Sobre a reação “violenta” dos oprimidos ou não foi falta de amor, Taís, foi RA-CIS-MO


No último final de semana Taís Araújo confrontou publicamente uma série de comentários racistas feitos em sua página de Facebook. E, numa publicação na mesma rede social, a atriz se declarou surpresa com as agressões cometidas contra ela e sua família, incentivou vítimas de discriminação a denunciarem as agressões sofridas e sugeriu o amor como antídoto contra a intolerância. Como se nenhuma injustiça jamais tivesse encontrado justificativas no amor ou como se racistas/homotransfóbicos/machistas/etc. fossem incapazes de amar. Não fosse isso inocência suficiente, o velho sermão sobre a necessidade de oprimidos serem pedagógicos com seus opressores retomou as timelines. Eis que pergunto: em que dicionário “intolerância” significa falta de amor ou de informação?

enegrecendo2

O que mais me incomoda nesse papo de “mais amor/didatismo, por favor” é o implícito zelo com o agressor e não com a vítima. Chega a ser cruel falar em etiqueta com pessoas que reagiram a algum tipo de discriminação. Reação dificilmente é um ato planejado, já a ignorância de uma agressão… em pleno 2015… pode ser comparada ao risco assumido ao dirigir sob influência do álcool ou outras drogas.

Tem gente que revida com ironia, outros com truculência, alguns outros com lágrimas, choque ou até mesmo paciência e explicação. Não há maneira certa nem errada. Cada um reage como pode e consegue dentro de suas (im)possibilidades. Sugerir um comportamento mais “apropriado” nessas situações revela a noção de que seria obrigação dos  representantes de uma minoria social transformar positivamente os sopapos da mesma sociedade que os rejeita. Exigir o mesmo comportamento indicado a uma vítima de assalto acaba reforçando o poder devastador das armas de quem agride.

Como já relatei anteriormente aqui, o início do processo de empoderamento diante de um mundo que nos subjuga é muito frequentemente uma jornada solitária. Pessoalmente desconheço qualquer caso de alguma pessoa negra, trans, homossexual etc. que tenha sido desconstruída, desde a mais tenra idade, por seus pais, familiares ou educadores. Geralmente é a ocorrência de algum evento traumático que leva à desconstrução. Costuma ser a necessidade de lidar com algum ataque o motivo pelo qual parcelas oprimidas iniciam o contato com a militância. Por isso responsabilizar pessoas oprimidas pela educação de seus opressores é muito pouco… simpático. É como pedir a pessoas empoderadas que sirvam de bandeja ao agressor um processo – doloroso – que representa uma conquista pessoal.

Infelizmente nem toda pessoa oprimida tem acesso ou condições de se munir de argumentos contra a opressão que sofre. Nem toda pessoa negra está ciente de toda a complexidade do racismo, assim como nem toda mulher compreende a necessidade do combate ao machismo e alguns homossexuais acabam reproduzindo – quando não internalizando – homofobia. Logo, esperar argumentos didáticos de todo representante de uma minoria beira a cretinice.

Porém, como prefiro acreditar que tal sugestão de “mais amor e educação” a grupos marginalizados vem de um lugar de intenções inocentes, recorrerei a alguns dados, no Brasil: os assassinatos de 95 adultos e crianças negros por dia são facilmente justificados pelo mesmo senso comum que fundou a KKK; a cada doze segundos uma mulher sofre algum tipo de violência no país mas, ainda assim, debater o assunto virou doutrinação esquerdopata; e, mesmo havendo países que punem com morte homo e transsexuais, somos campeões em tirar vidas por homotransfobia. Sendo assim, empoderar-se também significa encontrar aliados no esforço de sobrevivência numa cultura que massacra alegando o “Bem da maioria”. Militância não é apenas debate, troca de ideias, experiências e teorização, mas, fundamentalmente, um espaço de acolhimento e de resistência coletivas. Portanto entenda que existem pautas mais urgentes a militantes do que educar amavelmente privilegiados.

Porém, se você ainda acha que deve zelar também pelos ignorantes/opressores lembre-se de que não há nada de revolucionário em ter compaixão pelo agressor. Levar em consideração os sentimentos de um ofensor branco numa sociedade racista não é demonstrar superioridade moral, mas, sim, seguir as diretrizes da cartilha que o privilegia. Mais especificamente, pedir paciência e perdão à pessoas negras confrontadas pelo racismo lembra os esforços de sinhôs e sinhás em tornar seus humanos-propriedades em “bons selvagens”. Remete a época em que senhores brancos esperavam graciosidade e gratidão das mesmas pessoas negras que barbaramente animalizavam.

Então, na próxima vez que for solicitar a uma pessoa desrespeitada respeito por quem a desrespeitou, tenha em mente que não há amor nem pedagogia suficientes que atravessem a falta de empatia de quem “tá pouco se lixando”. Mas antes aproveite a oportunidade e repense o foco da sua própria empatia. Talvez você esteja reivindicando compaixão e educação das pessoas erradas. Talvez você precise parar de fazer a Piovanni e inúmeros jornalistas e se informar sobre a diferença entre preconceito e sistemas de opressão. Afinal, o respeito às diferenças é o mínimo para o bom convívio em sociedade e, como tal, deveria ser uma iniciativa de todos nela inseridos.

Previous Héteros se orgulham de quê?
Next A trilogia pop de Mara Maravilha

No Comment

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *