O amor no capitalismo e o capitalismo do amor


A pós-modernidade é a experiência quase permanente de desejos, prazeres e realizações a serem perseguidos/as continuamente. Nas sociedades líquidas – como a nossa –, há uma desregulamentação de inúmeros lugares, antes normatizados pelo Estado, em favor de uma “individualização” contínua e cada vez mais latente, nos quais as pessoas devem tatear suas “liberdades” e traçar os seus caminhos solitariamente.

O desapego, a descontinuidade e o esquecimento parecem ser as características mais marcantes da atualidade. Em se tratando de identidade, nestes tempos pós-modernos, esta se tornou um tanto complexa de ser discorrida. Nosso estado atual de “liquidez” compromete a durabilidade dos produtos que consumimos, das decisões políticas e inevitavelmente alteram as relações sociais e íntimas também.

Toda esta complexidade se amplia quando olhamos o mundo globalizado, o qual traz uma série de modificações para a vida social cotidiana. Fabrício (2006) aponta, dentre outras práticas: i) a mercadologização da vida ii) a onipresença midiática; iii) a compressão do espaço-tempo; iv) a difusão entre o público e o privado; v) as práticas de imediaticidade, pelo consumo, para satisfação de prazeres em declínio do imperativo social e moral; vi) o culto à aparência, à imagem.

No entanto, na obra Amor líquido – sobre a fragilidade dos laços humanos (2004), Zygmunt Bauman parafraseando e atualizando Karl Marx afirmou que, em se pensando em relacionamentos, nada atualmente é feito para durar. Jamais os laços humanos afetivos foram tão frágeis e descartáveis. Significativamente, diferente de outros momentos históricos, o amor romântico tornou-se quantificável e nós, sujeitos constituídos de alteridades complexas, nos tornamos produtos que consomem e são consumidos por outros sujeitos complexos.

Nesse sentido, passei a me questionar a respeito do lugar de constituição da identidade quando os laços afetivos estão comprometidos. Isto é, até que ponto somos realmente sujeitos de escolha se estamos “produtificados”? Como compreenderemos a fundamental importância dos outros em nossas identidades em um mundo individualista?

Paralelamente a todos estes apontamentos, uma curiosa – e pertinente – instalação artística luminosa foi instalada na cidade de Berlim em 2012 (ilustrada acima), onde se lê, em inglês, “O Capitalismo mata o Amor”.

Penso que o amor romântico pode ser perverso, às vezes. Uma pessoa incompleta e por sentir na pele a sua incompletude, se relaciona com outra. O amor romântico durante certo tempo significou conforto, zelo e segurança. Contudo, convém pensar se na atual conjuntura histórica, social, política, cultural e identitária nos sentimos de fato próximos em nossas relações.

Sigo um Instagram muito interessante que se chama Dilemas Líquidos (@dilemasliquidos). A descrição deste é uma citação de Bauman (2004) que diz o seguinte: “vivemos em tempos líquidos, nada é pra durar, tampouco sólido. Os relacionamentos escorrem das nossas mãos por entre os dedos feito água”. As pessoas que administram este Instagram afirmam que não apenas o amor é líquido na atualidade, como também os dilemas que estão atrelados a este.

Penso nesta página como um grande resumo verbo-visual do momento em que estamos vivendo e das sensações que estes nos possibilitam carregar sobre o amor romântico e as relações íntimas. Trago aqui alguns exemplos das imagens que são veiculadas neste Instagram:

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Estão nos cartazes os seguintes enunciados “ele terminou com você por mensagem”, “vocês se amam mas nenhum assume”, “você chegou na festa e tinham dois paqueras”, “você conheceu ele no Tinder e tá com medo de encontrar ao vivo”, “você gosta dele mas também quer ficar com outros”, “você conheceu seu namorado no Tinder e não sabe como contar isso pros seus pais”, “vocês se dão super bem por mensagem, mas ao vivo fica tudo mais complicado” e “ele não conversa, só manda links”.

Observando os cartazes e a instalação luminosa – como  textos que dialogam e fazem parte de sentimentos pós-modernos semelhantes –, noto que cada vez menos estamos dispostos a lidar com as incertezas e instabilidades que só os outros e as intimidades proporcionam. Como uma estratégia emocional-psicológica, em decorrência de nosso sistema econômico, estamos nos resumindo e os demais em propriedades, discursos e imagens que nos proporcionam seguranças líquidas.

Freud, em O Mal-Estar na Cultura, afirmou:

O sofrimento ameaça de três lados: a partir do próprio corpo, que, destinado à ruína e à dissolução, também não pode prescindir da dor e do medo como sinais de alarme; a partir do mundo externo que se pode abater sobre nós com forças superiores […] e das relações com os outros seres humanos. (FREUD, 2010, p. 63-64)

Indivíduos da atual sociedade do consumo tem sede de infinito. Ansiamos começar e terminar, para começar a recomeçar novamente. Temos carências e temos consciência destas. Queremos proximidade, almejamos calor humano e necessitamos dizer ao mundo o que sentimos para – quem sabe – despertar em alguém empatia. Mas, há também aquela liberdade que só a solidão proporciona. Desta solidão, apesar de melancólica, nós gostamos. Há os ex-amores e as paixões mal resolvidas. Há o platonismo e a insistência no desejo narcísico de querer estar com todos/as e ao mesmo tempo com ninguém.

Nunca iremos coincidir com nós mesmos, já dizia Bakhtin. Somos inesgotáveis. Inesgotáveis em desejo – seja ele qual for. Somos livres e por esta razão não apresentamos – nem podemos apresentar – garantias. Mas não ter garantias nos exime de atos éticos? Ou uma nova ética dos relacionamentos está se estabelecendo e ainda não sabemos ao certo onde ela irá nos levar?

A problemática que me parece evidente é que, em meio a tantas atualizações e inovações tecnológicas, nossa cultura ainda vive no conceito de amor romântico do século XIX – época do seu surgimento. Somos constituídos, desde o nascimento, em discursos que ao abarcar nossos medos mais primitivos, colocam o amor romântico como a solução-chave para a maior parte destes.

E assim os sujeitos, estranhos um ao outro, começam e recomeçam a sua jornada pela estrada do amor, que nada tem de amável. Se perdem em suas inseguranças, desejos e vontade de liberdade. Plantam novas frustrações e colhem outros objetos de consumo. Disfarçamos mal-estares na cultura com selfies em smartphones e amores catalogados.

As questões que ficam são: como estão se estruturando nossos relacionamentos? Estamos nos objetificando e objetificando os outros para nos relacionar? “Antigamente” era “melhor” ou apenas diferente? Quais as consequências, positivas e negativas, emocionais, psicológicas e físicas de relacionamentos de consumo?

Se o capitalismo matou o amor? Não posso dizer que sim. Tampouco me sinto à vontade para dizer que não. Sinto como se estivéssemos traçando os caminhos predeterminados e esperados para os nossos previsíveis papéis no mundo do consumo. Sorrimos quando necessário e choramos segundo a mesma comodidade. Cantamos alto a alegria desesperada da vida líquida. Caímos em solidão e esquecemos do que está por vir por consolo e compaixão de nós.

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