Héteros se orgulham de quê?


A “ofensa” foi a derrubada da página “Orgulho de ser hétero”no Facebook. A página é famosa por suas postagens machistas, misóginas e LGBTfóbicas, mas seu discurso de ódio nunca foi proibido pela rede social. Naturalmente, vários ativistas ligados aos direitos humanos comemoram a vitória, mas como não se pode esperar que um privilegiado – por mais errado que esteja – consiga reconhecer sua posição de opressor, a alegria durou pouco. Na lógica do “macho hétero orgulhoso”, ele está sempre certo e jamais deve ser desafiado. Afinal, o mundo é estruturado para reafirmar essa ideia ao criar “super-homens” incapazes de empatia. Sério, do que essa gente se orgulha?

DandoPintaSloganA resposta ao “ultraje” foi rápida. Páginas de conteúdo feminista, pró-LGBT e de combate ao racismo entraram na mira de um “derrubaço” que pedia “olho por olho, dente por dente”. Os fantasmas surrealistas dos “gayzistas”, das “feminazi”, do “marxismo cultural” e da temida “ideologia de gênero” foram acionados, para pintar de sensacionalismo a “denúncia” que a família tradicional está sob ataque, de que a moralidade está se perdendo e de que a viadagem está dominando o mundo.

Ai, tadinhos dos héteros!

É a heterofobia que faz com que crianças hétero cresçam com medo, sem referenciais positivos sobre sua sexualidade na TV ou no cinema. É a heterofobia que faz pais homossexuais expulsarem seus filhos hétero de casa ou, em casos extremos, espancá-los até a morte. É ela, também, que faz os héteros andarem ressabiados pelas ruas, se perguntando de onde virá a próxima ofensa gritada, a próxima pedrada ou a próxima lampadada. Por causa da heterofobia, as novelas com romances heterossexuais foram boicotadas. Esse sentimento de ódio é tão forte que é capaz de vencer o amor, tão celebrando em nossa cultura, pois casais hétero morrem de medo de demonstrar afeto em público, já que isso pode lhes custar a vida. De fato, com tantas dificuldades, é incrível que essa identidade social tenha conseguido se articular em um movimento civil. É algo que precisa ser celebrado com um dia especial e com paradas e festivais culturais em todas as cidades. É motivo de ORGULHO.

Oh wait, esses somos nós!

O significado político do ORGULHO é uma resposta ao que é construído socialmente como motivo de vergonha. É por isso que não faz sentido falar em “orgulho masculino”, “orgulho branco” ou “orgulho hétero”, já que o modelo “homem branco hétero” é a pedra fundamental de nossa sociedade. Argumentações que justificam esse “orgulho” estão, na verdade, tentando deslegitimar o grito de movimentos sociais que buscam reformular essa estrutura em prol de uma sociedade mais igualitária. Assumir-se contrário a isso é um direito, mas está longe de ser motivo de orgulho.

Ficar “batendo o pé” pelo direito de ser machista ou racista é inútil. Infelizmente, discurso de ódio sempre vai existir, mas as coisas estão mudando. Não existe nenhuma “ditadura gay” ameaçando nada, mas os segmentos da população que antes eram varridos para debaixo do tapete estão ganhando voz e força nas redes. Picuinha de Facebook não é nada, já que páginas são criadas aos montes enquanto outras caem. Daqui a pouco alguma rede social nova acaba com o reinado do Zuckerberg e a gente para de tratar nosso perfil como uma apêndice de nossas vidas.

Podem gritar à vontade. Somos viados, somos vadias, somos pretos, somos pobres, somos indígenas, somos soropositivos, somos putas, somos abortistas, somos o que vocês quiserem! Depois de tanta pedra, não é um mimimi de macho valentão que vai nos dobrar.

Esses são os gritos de um animal agonizante. Por pior que seja a situação no congresso, por mais que a cada esquina uma nova igreja insana apareça, as coisas estão mudando. Vocês xingam a Taís Araújo, mas ela está lá na TV. Os personagens gays, também. O feminismo foi pro ENEM e as questões de gênero continuam sendo pauta nas escolas – já que vocês dividem o mundo em rosa e azul – independente do que é aprovado ou não pelo governo. Nós existimos e vamos continuar a existir, não importa o que aconteça. E ainda que muitos tenham morrido para isso, agora estamos aparecendo e esse processo é irreversível. “Aceitar” não é uma opção porque ninguém está pedindo permissão para nada. O respeito é um direito universal.

Há pessoas maravilhosas que podem e devem se orgulhar de muita coisa. Algumas delas, por acaso, são heterossexuais. Mas quando essa identidade só se sente segura se pisar nos outros, é uma VERGONHA.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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