Por que menino não pode brincar de boneca?


Quando a primeira linha de brinquedos dos Power Rangers chegou às lojas, as crianças enlouqueceram. O programa fazia sucesso na Rede Globo e os bonequinhos “morphavam” com um mecanismo que os fazia girar a cabeça e virar os heróis. Eles ficavam horríveis por causa disso, mas era legal e todo mundo queria. Foi nessa época que testemunhei uma cena triste em uma loja que me lembrou do meu lugar, e de como coisas tão bobas como um brinquedo podem ameaçar a masculinidade: um pai comprava a coleção para o filho, que devia ter uns 5 anos, e disse que ele poderia ter todos, menos os rangers amarelo e rosa, porque aqueles eram bonecas…

DandoPintaSloganNa verdade, não eram. Embora representassem personagens femininos, eram “figuras de ação”, que nada mais é do que um termo publicitário criado pela fabricante de brinquedos Hasbro para lançar o G.I.Joe – que aqui foi chamado de Falcon. A questão é que aquela figura humana articulada tinha roupas – de mergulhador, do exército, de marinheiro – e por isso só existia uma palavra para defini-la: DOLL.

Em inglês, a palavra doll não tem gênero. Entretanto, desde 1959 a Mattel Toys tinha lançado uma boneca que fez tanto sucesso que passou a ser mundialmente associada a esse termo. Até hoje, a Barbie é uma das marcas de brinquedo mais conhecidas do planeta, e embora a explosão cor de rosa que ficou tão associada a esse nome só fosse ocorrer em 1977, com o lançamento da Barbie Superstar, a criação de uma “figura de ação” estava apenas tentando disfarçar o óbvio: o Falcon era uma “Barbie pra menino”!

Quando os políticos e pensadores da sexualidade afirmam que o gênero é uma construção social, são acusados de tentar deturpar o que seria “natural”. Ora, a divisão do mundo em “rosa e azul” é talvez a primeira marca da organização de nossa sociedade, e não é por acaso que tantas pessoas se veem confrontadas com ela. Pode ser natural ter um tipo de genitália qualquer, mas o tipo de comportamento, de sexualidade ou de aparência necessários para que um indivíduo seja reconhecido e aceito como homem ou mulher é algo que se aprende. É uma construção dos sujeitos – e de sua subjetividade – que começa na primeira ultrassonografia, passa pelo enxoval e pelas brincadeiras da infância, e vai afetar a vivência, as oportunidades, os afetos e até mesmo a expectativa de vida ou nossa vulnerabilidade a episódios de violência.

Por causa do dia das crianças, a moda no Facebook foi colocar fotos infantis nos perfis. Eu e vários dos meus amigos nos divertimos vendo as “crianças viadas” que fomos, mas a maior parte das pessoas trans que conheço não tinha uma memória positiva dessa fase para partilhar porque a normatividade de gênero aprisionou seus pequenos corpos e as impediu de viver sua identidade até a idade adulta. Já falei na coluna sobre a importância da Barbie na minha vida. Nem em sonho quero sugerir que tenha noção do que é viver como uma criança trans, mas por causa de um brinquedo eu fui confrontado com o fato de que tinha alguma coisa de estranho e de indesejável em mim.

Ross BarbieQuem lembra do episódio de FRIENDS em que Ross faz de tudo para que seu filho troque a ameaçadora boneca Barbie por uma – o que mais? – figura de ação de um homem musculoso, para brincar de tiro? Pensando em piadas, lembro do comercial de camisinhas argentino que sugere que um pai, obcecado por dar bonecos de soldados para o filho, só é doido por machos mesmo – o filho substitui as bonecas por mulheres em sua cama. Em Junho desse ano, a foto das lembrancinhas do aniversário da Barbie do menino Gabriel circularam na rede. E num misto de inveja e felicidade, eu sorri e chorei porque as decepções que sofri em vários dias da criança talvez tenham pavimentado o caminho para que hoje alguns meninos possam apenas ganhar uma boneca – um pedaço inocente de plástico – sem serem acusados de destruir e envergonhar o “legado sagrado da masculinidade”.

É por causa dessa acusação que não fico surpreso quando, em pleno ano 2015, vira notícia mundial o fato de um pai amoroso permitir e achar legal que seu filho queira uma boneca da pequena sereia. Não fico surpreso que a manchete considere isso “incrível” porque me lembro perfeitamente quando, em 17 de fevereiro do ano passado, um pai matou o filho a pancadas porque o menino gostava de lavar louça. Naquele dia eu morri um pouquinho também.

Enquanto todos gritavam que eu era diferente, minhas bonecas foram as únicas a sorrir para mim. Por que um menino não pode brincar de boneca? A quem isso ofende? Deve ser muito fraco esse sistema, para se abalar com tão pouco…

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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