A trilogia pop de Mara Maravilha


A década de 90 marcou a hegemonia de três apresentadoras infantis, que disputavam o rentável público em suas respectivas emissoras: Xuxa na Rede Globo, Angélica na extinta TV Manchete e a Mara Maravilha no canal SBT. Esta última, atualmente é participante do reality show “A Fazenda” na Rede Record – que também é a nova casa de Xuxa – e tem dado muito o que falar por sua postura controversa e polêmica. Há anos sem liderar programas televisivos, a baiana tem se dedicado à música gospel e por sua conversão religiosa, Mara se afastou da música secular que a popularizou.

nossa senhora do comebackPara quem se recorda, enquanto apresentadora do “Show Maravilha”, Mara emplacou diversos sucessos e gravou três discos que formam uma espécie de trilogia, que marcou sua fase pop iniciada com o hit “Liga Pra Mim” (Carlos Colla/Mauro Motta) em 1989. Graças a estes três discos, Mara pôde enfim, mostrar o seu diferencial e não mais ser uma mera concorrente, tendo sua voz como principal aliada. Para isso, contou com o apoio do renomado produtor Arnaldo Saccomani, responsável por formatar o seu som e por aproximá-la de um público mais jovem a bordo de canções românticas.

Mara-discos
1° – Deixa A Vida Rolar (EMI-Odeon/1990): Primeiro título de sua discografia a sair em formato “compact disc” (um luxo para a época), é memorável por imortalizar a música  “Não Faz Mal (Tô Carente, Mas Tô Legal) de Arnaldo Saccomani e Thomas Roth, dando sequência a guinada pop com um repertório mais adequado a sua idade. Atenta à moda, não faltou lambada como visto em “Doida Pra Dançar”. Mara além de aparecer exuberante na capa, com forte apelo sexual (a boca entre aberta quase simulando um orgasmo) cometeu a ousadia de resgatar “Esse Tal de Roque Enrow”, sucesso da roqueira Rita Lee de 1975. Outra canção- fossa que tocou bastante no rádio: “Outra Vez” de Paulo Sérgio Valle e Prêntice. Assim como a faixa-título propõe, é um disco menos cabeça e mais coração, liberando o stress com um olhar mais otimista frente as adversidades de uma vida tão dura.

2° – Curumim (EMI-Odeon/1991): Com este disco, Mara vestiu a bandeira da cultura indígena e gravou um dos temas mais lembrados de sua fase secular. Composta por Robertinho do Recife, a faixa de clima carnavalesco traz a apresentadora como ser elementar da natureza e ensina vocabulário tupi (“tuiuiú”,”curumã”,”arauê”). Defendeu o culto a boa forma de forma positiva em “Mens Sana In Corpore Sano” (Alexandre Agra/FredNascimento/Tavinho Paes). Contém composições de Guilherme Arantes (Óleo e Alegria) e de Roberta Miranda, de influência flamenca “Sou Toda Você”. Refez conexões com a música baiana ao gravar o axé “Tomara” com a Banda Mel e denota flerte com a música evangélica ao regravar “Naves Imperiais” do Oficina G3. Novamente, tem nas baladas seu maior escudo: “Vivendo e Aprendendo” e “Agora O Que é Que Eu Faço”, que são as favoritas entre os seus fãs. Considero este o mais conceitual de sua carreira e possui uma de suas melhores capas, clicada pela jornalista Lúcia Rocha na reserva ambiental de Xerém (Duque de Caxias/RJ) .

3° – Importante É Ser Feliz (EMI-Odeon/1993): O projeto mais ambicioso (e o mais caro pela super produção),  possui a impactante regravação de “Jesus Cristo”, clássica canção de cunho religioso gravada originalmente por Roberto Carlos em 1970,  com a participação do grupo percussivo Olodum, regido pelo saudoso mestre Neguinho do Samba. Com maior foco no axé, Mara canta composições de Cid Guerreiro em “Maravilhê” e dos integrantes do grupo “A Cor do Som” em “Calendário da Mara”. De forte apelo sentimental, contou com o apoio do grupo Dominó na romântica “Sem Compromisso” (Mauro Motta/Arnaldo Saccomani). Este disco onde a intérprete das canções aparece mais contestadora, aceitando menos as imposições de um romance que não a fazia tão feliz e coloca sua satisfação em primeiro plano, lhe abriu as portas do mercado latino e encerra com chave de ouro uma época feliz de sua carreira, antes de sucumbir às pressões da concorrência, onde o canal SBT a deixou injustamente em segundo plano, desencadeando uma batalha judicial entre assessorias por publicar notas de teor duvidoso que lhe deram instabilidade artística.

O melhor da música do passado bate ponto na Nossa Sra. do Comeback, a coluna musical d’Os Entendidos.

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