Amar é crime, de Marcelino Freire


Amar é crime, de Marcelino Freire e publicado pela Editora Record, é a segunda edição revista e ampliada pelo autor, com a primeira edição publicada pelo coletivo artístico Edith, em 2011. É, também, o primeiro livro dele que leio.

Conhecer um autor por meio de sua produção em textos curtos, como crônicas e contos, ainda é, a meu ver, uma das melhores maneiras de se aproximar de um novo autor. Isso se deve ao fato de você ver como ele lida com construções de enredo, personagens e linguagem, por exemplo. Mesmo que os textos estejam voltados para uma temática em específico, como é o caso deste livro.Estante2

Em Amar é crime, o amor torna-se criminoso por ser a manifestação de desejo reprimido, marginalizado, embrutecido. Um amor que, cansado do cativeiro, busca formas agressivas ou não convencionais de se manifestar. Formas de amar que dariam e dão muitos estudos de casos antropológicos, diga-se de passagem, e sobre essas questões, basta ler o prefácio do livro, que vem trazendo boas considerações sobre a escrita e a construção sociológica desses amores. Portanto, não é sobre isso que me deterei nas linhas a seguir.

Sobre o livro eu gostaria de falar de alguns textos dentre os 18 que a coletânea apresenta. Dos que eu quero comentar, todos são de temática LGBT.

O primeiro texto é um poeminha do amor concreto, que tem, como disse meu amigo Danilo Leonardi, “melhor final de poema”:

da mesma forma que você não dá o melhor de si eu dou o cu meu amor e daí (p. 23)

E já começa com a ideia de transgressão moral que o sexo anal, sendo ele feito ou não por homossexuais, tem na sociedade, embora seja fetiches e prática de muitos.

Há ainda os contos Declaração, sobre uma menina seduzida por sua professora; Nóbrega, também sobre um professor de música e seu aluno, por quem nutre um forte desejo; e o que eu considero o melhor de todos os contos dessa organização, o União Civil.

Este último nos apresenta dois meninos que se casam atrás da capela, mas que com o passar do tempo vão seguindo caminhos diferentes, até se reencontrarem anos mais tarde. Na verdade, esse conto vai se construindo em possibilidades, à medida que vamos lendo-o, já que vai intercalando algumas atividades de palestra de um escritor de contos, que tem essa imagem na cabeça: dois homens andando na rua com um carrinho de bebê. É por conta dessa imagem que ele vai costurando possibilidades que levam a essa situação.

Intercalar a construção narrativa e uma atividade ‘real’ de um escritor é o que me chama atenção nesse conto, as considerações feitas e o próprio enredo criado para essas personagens, que fogem do clichê de narrativas gays, ainda mais quando consideramos as voltadas para um público mais adulto.

No geral, mesmo os contos que eu achei ‘não tão bons’, apresentam uma escrita agradável e coisas bastante curiosas. Um livro de leitura fácil, e em alguns momentos bem divertida, que não perde a oportunidade do desassossego. Dá pra ler em uma tarde fácil.

E aí, gostou da resenha? Comenta e compartilhe com os amigos. Quer saber o que mais eu ando lendo? Acompanhe o Folhetim Felino: blog e canal do youtube.

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