Nenhuma família existe!


Ah, a família… A fertilidade sempre foi celebrada pela humanidade e a ideia de “crescer e multiplicar” – tão essencial para o domínio de territórios e mentes – está na base da mitologia judaico-cristã. Do Gênesis ao “cântico dos cânticos”, até o natal com seus presépios, a união entre corpos e especialmente a capacidade de gerar frutos sempre foi aplaudida. É na família que encontramos apoio. A família é sagrada. Mas foi inventada.

DandoPintaSloganIndo direto ao ponto: não há nada de especial em fazer filho. Nós podemos gostar de sexo, endeusar ou problematizar o ato sexual, desenvolver fetiches e afins, mas na natureza a reprodução se dá até pelo ar, o que poderia muito bem ser o nosso caso. OK, não é. Entretanto, não há mistério nenhum em juntar óvulos e espermatozoides. O difícil é criar.

Somos seres sociais. Nossa Cultura é formada por estruturas que não só possibilitam nossa sobrevivência, mas também ditam como podemos sobreviver. Mesmo antes de nascer, passamos a aprender como nos comportar de acordo com certos parâmetros e o que podemos esperar de certas relações, ou que características alguma coisa precisa ter para ser classificada de tal e tal forma. É por isso que a definição de família – como conceito – é terreno de disputa política e ideológica.

Tal como acontece com as sexualidades, existe uma disputa de identidade. Uma batalha por reconhecimento.

Crescemos escutando que família é a base de tudo, que os laços de sangue são os mais fortes e que no seio familiar, encontraremos o apoio necessário para nossa formação. Acontece que parente não se escolhe, e para muitas pessoas LGBT esse quadro feliz da “família de comercial de margarina” está longe da realidade. Temos pais espancando filhos gays, mães que fazem de suas filhas lésbicas prisioneiras, pessoas trans expulsas de casa, tios molestadores, irmãos chantagistas… A lista é infinita.

A “tradicional família brasileira” é cheia de histórias sórdidas, como já contava Nelson Rodrigues nos anos 1950. Curiosamente, não importa o tamanho da bizarrice. O que vale são as aparências. Casamentos arranjados, uma fachada de monogamia que esconde “mulheres da rua” em oposição à “mulher de casa”, violência e aquelas disputas gostosas por herança, já que nada como dinheiro para acabar com esse amor todo. Nesse contexto, não é de admirar que nossa “grande família” esteja tão à flor da pele que qualquer beijo de novela a faça chorar! E com tudo isso, é muita ousadia tentar limitar esse conceito a “união entre homem e mulher, com filhos”

O alvo do Estatuto da Família são as uniões homoafetivas, o que é ridículo porque não faz sentido acusar de “falta de moral” quem ESCOLHE formalizar alguma entidade familiar. Além disso, há famílias de todos os tipos e de todas as configurações. Casais que não podem ter filhos, avós que criam seus netos, mães e pais solteiros, irmãos órfãos e até amigos que se juntam sob um mesmo teto, muitas vezes depois de terem sido rechaçados por quem os colocou no mundo. E é tudo família, é tudo amor. Tudo é amplamente praticado, independente do papel, dogma ou do que o juiz considera certo ou errado.

É a mesma Cultura que classifica certos laços, certas relações e certos relacionamentos sob o nome de “amor”. Foi ela que construiu historicamente a ideia de que é esse valor – o amor – que define quem é digno de ser chamado de pai, de mãe, de irmão e é claro, de amante.

Dizem que Deus – figura construída filosoficamente como um pai – é amor. E se o que vale é mesmo o amor, não há como levar à sério quem baba feito um cão raivoso para tentar acabar com o “final feliz” dos outros. Nenhuma família existe porque qualquer coisa pode ser uma família, até uma pessoa sozinha com seu papagaio. Basta que exista o tal do amor.

Homens e mulheres podem tentar se enquadrar em um modelo social de perfeição, isso é perfeitamente legítimo. Mas há muitas outras opções nas prateleiras da vida, e isso também é digno, legítimo e válido. Em todas as cores e em todos os formatos, até com gente que não é parente mas que se gosta. Família é isso. Não dá para limitar. Não é no “coração de mãe” que sempre cabe mais um?

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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