Por que falar “TANTO” sobre racismo?


Como a maioria dos brasileiros, fui criado para achar que racismo era coisa do passado e que, diferente de outros lugares do mundo, o Brasil não seria um país de conflitos ou tensões raciais. Aqui todos “somos” iguais e, “com esforço”, todos temos as mesmas oportunidades. Apesar de todos os episódios de discriminação que vivi, presenciei e dos quais tomei conhecimento – os quais não tinham nenhuma explicação além da cor de pele e a textura do cabelo dos envolvidos. Também acabei assimilando o dogma tupiniquim da “democracia racial” e passei a classificar tudo como casos isolados. Até que um dia eu cresci acordei.

Olhando pra trás, é até compreensível como passei tanto tempo da minha vida escolar acreditando que o fato deu ter sido, muitas das vezes, a única criança negra da turma era um indicativo de que o racismo brasileiro é uma questão socioeconômica. Não só isso, como, por vários anos, interpretei a ausência de colegas de sala com o mesmo tom de pele que o meu como a evidência de que vivia numa sociedade inclusiva. Mesmo sabendo muito bem que, a minha presença ali não era uma medida da escola, mas sim dos esforços dos meus pais em manter as mensalidades em dia

O que de fato me impressiona hoje em dia é como foi fácil não ter sentido falta de pessoas negras, não só nas salas de aula, mas principalmente na TV, nas revistas e em quase todo produto cultural que consumia até bem pouco tempo. Sempre soube que a razão disso era uma das facetas do racismo, mas aceitei porque as coisas “foram sempre assim”. Dificilmente saberei precisar o real impacto de ter me espelhado por tanto tempo em heróis – galãs, mocinhas, inventores, filósofos, professores e inúmeros outros referenciais morais, estéticos e intelectuais – exclusivamente brancos, mas posso atestar, sem a menor dúvida, que não é positivo. Porque, se por um lado eu, um menino negro, aprendi a amar, respeitar e admirar ídolos brancos, tenho total certeza de que o efeito contrário nem ocorre na maioria das pessoas ao meu redor. Não que a falta desse esforço signifique, obrigatoriamente, que essas pessoas odeiem pessoas negras, porém, fica mais difícil respeitar-nos como um todo e não só individualmente.

São tantos os exemplos de casos isolados de racismo no Brasil que não faço nem ideia de quando a ficha caiu  juntando todos os caquinhos. Não foi o fato deu nunca ter me consultado com um médico negro, também não foi ter percebido que brancos predominam em bairros e cargos de elite com a mesma frequência que negros são maioria nas favelas, presídios e postos de trabalho socialmente menosprezados.

Foram tantas as oportunidades que tive de desmascarar a farsa que aprendi sobre sermos “todos iguais”. Tantos flagrantes de que brancos e negros não são tratados, ou desejados, ou admirados, nem sequer valorados da mesmíssima forma pela sociedade – começando pela polícia – que me pergunto como pude ser tão cego.

De fato, falar sobre racismo é incômodo bagaaio. Mais chato ainda se perceber alvo dele. Identificar os momentos em que você foi discriminado por ter a pele escura com as velhas desculpas: “não faz o perfil da empresa”, “não curto pessoas negras”, “é só uma questão de gosto”, “sem querer ser racista, mas…” e tantas outras máscaras nas quais o racismo se camufla. Esperando não ser percebido, muito menos contestado.

Enfim, uma vez que se percebe que brancos são mais exemplarmente iguais que os outros, se torna bastante difícil conciliar “igualdade” com todas essas exceções. A partir do momento em que se percebe que opressões como o racismo, o machismo e a homotransfobia se perpetuam da maneira mais sutil no nosso cotidiano, confrontá-las deixa de ser conveniente ou cômodo. Posicionar-se contra qualquer desigualdade não é pra ser um hobby, principalmente quando o seu está na reta, e mesmo que agora não tenha sido com você, nada e quase ninguém impediria de ter sido.

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