Carl Hart e a indignação pra “gringo” ver


Apesar do alarde, a comoção coletiva gerada pela notícia de que o pós-Doutor Carl Hart teria sido discriminado ao entrar no mesmo hotel de luxo paulista onde palestraria momentos depois, o próprio neurocirurgião ianque veio a público desmentir o ocorrido. Essa é uma realidade tão corriqueira que quase ninguém se surpreendeu com a possibilidade desse tipo de demonstração ainda acontecer no Brasil — o país da igualdade racial. A pergunta que fica depois dessa história toda é: Por que aceitamos tão prontamente um relato de discriminação racial erroneamente noticiado? Se ninguém se admira com um ato racista desses, onde guardamos toda essa indignação nosso cotidiano?

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O site Mamapress, ao comentar a polêmica, nos lembrou de quando Katherine Dunham, coreógrafa  e ativista estadunidense, foi barrada em um hotel carioca em 1950. Um ato que repercutiu tanto na época que viabilizou a criminalização de atitudes parecidas, porém, como nos lembra os autores, Rosane Aurore e Marcos Romão, no mesmo texto: Afonso Arinos morreu sem jamais ter visto alguém penalizado pela lei de sua autoria. Será que essa é a única lei bem sucedida em prevenir crimes do mundo? Infelizmente sabemos que não.

Mesmo sendo um país sem racistas, todos já presenciamos demonstrações — inocentes ou nem tanto — de racismo. Só que ao invés de denunciar esse crime ou pelo menos educar o criminoso corretamente, o brasileiro tende a deixar pra lá. Isso quando não fazem pouco caso da vítima, menosprezando o seu senso de dignidade. Seguindo fielmente a cartilha racista.

O que então, nesse caso, foi diferente? Por que não vimos o mesmo nível de repúdio quando o goleiro Aranha foi agredido por uma multidão num estádio? Por que não encheram a Maju de pedidos de desculpas como fizeram com Hart? Por que tão pouco barulho na semana passada quando a PM carioca impediu 15 (quinze) adolescentes negros de chegarem à praia? O constrangimento de anônimos vale menos likes?

Embora tenha ficado comprovado que o palestrante, de fato, não foi proibido de entrar no hotel por causa da sua pele, no mesmo vídeo em que ele atesta isso, ele também conta que isso só não ocorreu por intervenção da produção do evento. Ou seja, ele só não foi barrado porque alguém o reconheceu — para alívio dos não-racistas. Uma sorte de poucos que não nega o nosso racismo — para descaso dos não-racistas.

Talvez a única explicação não seja porque o racismo tupiniquim é vergonhosamente velado, mas também porque ele faz parte de um acordo social nosso: Negros brasileiros sofrem racismo e c’est la vie! Afinal, pessoas brancas ainda não entenderam que racismo não é um problema de pessoas negras, mas sim para elas. Sendo assim, a culpa só é reconhecida e compartilhada por branques quando o nosso mito da “democracia racial” está sob ameaça. Quando deveria ser tão comum quanto a nossa suposta hospitalidade com turistas.

Essa indignação seletiva ilustra bem uma peculiaridade do nosso racismo: o recato. Entre nós pode tudo: xingar, puxar pelo cabelo, silenciar, exterminar,…. Contanto que os outros não saibam, faz-se vista grossa pra tudo. Pois se há uma fama da qual brasileiros se orgulham é do nosso não-racismo. A percepção enganosa que gringos — e por gringos leia-se estrangeiros brancos — têm de que, diferente dos EUA e da África do Sul, o Brasil erradicou o racismo através da miscigenação. E viva nós! Ziriguidum! Até que algum deles nos visita…

Assim como Hart apontou no início da sua palestra é bastante notável — pra quem olha de fora como somos um país segregado. Em uma sala onde se debatia o combate e a criminalização das drogas, entre centenas de pessoas, havia só um ou dois negros no auditório. Mesmo o tema sendo de vital relevância para pessoas negras e pobres do país. Um fato no mínimo curioso pruma nação reconhecida mundialmente a pelo gingado de “mulatas”, pela “cor do pecado” e por um ídolo preto do futebol. Passamos a imagem de paraíso pós-racial, mas só se encontra grupos de pretos onde dinheiro não trava o acesso.

Imagino que muitos comentarão justificando ser uma questão social e não racial, portanto, caso tenham se esquecido: Quando a elite de um país não-europeu é histórica e majoritariamente branca, não há outro motivo se não o racismo. Quando o topo da hierarquia social de um país, originalmente não povoado por caucasianos, é dominado por pessoas brancas, soa muito ingênuo quando alguém diz que isso não passa de uma mera “coincidência”. A não ser que você confortavelmente se beneficie dessa relação injusta e desigual. Aí, meu claro, é caso da mais autêntica cara de pau, Brasil…

Leia a coluna Enegrecendo toda segunda, aqui em Os Entendidos, e não esqueça de curtir a nossa página.

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