Abra sua mente, G também é gente!


Oh, the gays… Eles parecem só se preocupar com a Madonna, com poppers, com o preço daquele lubrificante do tubo roxo, em exibir os tanquinhos na praia e em escrotizar os outros nos aplicativos. Fúteis e gordofóbicos, usam pessoas trans para fazer piada mas se beneficiam da invisibilidade das pautas T. Não são e não curtem afeminados, embora ninguém tenha perguntado. De alguma forma, parecem jogar contra tudo que o movimento LBT luta para conquistar. E olha que são os primeiros beneficiados de qualquer coisa! Como isso aconteceu?

DandoPintaSloganNa coluna passada, fiz uma pesquisa com os leitores. Com uma foto típica das notícias ou propagandas que reforçam a imagem “perfeita” do “gay de consumo”, além de uma chamada sensacionalista, resumi um pouco da história do movimento LGBT para ver se o público responderia apenas ao que aparece nas miniaturas do Facebook, ou se chegaria a ler e entender o texto apresentado.

Em termos estatísticos, a coluna não teve uma performance particularmente melhor ou pior do que a média. Exceto quando algum texto é redescoberto e viraliza por algum motivo, em geral o dia de maior repercussão da Dando Pinta é a quarta do lançamento, com visualizações progressivamente menores nos dias seguintes. Dessa vez, a Revista Fórum compartilhou o link da sexta-feira, o que deu novo fôlego ao post e praticamente repetiu o resultado de quarta. Entretanto, a parte interessante estava obviamente nos comentários e nas interações, enquanto alguns defendiam a leitura do texto daqueles que diziam “não vou ler”, outros simplesmente compartilhavam e comentavam como se a notícia do título fosse verdade, o que só comprovava não terem lido.

O texto fala um pouco do momento de disputa que atravessa o movimento LGBT e como o papel de homens gays – particularmente os brancos – está controverso nessa discussão. Fala também do quanto esses homens devem às trans finíssimas e às lésbicas, e também às bichinhas tão desprezadas por eles, o que bastou para que me acusassem até de PERSEGUIR o “G” de nossa sigla.

Apontar esse histórico, na esperança de que o debate conscientize, é uma das estratégias mais criticadas do movimento LGBT – ou de qualquer movimento político, aliás – para buscar a tão sonhada união entre as lutas. Afinal, não parece fazer sentido que exista uma “união separatista” que passe horas nas tretas de internet apontando privilégios, disputando protagonismo, lugar de fala, títulos de apoio ou pertencimento. Acontece que isso faz parte do jogo…

É óbvio que “os gays” deram motivo. No “salve-se quem puder” que é fazer parte de uma minoria excluída, agarramos qualquer suposta marca de superioridade para nos salvar do naufrágio. É um tal de “eles não se dão ao respeito” ou “sou gay, mas não sou assim” que só serve para jogar no fogo aqueles que por algum acaso estejam “à margem da margem”, com gostos e identidades consideradas muito “sujas” para estampar a “nossa cara” moderninha. A nossa imagem cult que transforma o indesejável em “alternativo” para que vire uma iguaria cool servida de bandeja à uma elite cultural “cabeça aberta”. Aos “gays limpinhos”, beijos de novela. Ao resto, as pedradas lampadadas. São feitos para apanhar, são bons de cuspir.

Entretanto, isso não quer dizer que gays sejam feios, sujos e maus.

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De fato, ninguém é obrigado a “levantar bandeiras” ou a conhecer a história de movimentos políticos, por mais que possa fazer parte de algum deles sem querer. Podemos pedir “mais amor por favor” e lutar por empatia, mas não há nada que obrigue as pessoas a assumirem lutas que não consideram suas. Quando falamos de política, a tensão e as disputas por identidade ou pela definição de pautas é natural. Esvaziar o valor disso e considerar tudo “mimimi” ou “chatice politicamente correta” é desrespeito e – olha que coisa – falta de empatia. É algo questionável ou mesmo condenável, mas como qualquer erro, é muito humano.

Não sei se o estado idílico do respeito à diversidade é um sonho possível. A classificação das coisas – que resulta em sua hierarquização e logo, em desigualdade – parece fundamental à lógica do pensamento, e quanto mais nos comunicamos, mais identidades e culturas são criadas e/ou reconhecidas. Melhor dizendo, entram na arena para lutar por seu lugar ao sol. Apontar incoerências é parte do processo, mas não há como apagar a história de opressão sofrida por um segmento, por mais que no contexto atual ele consiga se segmentar ainda mais. É algo que teremos que enfrentar para seguir com a fé de que o amanhã – esse tempo que está sempre à frente, sem nunca chegar porque quando é presente muda de nome – será um pouco melhor.

De qualquer forma, seguimos juntos. Não dá para esperar que todo mundo se ame e seja amigo, simplesmente porque somos uma comunidade formada por gente de todas as classes, de todas etnias, de todas as regiões do mundo e com experiências individuais variáveis. Ainda assim, estamos unidos por uma marca de exclusão que persiste mesmo por baixo de delírios de consumo e de drogas escapistas. Somos ALGBTTQIXYZ024esabedeusquemmais. E podemos brigar, sim. O importante é saber a hora em que é preciso passar por cima disso e nos unir.

Mais do que LGBT, somos – todos – GENTE. Melhor dizendo: entre tapas e beijos, tamo tudo na merda!

Permita-se. Seja livre. Seja fabuloso.

Leia Dando Pinta todas as quartas, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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