Dois Garotos se beijando e Naomi & Ely e a lista do não beijo

Dois Garotos se beijando e Naomi & Ely e a lista do não beijo

Na #ESTANTE de hoje, falaremos de dois livros da tia Levithan. Um é o Dois garotos se beijando e o outro Naomi & Ely e a lista do não beijo, que ele escreveu em coautoria com a Rachel Cohn, ambos publicados pelo selo Galera, do Grupo Editorial Record.

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Dois garotos se beijando fala do plano de dois meninos, que já foram namorados, de quebrarem o recorde de duas pessoas se beijando ininterruptamente, como um manifesto em favor da diversidade e como maneira de ajudar um amigo que sofreu um ataque homofóbico. Durante a realização do projeto, acompanhamos não só o que pensam os dois garotos, mas algumas pessoas que estão em seu redor.

Mesclando esse tempo narrativo, também temos, intercalando, as vozes de gays do passado, que falam de todas as coisas que sonharam, esperaram e sofreram, até que a possibilidade desses dois garotos se beijando e sendo mostrado ao vivo pela internet fosse possível.

Duas coisas me chamam atenção nessa nova publicação de David Levithan: a primeira se refere à escolha do narrador, “narradores”, já que é uma voz plural. São as vozes de todos os gays que vieram antes dos meninos do romance. Eles têm como função não apenas contar essas histórias, mas interpor a realidade de antes, principalmente dos mortos pela AIDS, e evidenciar os desejos e os sentimentos que eles nutrem para as próximas gerações. No início essa forma de narrar é um tanto aborrecida, há muito discurso de “auto-ajuda”, ou assim me parece, porém no decorrer do romance isso diminui e vai se encaixando melhor na narrativa.

A segunda é sobre Avery, o menino trans. Se tinha uma coisa que sempre me incomodou nos romances gays de Levithan era o tom cômico, esdrúxulo e surreal que ele dava aos personagens travestis, principalmente por eles estarem em um ambiente escolar. Sempre me pareceu fora da realidade, superficial no que concerne a essa identidade, a essas pessoas.

Muito embora a condição transexual não seja muito aprofundada no livro, ele me parece muito mais humano que os outros personagens que poderiam ou tinham algo de semelhante com ele. Aliás, nesse romance as personagens parecem ser mais humanas, mais críveis em sua construção e apresentação de seus sentimentos.

Mas por que dois garotos se beijando, em um enredo que se fala mais do que o beijo dos meninos?

A resposta mais objetiva é a de que é baseado num fato real, dois meninos beijaram com os fins de bater o recorde de beijo mais longo. No entanto, há questões outras que envolvem o beijo.

O beijo é entendido por algumas perspectivas interpretativas como uma metáfora para o sexo. Há a união dos corpos o penetrar de um corpo no outro, por meio da língua. É também símbolo de desejo e de sentimento. Demonstra o amor, ou a possibilidade dele, entre duas pessoas. É algo que pode ser feito em público (aqui se leva em consideração que, sexo em locais públicos é considerado atentado violento ao pudor), daí muitas manifestações LGBT girarem também em torno do beijo.

É o manifesto da visibilidade. Se o sexo é relegado ao espaço íntimo e privado, e como muitos dizem a LGBTs, que se eles querem ser do jeito que são, que o façam entre quatro paredes, o beijo enquanto ato político é a evidência da existência. Uma existência que quer viver plenamente seus sentimentos, demonstrá-los, sem ter vergonha. Uma existência que empondera e é emponderada, pelo ato, comum, do dia-a-dia. Como é (ou deveria ser) dois garotos se beijando.

naomi e elyJá em Naomi & Ely, vemos o desenrolar da briga que acontece entre Naomi e Ely, amigos desde sempre, que superaram o fato de seus pais terem tido um relacionamento extraconjugal, que quase destruiu ambas as famílias. Eles brigam porque Ely e o atual namorado de Naomi, Bruce, acabam se beijando. O ponto é que, Naomi não está brava por ter perdido o namorado, mas por ter percebido que até o cara que ela namorava por namorar, tinha conseguido o que ela sonhou por toda a sua vida até este presente momento: ser o amor de Ely e, por conseguinte, sua namorada. Ela fica com ciúmes de Ely, mesmo sabendo que ele é gay.

A história gira em torno de como eles se comportarão com essa amizade abalada. Eles e todos que estão em volta. Aliás, a narrativa se dá pelas perspectivas das várias personagens, o que dá uma boa dinâmica pra narração e faz a gente ficar mais próximo das personagens.

Ely precisa aprender a ser alguém que vai devagar e que não corre dos relacionamentos. Naomi a parar de viver em um mundo de fantasia.

O livro é bem engraçadinho, embora quase o tempo todo Naomi seja uma personagem detestável. Pontos extras pra Robin (mulher) e pra Bruce, o segundo (ex da Naomi e atual de Ely).

O uso de emojis no texto me incomodou um pouco, pois não vi a necessidade estilística disso, Claro que, nas partes em que há mensagens de texto, elas fazem sentido, mas durante a narração, me parece bem despropositada.

No mais, achei bem interessante quando Ely conta que sofreu um pouco, quando saiu do armário, mesmo sendo filho de um casal de lésbicas, evidenciando assim que, mesmo entre casais homossexuais a expectativa é que os filhos sejam heterossexuais. Isso acontece, a meu ver, pelo fato de nossa sociedade insistir na ideia de que os pais influenciariam na orientação sexual dos filhos, o que é uma perspectiva bem equivocada, como sabemos, né? Ely deveria gostar de mulheres, nesse caso, já que suas mães são lésbicas. Nos deveríamos ser heterossexuais, já que crescemos bombardeados de imagens e discursos heteronormativos. Mas eis que, assim como Ely, somos homossexuais.

Enfim, acredito que as mães de Ely, assim como deve existir pais por aí, tiveram medo de serem acusadas de influenciar o filho. De serem culpadas. E, assim, pela coação psicológica e discursiva, acabaram por reproduzir um discurso heteronormativo.

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