Por que macho tem medo de bicha?


A notícia é escandalosa: “Rapaz se veste de mulher e beija 175 homens hétero em balada”. Em uma frase, o maior pesadelo da masculinidade construída. A história de um vilão tão mesquinho que é capaz de se disfarçar para “enganar” pobres mocinhos incautos, roubando-lhes o que possuem de mais frágil e precioso – a segurança sobre a própria heterossexualidade.

DandoPintaSloganQuando “saí do armário”, convidei um colega de escola a ir comigo a uma boate gay. Ele negou, muito assustado, justificando que não “ia dar esse mole” para chegar lá e algum cara passar a mão em sua bunda ou agarrá-lo no banheiro. Eu disse que ninguém faria isso porque além de ele não ser tão irresistível, as pessoas tinham educação e perguntariam se ele tinha interesse, até porque esse negócio de agarrar os outros e forçar a barra era coisa de “playboy metido a macho” em festa hétero, não dos domínios da Madonna.

O interessante dessa história é que ela revela como se estrutura o pensamento masculino. Para meu amigo, o simples fato de ser heterossexual o transformaria em objeto de desejo porque sua masculinidade – para ele, óbvia – seria um valor absoluto, muito maior que beleza, inteligência ou simpatia. Entre gays, ele automaticamente seria percebido como diferente, como “melhor”, e por isso mesmo, se transformaria em algum tipo de “prêmio”.

É claro que isso tem um fundo de verdade. A sexualização masculina em nosso mundo machista é predatória, e “tudo que é proibido é mais gostoso”. Além disso, a exaltação do macho e dos comportamentos considerados masculinos faz com que o desafio de “converter” um hétero seja um fetiche gay clássico, o que alimenta fantasias no outro lado também, já que os heterossexuais crescem com a ideia desse “poder”.

Pois é, trata-se de uma via de mão dupla.

O mito do “homossexual predador” só serve para endeusar ainda mais os heterossexuais. A própria distinção entre hétero e homo, essa classificação que cria a ideia da sexualidade como um rótulo indissociável – e imutável – dos indivíduos, já dá abertura para a hierarquização. Entre “normais” e “desviantes”, as identidades homossexuais foram transformadas em “perversão”. Até hoje, falar sobre esse assunto gera curiosidade e horror, porque a “anomalia” é vista como algo contagioso, do tipo que se as crianças – ou seus respeitáveis pais – ouvirem falar, vão correr para imitar. E nisso tudo, claro, há o tarado à espreita…

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“A saga da bicha irresistível” ou “Por que héteros são fascinados por gays?”

Foi o estigma que condenou a experiência homossexual aos becos e banheiros onde ela se deu durante anos. Hoje os direitos conquistados pelo Movimento LGBT permitem que casais homoafetivos se casem e adotem crianças, mas as práticas “underground” que marcaram nossa cultura sobrevivem como fantasias sexuais e também como um lembrete de que o preconceito ainda é forte e de que, fora de certas normatividades, a coisa não mudou muito.

É nesse contexto que a imagem da bicha degenerada, do afeminado que não se dá ao respeito, do gay que é incapaz de se casar, do homossexual pedófilo e do “destruidor de heterossexualidades” se forma e se mistura. É nessa primeira violência – a da exclusão através do estigma – que se cria esse “fantasma social”. Esse modelo ideal daquilo que um homem jamais deve ser.

Foi esse jogo de poder e de interdições que fez com que o tal rapaz da notícia colocasse uma peruca e saísse para pegar macho numa festa. Foram essas ideias perversas que transformaram isso em um fetiche, a ponto do caso virar notícia e de algumas pessoas acharem graça ou aplaudirem. Foram elas, também, que fizeram com que suas “vítimas” se sentissem enganadas, como se não tivessem sentido uma atração genuína pela pessoa que estavam beijando de livre e espontânea vontade.

Se esses caras foram realmente enganados, qual é o motivo da vergonha? Por que estão em depressão ou ameaçando o rapaz de processo e de assassinato? Segundo consta, eles “pegaram” uma figura feminina atraídos pelos signos que informam, em sociedade, o que é uma mulher. Ninguém anda com a genitália exposta ou discutindo sua identidade de gênero, então geralmente a comunicação se dá através de saltos, vestidos, cabelo longo e batom. Não era isso que eles estavam procurando?

Um relato comum entre mulheres trans é o do assédio de homens hétero, tão logo a transição começa. Tudo “no sigilo”, é claro, porque é sempre a primeira vez que bate tal “curiosidade”. Isso acontece com Drag Queens também. Ao que parece, basta um pouco de maquiagem para que caia a máscara de uma sexualidade definida como superior ou preferível. O que incomoda porque “homem que é homem” não tem culhão para abrir mão de sua posição “superior” e quebrar as caixinhas de um sistema que o beneficia.

Bichas, as senhoras são destruidoras mesmo…

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

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