Sobre o ENEM e a tal Ideologia de Gênero


Desde que se começou a polêmica moralista sobre o ensino da “ideologia” de gênero nas escolas, não pude deixar de sentir vergonha alheia. Quem estuda a linguagem, o discurso e a educação, como eu, sabe que o currículo escolar, os conteúdos ensinados, os livros didáticos e as provas padronizadas – como o ENEM – por serem discursos criados por pessoas são inevitavelmente ideológicos. O que isso quer dizer? Quer dizer que as ciências sociais e humanas nos últimos anos chegaram à conclusão de que imparcialidade e neutralidade científica são as maiores ingenuidades já vividas pela humanidade.

João Wanderley Geraldi (2010) escreveu que o grande problema no processo de transformação dos conhecimentos em conteúdos de ensino é que aqueles que são hipóteses formuladas para responder a perguntas, enquanto conteúdos de ensino são transmitidos como verdades. Nunca consegui esquecer essa colocação do autor. Lembrei dos meus tempos de educação escolar primária e secundária – e algumas vezes, infelizmente, na faculdade – em que me foi ensinado as formas “certas” e as formas “erradas” de explicar as problemáticas do mundo.

A maior parte das pessoas que sabe ler, escrever e que está na universidade ou que tem uma profissão já passou pela escola. E como professora e há muito mais tempo, aluna, não pude deixar de notar que uma das maiores heranças que a educação escolar nos deixou foi o pensar dicotômico. E sabe o que é mais complicado nisso? É que achamos e somos levados a acreditar que a vida e a sociedade – de complexidades evidentes – podem ser explicadas dessa forma simplista.

Mafalda, personagem criada pelo argentino Quino.
Mafalda, personagem criada pelo argentino Quino.

Quem estuda a linguagem, o discurso e a escola sabe que há bem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia. Por exemplo, o currículo escolar é um dos instrumentos que organizam os saberes considerados importantes de serem estudados pelos alunos em idade escolar e é o instrumento Fundamental no processo conservação dos conhecimentos historicamente acumulados, isto é, os valores sociais dominantes.

Contudo, o que são valores sociais dominantes? São os valores que por séculos foram tratados como neutros e imparciais. Valores sociais que englobavam e ainda englobam uma lógica masculina, branca, heterossexual, cisgênera e monogâmica. Para quem está dentro desse perfil, às vezes fica um pouco complicado de entender que o “o mundo é maior que o teu quarto”.

Entretanto, mulheres, negros e negras, homossexuais, bissexuais, transgêneros, poligâmicos etc, isto é, pessoas que não estão dentro da norma sabem perfeitamente do que estou falando. O reconhecimento desta limitação dos currículos fez com que as teorias pós-críticas curriculares afirmassem que as diferenças, subjetividades, poderes, discursos, culturas, gêneros, raças, sexualidades e etnias fossem incluídos nos currículos atuais, pois de que vale uma educação que ensina a maioria que ela é estranha, errada e inferior?

Como mulher, muito pouco me vi representada nos conteúdos que aprendi na escola. Nos livros didáticos, me lembro, sempre aparecia no papel de mãe, de filha ou de esposa. Sempre vinculada a profissões consideradas secundárias e/ou femininas, o que para muitos é a mesma coisa. A escola e os livros didáticos durante muito tempo me fizeram acreditar que eu jamais poderia ser a mulher que sou hoje em dia: uma pesquisadora, não daquelas que fica em laboratórios de jaleco branco, mas uma pesquisadora de ciências humanas e sociais, uma pesquisadora que estuda pessoas e comportamento social.

O currículo tradicional está se lixando para as diferenças e as vivências das minorias. A prova do ENEM 2015 foi o resultado de muita luta, muito grito e muito sofrimento. Estamos há tempos aos berros afirmando quantas pessoas são mortas, violentadas, estupradas e são excluídas diariamente no Brasil. De que adianta o ENEM discutir o escândalo da corrupção da FIFA ou o “movimento imigratório para o Brasil no século XXI”, se uma mulher a cada 11 minutos é estuprada no país? De que adianta, se o Brasil é um dos países mais transfóbicos do mundo? De que adianta não admitir o nosso racismo se é normal revistarmos o negro e não o branco? Ser contra a “ideologia” de gênero é ser a favor da desigualdade social, da violência, do silenciamento, do assassinato e da exclusão de pessoas.

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