Lindos, discretos e fora do meio: Eu peço perdão!


Fui acusado de perseguir e discriminar homens bonitos. De usar filosofia barata e militância de Facebook para dizer que gays “discretos e fora do meio” estão errados, que oprimem os outros apenas por existir. Tive minha vida pessoal analisada, porque em tal foto estava de barba ou porque em outra não “dei pinta” o suficiente. E claro, fui acusado de fazer isso tudo apenas por inveja ou “recalque” por ter “tomado um toco” de um macho qualquer. É, chegou a hora de fazer um mea-culpa e pedir perdão.

DandoPintaSloganRealmente, deve ser muito triste ser um Deus. Na época em que o mundo é uma vitrine e uma foto roda o globo em minutos, um tsunami de likes é capaz de eleger reis. Corpo branco, dentes brancos, cintura fina, veias saltadas, músculos inchados, voz grossa, barba densa. Um “jeito de macho” que precisa se traduzir em signos, no olhar e nos gestos. É, deve ser difícil manter tudo isso e ainda parecer natural.

É “apenas questão de gosto”, mas não é uma coincidência incrível que o Superman seja assim? Que os caras na capa da Men’s Health e os bonecos de soldado também? Na novela, não é natural que o mocinho seja lindo e os bandidos sejam velhos, negros ou gordos? Claro que é. Questionar isso é obviamente uma loucura da minha cabeça recalcada, opressora de maiorias, gayzista, esquerdopata, pró-transfeminismo e apoiadora do movimento negro. Realmente tenho que pedir desculpas a você, homem gostoso, por seu sofrimento.

Só que não, néam?

Não há como odiar gays que “parecem hétero” porque não existe opressão contra quem está na norma. Se existe um tipo ideal, é porque se produz e ratifica um discurso sobre pessoas que valem mais do que outras, e quando alguém faz parte do grupo privilegiado e não consegue – ou não quer – perceber seus privilégios, temos um problema.

Hoje, eu “virei tudo que nunca fui”. Se antes eu era o viadinho da turma, a bichinha da família que não daria para nada mas daria para todo mundo, na política virei macho – justo eu, com minha tatuagem da Barbie – , cisgênero, branco, rico, com curso superior e voz de opressor. Justo eu, que era tratado como um nada, nesse meio fui chamado de sortudo, de privilegiado. E foi interessante descobrir que era verdade. Dependendo do assunto ou do contexto, mesmo ferrado, eu ainda estava em uma situação “menos pior” em relação a outro. De repente foi chato quando me disseram que era branco demais para falar sobre racismo, ou homem demais para falar sobre o feminismo, mas ao invés de bater o pé, me dei conta que fazia sentindo.

Reconhecer meus privilégios não diminuiu minhas dores. Ao contrário do que o povo pensa, ninguém está fazendo um “concurso de opressões” para escolher quem sofre mais. Dor é dor, violência é violência. Entretanto, embora eu esteja diariamente exposto à violência homofóbica, o fato de ser um homem me coloca em uma posição diferente das mulheres, e o acesso que tive desde pequeno à educação define minhas trajetórias na capital onde vivo, meus projetos para o futuro e a chance de eles darem certo ou não. Não é culpa minha e não é defeito, é só o que é. E não reconhecer isso seria burrice ou, pior ainda, maldade.

Ninguém persegue ou oprime “lindos machos brancos”. We love them! Dizemos isso quando os colocamos nas listas de “Top gatos” de revistas e sites, ou quando uma horda de fãs sai em defesa raivosa do cantor bonitinho que foi racista, sim, mas poxa, é tão bonitinho…

Não há nada de errado em ser “perfeito” ou mesmo em fazer esforço para se aproximar disso. Tem gente que é branca, tem gente que é rica, tem gente que é magra, tem gente que malha, tem gente que tem sorte. Só que tem um MONTE de gente que não tem. Gente que não aparece em capa de revista, gente que tem sonhos frustrados, que é dispensada com grosseria, que vai sendo colocada para baixo, que vai sendo convencida de que vale menos porque é tratada como inferior. Todos precisam aprendam a lidar com seus problemas da melhor maneira possível, mas fazer um esforço para se colocar no lugar do outro é fundamental.

Isso pode ser chato quando estamos acostumados a estar no topo, mas esse tipo de observação sobre a sociedade ou sobre relações de poder é, em geral, sobre grandes estruturas e não sobre pequenos indivíduos. Se você, indivíduo que leu até aqui, por acaso é um desses “homens modelo”, e fica chateado quando alguém aponta suas vantagens, não leve para o lado pessoal. O problema só é VOCÊ se você fingir que ele não existe ou contribuir para a ideia de que certos corpos ou comportamentos são superiores a outros.

Ninguém quer passar por cima do seu sofrimento, e caso essa seja a impressão, peço perdão. E se eu posso, você também pode.

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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