso que no fundo ela está certa. Percebo faltar muito amor entre as mulheres. Faltar muito amor das lésbicas para as bissexuais. Faltar amor das pessoas cis para com as pessoas trans. Falta amor do movimento LGBTTA com as pessoas negras, trans e assexuais. Falta. Falta empatia para escutar e perceber que as vivências de outras pessoas são diferentes das nossas e que, pelo fato de não as vivenciarmos, não significa que o machismo, o racismo, a homo-lesbo-transfobia e a diferenças de classe não existem. Falta amor, falta empatia, muitas vezes de pessoas que afirmam defender e fazer parte dos movimentos que combatem a desigualdade.

Sobre a imagem na postagem: na lógica queer precisamos nos apropriar dos discursos e imagens que nos depreciam para ressignificar eles: ou seja, pegar um xingamento e usar ele de modo diferente, de um modo que nos empodere. Como o menino que teve o muro da sua casa pichado com a palavra ‘Bichona’ e a Marcha das Vadias. Espero que fique evidente a minha ironia ao xingamento “feminazi”.

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